Folia de Momo Aurora dos Carnavais reúne histórias e lembranças neste domingo

Publicado em: 17/02/2019 18:50 Atualizado em: 17/02/2019 19:00

Crédito: Alice de Souza/DP
Crédito: Alice de Souza/DP

Do dia em que recebeu o diagnóstico de câncer de mama até o fim do tratamento, só teve um momento em que a aposentada Fátima Silva, 55 se deixou entregar às lágrimas: quando o médico vetou a participação dela no carnaval, em função da baixa de imunidade. Ela, que aprendeu a amar carnaval nos antigos festejos do bairro de Afogados, encontrou nos desfiles de blocos líricos o remédio para manter a alegria e a autoestima de pé diante da doença. O convite para participar do Um Bloco em Poesia, um mês depois que o câncer foi descoberto, veio como um alento e motivação. Neste domingo (17), pela sexta vez consecutiva, Fátima se fantasiou e foi espalhar saúde no encontro Aurora dos Carnavais, realizado na Rua da Aurora.

O primeiro desfile de Fátima veio logo depois do diagnóstico, no Festival de Inverno de Garanhuns. Com uma fantasia improvisada, emprestada de uma colega do bloco, ela participou da apresentação. Desde então, nunca deixou o bloco de lado. Para Fátima, o carnaval é mais do que farra, folia e bebedeira, é sinônimo de vida. “Meus pais sempre brincaram carnaval, então desde pequena eu aprendi a gostar da festa. Mas nunca tinha pensado em me juntar a alguma agremiação, na verdade bastava bater lata eu tava atrás. Com o câncer, encontrei o bloco e fiquei”, conta.

Fantasiada e maquiada, Fátima se destacava pelo sorriso na multidão de 5 mil pessoas que compareceu à Rua da Aurora, no fim da tarde de deste domingo, para o evento. “É muita alegria. Vir distribuir alegria e saúde é muito bom, é a sensação que tenho quando estou aqui”, contou. Ela desfilou à noite, na 16ª agremiação que tomou o palco montado no Cais da Aurora. A festa começou por volta das 15h, com um cortejo de flabelos que saiu do Monumento Tortura Nunca Mais em direção ao palco. Às 16h, começou a apresentação de corais e homenageados.
Tereza Santos, 82 anos, desfila para reverenciar memória da mãe. Crédito: Alice de Souza/DP
Tereza Santos, 82 anos, desfila para reverenciar memória da mãe. Crédito: Alice de Souza/DP

A emoção de Fátima se somou à de Flávia Amorim, filha de Romero Amorim, um dos fundadores do Aurora dos Carnavais. Ele e o parceiro de criação a festa, Luiz Guimarães, foram os homenageados da 20ª edição do evento. “Estou emocionada, pois papai pensou em tudo isso pela história dos blocos líricos. É importante estar aqui compartilhando esse sentimento, saber que o frevo somos todos nós”, disse. Nesta edição, participaram 27 blocos do encontro, sendo dois deles infantis. O bloco Flor do Tamarindo, de Carpina, foi batizado na festa, mostrando que a tradição está se renovando.

Os integrantes dele viveram pela primeira vez a emoção que a aposentada Tereza Santos, 82, começou a sentir há duas décadas. Depois de passar um ano se lamentando pela morte da mãe, ela recebeu um conselho amigo: “por que você não continua a fazer o que ela mais amava?”. Assim, Tereza decidiu enxugar as lágrimas com confete, serpentina, tules e bordados. “Minha mãe gostava muito de carnaval, eu só brincava mesmo no Sábado de Zé Pereira. Depois daquele dia, decidi entrar no Bloco das Ilusões para desfilar sempre. Estar aqui desperta um sentimento de saudade e também de alegria”, comentou. O Aurora dos Carnavais entrou pela noite provando que a tradição se renova porque a Folia de Momo é feita de lembranças e histórias.


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