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Barco de Papel » Maria Mariana volta aos palcos 20 anos depois de Confissões de Adolescente Atriz estava afastada dos teatros há dez anos

Agência O Globo

Publicação: 14/09/2012 14:36 Atualização: 14/09/2012 14:47

Atriz ficou famosa aos 19 anos e sua obra acompanha sua vida. Foto: Casa de Cultura Laura Alvim/ Divulgação
Atriz ficou famosa aos 19 anos e sua obra acompanha sua vida. Foto: Casa de Cultura Laura Alvim/ Divulgação
Maria Mariana tinha esquecido como é “bonito, mágico e misterioso estar aqui”. “Aqui” é o teatro, mais especificamente um dos palcos da Casa de Cultura Laura Alvim, que recebe nesta sexta-feira não só a estreia da peça Barco de papel, de sua autoria, mas a volta da atriz à cena. Ela também assina a direção e atua neste solo, que surge dez anos após seu último trabalho, em Todo mundo tem problemas sexuais, e 20 anos depois da peça que a lançou e, também, a fez repensar a carreira: o sucesso Confissões de adolescente (1992).

"Tudo começou muito cedo. Escrevi “Confissões...” aos 19 anos. O sucesso foi grande, de repente eu tinha coluna no Jornal do Brasil! Tive de responder à vida adulta muito cedo", conta.

Começar “muito cedo” quer dizer, na verdade, nascer em cima do palco. Filha do cineasta, autor e diretor Domingos Oliveira, que assina a supervisão da nova peça, Mariana acompanhava o pai desde os dois, três anos, tão cedo que nem se lembra da “primeira peça dele a que assisti”, diz. Se na infância o teatro era playground, no fim da adolescência ele virou profissão, e aí a barra começou a pesar. Mariana diz que a cobrança (“O que você pensa? O que você quer?”, diz) fez com que entendesse que precisava de tempo para que descobrisse respostas. Foi aí que entrou a maternidade. Não apenas como resposta (“Sempre tive vocação para mãe”, diz), até porque aptidão para atriz ela continuava a ter, mas ser mãe lhe emprestou o tempo necessário para refletir e, também, para deixar suas questões artístico-existênciais “um pouquinho de molho”.

"Ser mãe exige, de fato, uma entrega física e emocional. Amamentei sete anos sem parar", diz ela, que é mãe de Clara (12), Laura (10), Gabriel (8) e Isabel (5). "A maternidade me deu o que eu precisava para me redescobrir. A natureza é sábia, e conforme eles foram crescendo fui tendo mais tempo para pensar em mim, e a vontade de fazer teatro começou a ressurgir."

Barco de papel, portanto, é o fecho de um ciclo e o início de outro: "É um novo momento. E o teatro volta a ocupar espaço na minha vida."

A vida dos 20 aos 40 anos

A peça é resultado das etapas que a autora atravessou entre afastamento e retorno. Apesar de fugir do registro biográfico estrito, Barco de papel não deixa de assumir um tom confessional, onde Maria Mariana se coloca de forma afetiva e efetiva: “Eu estou inteira”, diz. Mas diferentemente do conteúdo adolescente de seu primeiro sucesso, agora o desabafo é mais prolongado, complexo e passa pelo processo de amadurecimento e transformação de uma mulher entre seus 20 e 40 anos.

"Saí da vista das pessoas e agora quis mostrar onde estou", conta. Por isso a cena é limpa, clara, com poucos elementos (um banco e muitos papéis). E em meio a isso uma mulher à deriva em alto-mar, prestes a completar 40 anos. "Aos 40, não vemos a margem deixada para trás, e faltam milhas para que mude o horizonte."

O barco de papel que dá nome à peça é o veículo metafórico que guia a necessidade dessa mulher de assumir a condução da sua vida. Sem saber, ao certo, que rumo tomar, ela depara com um marujo, que lhe ajuda a restabelecer o controle do leme e a orientar a proa para o norte certo. Mas antes que possa navegar, é preciso esvaziar os papéis que entulham e fazem pesar a embarcação. Papéis, aqui, significam as diferentes personas que Maria Mariana viveu até hoje: "Ela começa a negociar com o marujo e a expulsar esses papéis do barco."

Sendo assim, na peça, a protagonista se desdobra em quatro personagens que representam cronologicamente certas etapas de sua vida: Vera, A Sedutora; Maria Gilda, A Intelectual; Diana, A Maternal e Marta Rios, A Espiritual. "Elas se encaixam em períodos que vivi, da sedução adolescente a um momento de maior encontro espiritual."

A escolha do papel para moldar o barco não é em vão. O material, frágil, além de se desmanchar na água, pode e deve ser rasgado para que possa emergir a essência, o eu renovado de uma mulher que olha à frente com alguma certeza sobre os rumos a tomar: "No fim das contas, o marujo ensina a ser marujo do próprio barco."

Lugar que a atriz atinge ao optar pela direção do espetáculo. Apesar da vontade de ter o pai guiando a encenação, aos poucos o texto foi deixando evidente quem deveria conduzir o barco. "Fiz essa peça para ele. Foi o que me moveu, porque eu queria estar mais perto dele nesse momento de criação teatral", diz atriz, que mora em Rio das Ostras. "Ele ia dirigir, mas fomos sentindo que esse barco era muito pessoal, nascia da minha intimidade, e só eu mesma poderia trazê-lo até aqui. Depois de algumas tempestades, nem o meu pai e nem o Peter Brook poderiam dirigir. A peça representa a construção que eu tive de passar para chegar até aqui. E é por isso que eu sou o marujo desse barco."

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