BITCOIN Chegam a 50 as denúncias sobre o suposto golpe do Bitcoin

Publicado em: 15/02/2019 19:46 Atualizado em: 15/02/2019 19:51

Várias pessoas foram ao Depatri nesta sexta fazer boletim de ocorrência. Foto: Reprodução /Google Maps
Várias pessoas foram ao Depatri nesta sexta fazer boletim de ocorrência. Foto: Reprodução /Google Maps

Na tarde desta sexta (15), a recepção da Delegacia de Repressão ao Estelionato, em Afogados, estava cheia de novos denunciantes em relação ao caso das criptomoedas, supostas vítimas do empresário recifense Thiago Gouveia de Vasconcelos, 22 anos, consultor de investimentos. Segundo estes clientes, Thiago teria usado os valores depositados por eles, e, por ser viciado em jogo, perdido o dinheiro. Até agora, foram 50 denúncias, incluindo a inicial de grupo de médicos composto por 12 integrantes, na última quinta (14). 

Uma médica ouvida pelo Diario nesta sexta-feira (15) disse que a quantidade de pessoas lesadas pelo possível golpe é muito maior do que a divulgada pela Polícia Civil de Pernambuco. Apenas em grupos de redes sociais que reúnem pessoas que se dizem vítimas do empresário, há mais de 180 membros. A maioria é da área de medicina, pois foi convencida pelo pai do suspeito, um médico conhecido da cidade, a investir em criptomoedas. Questionado se quantidade de vítimas poderia chegar a 200, o delegado responsável pelas investigações e titular do Depatri, Rômulo Aires, afirmou que, por enquanto, seria especulação mencionar um quantitativo enquanto a investigação ainda está em curso. 

Carlos Sá, advogado do empresário, também esteve presente na tarde desta sexta no Depatri e contou que o motivo do desaparecimento do seu cliente é o fato de ele estar internado em uma clínica, sedado, por indicação médica, devido à depressão. “Fui procurado pela família do Thiago, ontem. Eles me relataram que havia rumores nas mídias sociais de que ele teria fugido com o dinheiro de investidores. Então, me dirigi até aqui, falei com Dr. Rômulo Aires, responsável pelas investigações, e, de antemão, coloquei Thiago à disposição desta delegacia, inclusive independentemente de intimação, bastando para tanto uma simples ligação para o meu celular. Ele ainda não pôde vir por um motivo muito simples: está internado, tratando de uma depressão que evoluiu e o psiquiatra entendeu que havia necessidade de internação, há poucos dias. O que posso dizer e reafirmar é que não se trata de um golpe. Thiago é corretor credenciado a trabalhar com estas moedas virtuais. Segundo familiares, na semana que vem, entre terça ou quarta-feira, ele deve estar apto a ter discernimento suficiente para conversar comigo e me explicar toda a situação. Assim que tiver alta médica, digo e reafirmo que me comprometo a trazê-lo aqui. Ele não fugiu, isto é fato. Então, assim que readquirir sua autonomia, prestará todos os esclarecimentos necessários”, explica.

Há pessoas se dizendo vítimas de vários estados do Nordeste, principalmente de Pernambuco, Paraíba, Alagoas, Bahia e Ceará. Muitas estão com medo de prestar queixa. "Hoje, fomos informados de que o dinheiro não era investido apenas em bitcoins, que era o que acreditávamos até então. Os valores podem ser sido usados em sites de aposta esportiva. Havia muito dinheiro em aposta de jogos. Muitas vítimas estão temendo expor a situação por causa da Receita Federal", afirma uma vítima, um administrador de 40 anos, que não quis ter o nome revelado. "Minha raiva é saber que fomos enganados, manipulados. O dinheiro de economias de anos de trabalho sério foi embora", disse outra vítima, uma médica. 

O Diario conversou com doze pessoas que afirmam ser vítimas do empresário, sendo oito pernambucanos e dois paraibanos. Desses, sete eram médicos, dois administradores, dois autônomos e um engenheiro. Os valores investidos por eles variam entre R$ 50 mil e R$ 600 mil. “Durante a semana, ele deixou de atender o telefone e responder às mensagens. Só me dei conta de que era um golpe quando recebemos um comunicado”, disse o médico Luan (nome fictício), de 37 anos, que depositou R$ 120 mil na conta do empresário. 

Além de ser filho de um médico conhecido pela maioria das vítimas, o empresário apresentava números e informações sobre o mercado que atuava. Um contrato era assinado entre ele e os clientes. No começo da semana, ele teria divulgado um comunicado aos investidores. “Bastante consternado, informo-lhes que, ante as variáveis do mercado financeiro, em especial ao risco das operações que as cercam, houve atrasos nos repasses dos saques, entre outros inconvenientes”, dizia a nota enviada.

Como conheciam o pai do consultor financeiro, muitos médicos o procuraram e tiveram outras respostas. “Fomos informados de que ele, que cuidava de parte do nosso dinheiro, era viciado em jogos e teria perdido toda a quantia investida pelos clientes. Ficamos sabendo que não está foragido, mas que estaria internado em uma clínica psiquiátrica. Queremos respostas concretas e nosso dinheiro de volta, por isso procuramos a polícia”, disse o autônomo João (nome fictício), 36.

