Folia de Momo Abertura do Carnaval do Recife abre espaço para ritmos da periferia e para a diversidade

Publicado em: 01/03/2019 21:47 Atualizado em: 01/03/2019 21:55

Crédito: Paulo Paiva/DP
Crédito: Paulo Paiva/DP

Os clarins soaram no Marco Zero às 19h03. Diante do convite, aos poucos, a multidão começou a tomar coragem e encarar os resquícios de chuva para chegar mais perto do palco. Tudo ao redor, as fantasias, as cores e as luzes, faria supor que esta seria mais uma abertura de carnaval na capital pernambucana. De repente, o poeta Antonio Marinho anuncia com vigor: “Recife de tantas cores, tradição contemporânea, capital da liberdade, da inclusão espontânea” e prenuncia a quebra de um paradigma. Na principal vitrine da Folia de Momo recifense, os ritmos tradicionais da festa abriram espaço para os contemporâneos. Frevo com brega. Caboclinho com música eletrônica.

O espetáculo “O Carnaval de Todo Mundo” rompeu uma barreira há muito tempo requisitada. Trazer para o protagonismo da festa a cultura fomentada na periferia que vai além da manutenção das tradições de Momo. Em uma apresentação que durou cerca de 1h30, reuniram-se a magia do velho com o novo, juntando personagens como os caboclos de lança com DJ, colocando ícones do brega como Kelvis Duran e Michele Melo para entoar frevos consagrados da festa, enquanto adolescentes da periferia dançavam o passinho.

O público reagiu na proporção da novidade e foi ao delírio com a mistura. “A cultura da periferia não pode ficar só na periferia. É preciso tirar a ideia de que vamos perder a cultura se abrirmos espaço para o que tem de novo. Essa abertura foi extraordinária”, afirmou a veterinária Luiza Tenório, 37 anos. Celebrando o próprio aniversário durante a abertura, a recepcionista Andreia Pacheco, 33, confessou que foi às lágrimas diante da apresentação. “Foi muito diferente, valorizou a cultura local, toda a cultura que a gente tem”, disse.

A diversidade não ficou só na música, mas também na inclusão de pessoas com deficiência, passistas de frevo com síndrome de down e até dos garis responsáveis por fazer a limpeza das ruas ao longo da apresentação. Ainda houve espaço para gritar contra o rcismo, pela democracia e pelo combate à violência contra a mulher. “Essa foi a melhor sacada que tiveram em muito tempo. Uma ideia fantástica, de inclusão, que acaba com a ideia de que alguns ritmos devem ser excluídos. Quando os garis entraram, foi fantástico. Realmente lindo”, afirmou a assistente social Inês Tenório, 39 anos.

Mais de 100 bailarinos e músicos que participaram do show, divididos em seis cenas. Dentre eles, Coral Voz Nagô, César Michilles, DJ Tiago Pinheiro e Cajú e Castanha. A direção musical foi assinada por César Michilles, a direção artística foi de Dielson Pessoa de Melo e figurinos de Leopoldo Nóbrega (que também assina a alegoria gigante do Galo da Madrugada), com assistência de Juanna Lyra. “Cabe à gestão identificar a diversidade de ritmos, a inclusão social, saber que isso faz parte do cotidiano das pessoas, da cidade de onde elas vivem. Isso é o dia a dia delas, o que elas escutam. O palco do Marco Zero é o sonho de todos os artistas. E nos trouxemos o sonho dos artistas da periferia para ele”, afirmou o secretário-executivo de cultura do Recife, Eduardo Vasconcelos.

Depois do espetáculo, a noite também contou com apresentações dos dois homenageados do carnaval da cidade, Belo Xis e Gerlane Lops. Além de Maestro Forró e da Orquestra Popular da Bomba do Hemetério. Gerlane levou ao Marco Zero canções como Mulher Frevo, Deixa a Vida Me Levar e Coisinha do Pai. Maestro Forró contou com convidados como Nena Queiroga, Canibal e Almir Rouche. A noite terminou com a Escola de Samba Gigantes do Samba.

“O carnaval de Pernambuco é conhecido por ser de alegria e respeito e é isso que vamos fazer por mais um ano. Vamos ter uma festa de alegria e, principalmente, de paz, pois nos preparamos e, a cada ano, temos feito um carnaval mais profissional, com mais policiamento nas ruas. Estou muito feliz por ver que o carnaval chegou de forma tão brilhante”, disse o governador Paulo Câmara. O prefeito Geraldo Julio destacou que, durante todo o carnaval, o Recife contará com 45 polos e 2.700 apresentações. “Será uma grande festa. Está tudo preparado para o carnaval. A gente organiza, prepara tudo, mas, agora é o folião quem faz a festa”, afirmou.


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