Investigação Vítimas de agulhadas no carnaval do Recife e de Olinda ajudam polícia na confecção de retrato falado

Por: Diario de Pernambuco

Publicado em: 07/03/2019 20:01 Atualizado em: 07/03/2019 20:21

Vigilante e publicitária procuraram serviço de saúde e polícia nesta quinta-feira. Foto: Tarciso Augusto/Esp.DP.
Vigilante e publicitária procuraram serviço de saúde e polícia nesta quinta-feira. Foto: Tarciso Augusto/Esp.DP.
A publicitária Bruna (nome fictício), de 29 anos, brincava o carnaval em Olinda, como costuma fazer nos anos em que não está viaja durante a festa, quando foi ferida duas vezes por objetos perfurantes semelhantes a agulha nessa terça-feira (5). A primeira vez aconteceu por volta das 15h30, quando ela estava em frente à sede da Pitombeira dos Quatro Cantos. Ela sentiu uma dor no colo, semelhante a uma queimadura com cigarro ou picada de mosquito. Como não viu o que causou o ferimento, sossegou. Três foras depois, sentiu novamente a mesma dor. Desta vez, no braço esquerdo. Olhou ao redor e viu dois homens rindo e com um objeto na mão.

Publicitária de 29 anos foi furada no braço e no colo quando brincava o carnaval em Olinda. Foto: Tarciso Augusto/Esp.DP.
Publicitária de 29 anos foi furada no braço e no colo quando brincava o carnaval em Olinda. Foto: Tarciso Augusto/Esp.DP.
Nesta quinta-feira (7), a mulher - uma das mais de cem que foram ao Hospital Correia Picanço na Tamarineira com relatos semelhantes e procurando atendimento contra infecção do vírus HIV - formalizou uma queixa na Polícia Civil, que montou uma unidade móvel na área externa do hospital, e ajudou na confecção de um retrato falado. "Lembro bem das características do homem. Ele tinha barba", relatou a publicitária. A polícia espera identificar o autor ou os autores dos ferimentos a partir da divulgação dos desenhos produzidos a partir dos depoimentos.

Uma equipe com delegado, escrivães e peritos papiloscopistas estará na Delegacia Móvel para atender as vítimas de agulhadas. Os ferimentos teriam sido causados no carnaval do Recife e de Olinda e atingiu principalmente mulheres com idades entre 19 e 42 anos. "A unidade ficará aqui por tempo indeterminado. Um inquérito foi instaurado ainda no sábado (2), quando o primeiro caso foi registrado no hospital e divulgado pela imprensa. No entanto, pedimos que as vítimas, que terão as identidades preservadas, nos procurem para formalizar um boletim de ocorrência e para a confecção do retrato falado", pontuou o chefe da Polícia Civil de Pernambuco, Joselito Kehrle do Amaral.

Delegacia móvel da Polícia Civil de Pernambuco foi instalada no Hospital Correia Picanço. Foto: Tarciso Augusto/Esp.DP.
Delegacia móvel da Polícia Civil de Pernambuco foi instalada no Hospital Correia Picanço. Foto: Tarciso Augusto/Esp.DP.
Segundo Kehrle, a partir dos relatos e descrições das vítimas, será possível determinar quantas pessoas estavam envolvidas no crime. De acordo com a Polícia Civil, o crime de expor a vida de terceiro(s) a risco por transmissão de moléstia grave corresponde ao artigo 131 do Código Penal Brasileiro. "Prevê pena de reclusão em regime fechado, de até quatro anos, não descartando a hipótese do cometimento de crimes ainda mais graves. A Polícia Civil oficiará a direção do Hospital Correia Picanço, no sentido de identificar e tomar por termo as declarações das vítimas que se dirigiram aquela unidade especializada de saúde", ressaltou o órgão. O inquérito inicial foi instaurado na Delegacia 1ª Circunscrição/Rio Branco, do Recife.   