Presente no Depatri, estava outra das vítimas, o engenheiro Rubens (nome fictício). Ele conta que tomou conhecimento do investimento há menos de um mês, por meio de um amigo, e realizou três transferências, duas de 10 e outra de 30 mil, totalizando 50 mil. A promessa que tinha no contrato era de que o retorno seria de 10 a 11%. “Vi, pela planilha que ele mandava semanalmente, que estava começando a ter retorno. Perguntei se havia algum software por onde eu pudesse acompanhar os investimentos, ver a compra real na carteira, mas ele dizia que não poderia mostrar por questões de segurança. Comecei a desconfiar quando falei que iria investir um valor maior e ele passou a me cobrar todos os dias, manhã, tarde e noite, por isso. Alguém que já tem uma carteira tão grande, com tantos clientes e ficar atrás assim de dinheiro? Confesso que fiquei meio cego, meio ganancioso, mas agradeço a minha esposa que freou este último investimento. No fim, só perdi dinheiro. Nunca recebi nada”, conta o engenheiro André (nome fictício).

O empresário Pablo (nome fictício), começou a investir no final de 2017. Ele conta que, no início, ficou com o pé atrás mas acabou confiando. “Era uma coisa fechada para amigos próximos e familiares. Ele parecia um bom rapaz, de boa índole e família decente. Era muito atrativo até porque poderíamos retirar o dinheiro integral, ou parte dele, quando quiséssemos. Eu solicitava o saque e em até três ou quatro dias ele depositava em nossas contas. Recebi várias vezes. No final de 2018 para cá, começou a haver atrasos nos depósitos. No início deste ano, ele passou alguns dias fora do país e alegou que a demora ainda maior  (de até 12 dias) acontecia por ele estar longe do país, o que tornava mais difíceis as transações. Nesta semana, tivemos indícios de que ele havia surtado. O que eu sei é que se estipula que ele tenha mais de 300 clientes e uma carteira de R$ 140 milhões”, relata.

O delegado Rômulo Aires, responsável pelas investigações, acredita que, no máximo em 15 dias, Thiago deverá ser ouvido. A partir da próxima segunda (18), começa a audição das testemunhas. “Vamos fazer um mutirão para fazer a ouvida disto, já que são muitas vítimas. Além disso, ouviremos o empresário e sua família. Serão, também, produzidas provas técnicas, diligências policiais e outras provas que consideramos indispensáveis.”, afirma. Sobre a configuração do caso como golpe ou não, ele acredita ser prematuro o julgamento. “Seria incorreto e antiético da minha parte fazer esse tipo de afirmação. Se é golpe, apropriação indébita ou outra coisa, somente as investigações poderão dizer”, complementa. Ele conclui informando que vítimas de outros estados podem prestar queixa no Recife ou no seu local de residência, mas que é preferível que venham a Pernambuco. “Eles podem fazer lá, mas corre todo um processo burocrático de envio de carta precatória. Então, caso possam, é preferível que venham”, conclui.


Alternativa ao sistema financeiro

O bitcoin foi a primeira criptomoeda criada. Surgiu em 2009 e, desde então, outras tecnologias semelhantes foram desenvolvidas. De acordo com o co-fundador da Bitjá, uma startup de compra e venda de criptomoedas, Victor Cavalcanti, o código do bitcoin é aberto. “Com isso, outras foram sendo criadas e mudadas em alguns aspectos. Hoje, existem várias criptomoedas”, afirmou. “Imagine que no seu computador você tem um arquivo de Word. Ele é virtual, não existe no mundo físico, mas você pode copiar e passar para quantas pessoas quiser. A criptomoeda é como esse arquivo no sentido de existir no mundo virtual. No entanto, diferentemente do arquivo Word, é impossível de ser copiado.”

Assim, quando o bitcoin é enviado, quem o remeteu perde o controle sobre ele. “Outra característica é que o mercado determina o seu valor. É uma forma fora do sistema tradicional financeiro de transacionar valor. Uma das diferenças (em relação ao sistema tradicional) é que a taxa para mandar qualquer valor é igual. Não importa se R$ 10 ou um milhão. Se para o Recife ou para o Japão”, esclareceu. “Onde estou colocando o meu dinheiro é a primeira questão que uma pessoa deve responder quando quer investir. Se você não possui a senha, o bitcoin não é seu”, completou Cavalcanti.

O consultor do BitRecife Marcos Vinícius Moraes enfatiza que a primeira dica para quem quer investir com segurança nesse mercado é procurar empresas estabelecidas. “É preciso procurar empresas com credibilidade e não se aventurar com pessoas sem escritório, site e CNPJ ativos, por exemplo. Nas empresas sérias, a conta é no nome do cliente. É necessário ainda ter cuidado com promessas irreais de riqueza. Não invista seu dinheiro em empresas que prometem ganhos extraordinários e lembre-se que só você é o responsável pelo seu investimento, pelos seus criptoativos”, pontuou.


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