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| Blenda Souto Maior/DP/D.A. Press |
Ariano Suassuna, o sertanejo que ganhou as letras e tem o apoio do Senado para sua indicação ao Prêmio Nobel de Literatura, completa 85 anos hoje. O escritor paraibano radicado em Pernambuco vai restringir a celebração a amigos e familiares, enquanto participa da gravação de um documentário em Alagoas.
Mas esse é o jeito de Ariano mesmo, recluso. Ele só decidiu mostrar, pela primeira vez a jornalistas, o seu ambiente de trabalho, na manhã de 5 de setembro den 2011. Foi quando permitiu à fotógrafa do
Diario Blenda Souto Maior reproduzir, na casa do autor de
O auto da Compadecida, uma parte do clima de seu universo sertanejo e muito de sua rotina de escritor.
Ali, dentro de um pequeno quarto - com acesso duplo à sala de estar e à sala de jantar - repleto de pilhas de papéis, lembranças, vozes, fotografias, cartazes, sossego e quadros armoriais nas paredes, Ariano se dedica a travar e a renovar o diálogo com Dom Pedro Dinis Ferreira Quaderna, o Decifrador, personagem narrador de
A pedra do reino, obcecado em criar uma obra digna de um gênio da raça brasileira.
Por meio dessa obra original, porém escrita a partir das ideias de outros escritores, Quaderna sonha a redenção do povo sertanejo e de todo o Brasil e deseja fundar um império literário que seria a Rocha Viva da Nação, o reflexo do que pensa e quer a humanidade e mostrar, com o grande livro forjado no sol e nas pedras do Sertão, o que ele pretende fazer com ela para redimir o povo das injustiças sociais.
Nada pretensioso, o sonho de Quaderna está prestes a ressurgir de dentro do baluarte sertanejo que Ariano criou na Rua do Chacon. Ali, na residência do Poço da Panela, Suassuna não esgota a rotina de escrever e reescrever vida e obra, a ferro, fogo, memória, catarse, solidão, até a última vírgula de uma nova Pedra do Reino, ainda sem título, mas que um dia se chamou
A divina ilumiara, uma homenagem à face feminina de Deus e aos lajedos sagrados do Sertão.
Como todo escritor que depende de isolamento para criar e de momentos de total abstração do mundo exterior, para depois regressar ao mundo real, Suassuna convive, também, há três décadas, com a certeza e a dúvida de ter acertado o ponto da criação. O novelo de luz e sombra que se desenrola em suas páginas, escritas à mão, no entanto, é feito de avanços e recuos na teia da imaginação.
Mundo de lembranças
Esse novelo, aos poucos, se revela naquele pequeno santuário habitado por fantasmas, personagens, boas e más lembranças do seu passado sertanejo. Aliás, esse clima de Sertão toca o visitante desde a entrada da casa. Em vez de engenhocas modernas, um chocalho pendurado no portão de ferro serve de campainha quando se anuncia a chegada de um visitante.
Ao pôr os pés no jardim, o visitante vê esculturas de animais, homens, santas e santos, sobre rústicos pedestais, altares com bustos e hermas cobertos de musgo, ramagens que emprestam ao lugar a brisa do mar e a brasa do Cariri revestidas por ventos ancestrais de verdes marinhas, invernadas sertanejas.
O jardim em forma de L da casa de Ariano, amplo, verde e florido, é uma verdadeira exposição de arte armorial. Os ícones de seu universo estão todos ali forjados pelas mãos de sua mulher, Zélia de Andrade Lima, a sua eterna namorada, com quem casou em 1957, e de outros artistas nordestinos, que Suassuna faz questão de privilegiar ao ornar a casa com suas criações, em especial as do filho Dantas Suassuna.
Na sala de estar, antes de entrar no quarto onde tudo é fé, segredo, silêncio e verbo, estampa-se em todo canto, paredes e corredores, estátuas e totens de santos e palhaços, os bichos de sua mitologia sertaneja — a Besta Bruzacã, o Gavião de Ouro, a Onça Malhada, a Morte Caetana —, com suas faces expostas em telas e paineis de pano, estandartes multicores, arcas e florais, veem-se os mantos de reis do maracatu e de outras danças nordestinas e cultos armoriais.
No quarto de aspecto monacal, onde Ariano escreve mais de oito horas por dia, uma cama serve ao repouso ao Monge dos Cariris. Em uma modesta mesa de madeira, que faz par com uma cadeira simples, mas acolchoada, repousam milhares de páginas do conjunto de capítulos manuscritos compostos ao longo de mais de 30 anos pelo escritor.
Ali ninguém mexe em nada. Ele não deixa ver sequer uma linha, “por superstição” - diz, sorrindo - e antes de permitir a entrada dos repórteres em seu escritório, esconde objetos, imagens, fotos e em seguida abre suas portas, para autorizar: “Podem vir”. E acrescenta: “Desculpe, mas tinha de esconder umas coisas que você não pode ver”. (risos)
O genro e secretário de Suassuna, o fotógrafo e artista plástico Alexandre Nóbrega, também está ansioso para ver o quarto pela primeira vez - mesmo morando com a família numa casa contígua à de Ariano, no mesmo terreno.
Segundo Ariano, no silêncio daquele lugar foi criada a maior parte da obra sem nome, imensa e vária, que passa de mil páginas. “Isso é uma loucura hoje em dia. Um livro de mais de 400 páginas já é uma loucura, mas tive sorte de ter a José Olympio como editora, porque topou (publicar a obra).”
A nova Pedra do reino - que reúne a poesia, o teatro, as gravuras, a música e a plástica armorial do punho de Ariano deve ter como resultado a reunião de tudo o que se passou na alma, no sol e no sertão da vida do escritor paraibano, esse incansável perseguidor da criação - poderá ser lido e visto, provavelmente, em 2012. “Se Deus me der tempo e força para isso, vou concluir o livro de minha vida, vou decifrar o meu segredo com Deus e o homem”, disse, ao se despedir dos repórteres, fechando as portas do quarto.
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