Vigilante de 31 anos foi furada no braço durante o desfile dos Irresponsáveis de Água Fria, nessa quarta. Foto: Tarciso Augusto/Esp.DP.
Vigilante de 31 anos foi furada no braço durante o desfile dos Irresponsáveis de Água Fria, nessa quarta. Foto: Tarciso Augusto/Esp.DP.
Na quarta-feira de cinzas (6), quando mais de 25 casos já haviam sido confirmados pela Secretaria de Saúde de Pernambuco, novos ataques ocorreram. A vigilante Patrícia (nome fictício), 31 anos, assistia ao desfile dos Irresponsáveis de Água Fria, na Avenida Beberibe, Zona Norte da capital, quando foi furada no braço. "Senti uma dor e como já havia visto relatos de agulhadas no dia anterior, rapidamente pensei que podia ter sido mais uma vítima. Duas horas depois, tive febre. Hoje, tive diarréia e voltei a ter febre. Procurei o hospital e a polícia, pois, no mínimo, quem fez isso causou pânico nas pessoas", disse. "O local onde o fato aconteceu comigo tem câmeras de videomonitoramento, o que pode ajudar a polícia na identificação de quem fez isso", contou. Ela esperou mais de cinco horas para ser atendida no Correia Picanço. 

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O chefe da Polícia Civil de Pernambuco, Joselito Kehrle do Amaral, afirmou que esse é o primeiro caso registrado no estado. Foto: Tarciso Augusto/Esp.DP.
O chefe da Polícia Civil de Pernambuco, Joselito Kehrle do Amaral, afirmou que esse é o primeiro caso registrado no estado. Foto: Tarciso Augusto/Esp.DP.
No ano passado, o São João de Campina Grande (PB) terminou com cerca de 60 feridos por agulhas. Os casos foram registrados no Hospital de Emergência e Trauma da cidade. Das vítimas, 39 eram homens e 22, mulheres. Os relatos começaram no dia 11 de junho, quando vítimas procuraram a unidade de saúde alegando ou suspeitando que foram feridas por objetos semelhantes a agulhas. A maioria alegou que os ferimentos ocorreram enquanto estavam no Parque do Povo, principal polo da festa da cidade paraibana. No entanto, apenas metade das pessoas que procuraram o hospital deu continuidade ao tratamento, que tem previsão de três meses.

No carnaval deste ano, pelo menos 15 foliões foram atendidos pelo setor de emergência do Hospital Estadual Telecila Freitas Fontes, conhecido como Hospital Regional do Seridó, em Caicó (RN), apresentando relatos semelhantes aos registrados em Pernambuco e na Paraíba. A organização do carnaval de Caicó chegou a emitir um alerta à população, causando preocupação e até pânico entre os foliões. Em Pernambuco, porém, esta foi o primeiro registro desse tipo de caso, de acordo com a Polícia Civil. 

ENTENDA:

O que é a profilaxia pós-exposição?

A PEP é uma medida de prevenção de urgência à infecção pelo HIV, hepatites virais e outras infecções sexualmente transmissíveis (IST)

Consiste no uso de medicamentos para reduzir o risco de adquirir essas infecções

Deve ser utilizada após qualquer situação em que exista risco de contágio, tais como violência sexual, relação sexual desprotegida, acidente com instrumentos perfurocortantes ou contato direto com material biológico

Como funciona?

Como profilaxia para o risco de infecção para o HIV, a PEP consiste no uso de medicamentos antirretrovirais

Deve ser iniciada o mais rápido possível - preferencialmente nas primeiras duas horas após a exposição e no máximo em até 72 horas

A duração da PEP é de 28 dias, aproximadamente, e a pessoa deve ser acompanhada pela equipe de saúde

Em Pernambuco, a unidade indicada é o Hospital Correia Picanço, localizado no bairro da Tamarineira, Zona Norte do Recife

Fonte: Ministério da Saúde


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