Carnaval A missão de ser um porta-estandarte

Por: Jailson da Paz

Publicado em: 17/02/2019 13:08 Atualizado em: 17/02/2019 13:21

Clóvis Ramos de Moura, do Maracatu Estrela Brilhante do Recife. Crédito: Sérgio Bernardo/Divulgação
Clóvis Ramos de Moura, do Maracatu Estrela Brilhante do Recife. Crédito: Sérgio Bernardo/Divulgação
A preocupação de Clóvis Ramos de Moura com o modo de conduzir pelas ruas estandarte do Maracatu Estrela Brilhante do Recife é um ritual. Algo sagrado. Auxiliar de serviços gerais, ele dedica uma, duas, três ou mais horas aos ensaios, no Alto José do Pinho. Para onde vai o cortejo carnavalesco, Clóvis segue. Geralmente à frente. Com um zelo sem igual. A razão para o comportamento está em uma frase do porta-estandarte: “Sou eu que levo o nome da nação”. O estandarte, assim como a bandeira da escola de samba e o flabelo dos blocos de frevo, é o abre-alas – espécie de aviso aos brincantes – de que as agremiações entram ruas e avenidas adentro no tempo de Momo.

Ser porta-estandarte se tornou missão para Clóvis. Da mesma maneira, Wellington Souza da Silva Santos encara o papel, que a ele cabe na Troça Destemidos de Campo Grande. Apaixonado pela folia desde a infância, Clóvis, 33 anos, dançou em caboclinhos. No maracatu de baque virado, entretanto, está a paixão maior. Começou como orixá, aos 15 anos, idade que é hoje a de Wellington. Depois se tornou príncipe da corte. Observou atentamente, por anos, a maestria do mestre Rato, apelido do velho porta-estandarte do Estrela Brilhante. Rato, adoentado, desfilou pela última vez em 2018.

O convite para Clóvis assumir a função de porta-estandarte oficial do maracatu, fundado em 1910, chegou depois dele ter sido o segundo porta-estandarte da agremiação por 11 carnavais. Pensou bem na resposta que daria a presidente e rainha do Estrela Brilhante, Marivalda Maria dos santos. Disse sim. “Vi como uma missão. É um compromisso grande”, resume ele, que relaciona o papel de abre-alas a sua prática religiosa. Clóvis é babalorixá. Nos dias de desfile oficial do maracatu na Avenida Dantas Barreto, no Centro do Recife, o porta-estandarte se “resguarda”. Não ingere bebidas alcoólicas. Privilegia as “obrigações”.

Wellington não encara a missão de porta-estandarte com o mesmo olhar religioso de Clóvis. Mas a enxerga como especial. A tarefa, entende o adolescente, não cabe a qualquer um. No seu caso, surgiu pelo viés familiar. Atento e apaixonado pelo carnaval, “ligava-se” nos passos e gestos dos condutores dos porta- -estandartes. De tanto olhar, aprendeu os segredos. E o primo, Gustavo Nascimento, 30 anos e porta-estandarte do Clube Misto Carnavalesco Guaiamum na vara, fez o convite para o garoto assumir a função de abre- -alas. Destemido, Wellington topou. “Antes dos compromissos, respiro. Respiro penso na responsabilidade de andar com o símbolo da troça e caio na dança”, afirmou. A função pesa. O estandarte tem cerca de 25 quilos, mais do que um terço do peso de Wellington, de 60 quilos. Mas o peso compensa com o prazer de carregar o nome da agremiação.

Concurso histórico no Pátio de São Pedro

Aos melhores porta-estandartes, o Recife guarda a tradição de premiá- -los em um concurso cuja duração se perde no tempo. São décadas de premiação, que incluem a escolha dos melhores flabelistas, mestre-sala e porta-bandeira. As apresentações acontecem no Pátio de São Pedro. Os vencedores de sete categorias foram conhecidos no último dia 11. Clóvis Ramos, que disputou pela primeira vez, venceu a de Maracatu de Baque Virado. A disputa das demais categorias será na próxima segunda-feira. A importância do concurso está ligada à simbologia dos estandartes, flabelos – espécie de estandarte dos blocos líricos – e bandeiras. “Eles são o abre-alas dos desfiles e a primeira imagem que o público vê de uma agremiação”, pontua o secretário executivo de Cultura do Recife, Eduardo Vasconcelos. Nessas peças, complementa, está um pouco da história das agremiações, como o nome e a data de fundação.

O concurso deste ano reúne 98 inscritos em 12 categorias. A primeira etapa, com sete categorias, contou com 41 inscritos para melhor porta- -estandarte de Índio, Caboclinho, Maracatu Baque Virado e Boi de Carnaval.Na próxima segunda-feira, o concurso escolherá os primeiros e segundos lugares de porta-estandarte de Clube de Frevo/Troça Carnavalesca, Maracatu de Baque Solto, Porta Flabelo, Mestre-Sala e Porta-Bandeira entre os 47 concorrentes que faltam se apresentar.

A disputa no Pátio de São Pedro tem um caráter popular. Os concorrentes costumam ser acompanhados de torcidas. “São pessoas vindas de bairros distintos da cidade e até de outros municípios do estado”, contou Eduardo Vasconcelos. Daí, a preocupação em ter adiado, mas mantido, apesar das chuvas da última quarta- -feira, a segunda etapa do concurso no pátio. Cogitou-se realizar a etapa em um lugar fechado. “Mas o espaço aberto é simbólico para o carnaval do Recife”, argumentou o secretário.

Torcida organizada conta no concurso, ao menos para animar os concorrentes. O que mais vale é o jurado. Para cada categoria, o concurso tem três jurados. Na hora de atribuir a nota, eles consideram os critérios coreografia, evolução, figurino e desenvoltura ao carregar o estandarte, o flabelo e a bandeira. Clóvis Ramos fez isso com maestria.


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