Solidariedade Grupo de voluntários liderados por haitiano no Recife busca parcerias

Publicado em: 05/02/2019 19:43 Atualizado em: 05/02/2019 20:37

Cerca de 1,4 milhão de haitianos precisam de ajuda alimentar após o furacão Matthew. Foto: Teresa Maia/DP.
Cerca de 1,4 milhão de haitianos precisam de ajuda alimentar após o furacão Matthew. Foto: Teresa Maia/DP.
No Haiti, país mais pobre das Américas, o simples fato de poder fazer as três refeições por dia faz disso um cidadão ser considerado privilegiado. Na maioria das cidades, falta saneamento, educação, moradia, água potável e comida. Falta ainda a oportunidade de mudar de vida. Mais de cinco mil quilômetros separam o Recife de Porto Príncipe, capital haitiana. Entre as cidades, uma ponte de solidariedade está encurtando a distância e os laços entre os dois povos.

Sem dinheiro, mas cheio de ideias, o haitiano Jean Baptiste Joseph, que vive no Brasil desde 2010, lidera o Groupe d’Ambassadeurs pour le Développement (ou Grupo de Embaixadores para o Desenvolvimento), o Gade. A entidade nasceu em 2018, mas foi formalizada oficialmente neste ano. Desde então, vem realizando uma série de ações sociais no Recife e tem como meta principal criar um laço solidário entre o Brasil e o país da América Central.

"Mais do que enviar alimentos e dar uma ajuda pontual, sentimos a necessidade de fazer alguma coisa que não seja apenas assistencialismo. Será que a gente precisa esperar um terremoto ou um furacão passar para fazer uma campanha para ajudar? Não poderíamos ajudar estruturalmente para quando o fenômeno chegar não acontecer nada com esse povo ou minimizar danos? Foi nesse aspecto que surgiu o Gade", explica Jean, sobrevivente das catástrofes no Haiti.

O Gade nasceu em 2018, mas foi formalizada oficialmente neste ano. Foto: Natércia Ferreira/Gade/Divulgação.
O Gade nasceu em 2018, mas foi formalizada oficialmente neste ano. Foto: Natércia Ferreira/Gade/Divulgação.
Jean Baptiste é engenheiro civil formado pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Chegou ao Recife a partir de um programa governamental que lhe ofereceu uma bolsa de estudos. Veio em um avião da Força Aérea Brasileira (FAB). Formou-se, fez mestrado e, atualmente, segue os estudos no doutorado em Simulação e Gerenciamento em reservatório de Petróleo. Conseguiu trazer outros três irmãos, que hoje estudam no Brasil e também fazem parte do Gade. Todos eles são naturais da cidade de Jean Rabel, no Noroeste do Haiti, região mais pobre do país. "O orçamento anual da minha cidade é de R$ 15 mil", pontua.

Formado inicialmente por haitianos e brasileiros, que moram no Brasil ou estão espalhados em países Canadá, Estados Unidos e o próprio Haiti, o Gade conta atualmente com 20 voluntários (três dos quais são haitianos). A missão é atuar solidariamente ao angariar fundos para investir em projetos criados por seus membros, sem qualquer envolvimento político, agindo através de ações, divulgações, doações ou outras formas que contribuam para o "pontapé inicial" do desenvolvimento da cidade de Jean Rabel.

Ponte
Quase 60% dos 10,5 milhões de haitianos vivem abaixo da linha da pobreza. Foto: Teresa Maia/DP.
Quase 60% dos 10,5 milhões de haitianos vivem abaixo da linha da pobreza. Foto: Teresa Maia/DP.
Um dos desejos mais latentes de Jean Baptiste é conseguir utilizar o esporte como ferramenta de desenvolvimento social no Haiti. Apaixonados pelos jogadores brasileiro, os haitianos amam jogar futebol. No desafio de "não dar o peixe, mas ensinar a pescar", ele enxerga que conseguir parcerias para construção de quadras poliesportivas na sua região pode ser um pontapé para o projeto.

"Queremos promover a criação de centros educacionais para ajudar no desenvolvimento da região, construir centros poliesportivos voltados à integração dos cidadãos das comunidades onde vamos trabalhar. E nas comunidades carentes promover esportes amadores para integrar  as pessoas. Não só futebol, mas basquete, judô, vôlei. Tudo o que pode se tornar um começo para o desenvolvimento social. Porque talvez as pessoas não tenham a dimensão do quão pobre é o local, da miséria que existe. Levar isso para minha cidade, seria mudar a vida de muitas pessoas", afirma.

Em 2016, através do projeto "Querido Haiti", o grupo de voluntários formado por Jean e amigos, enviou algumas remessas de socorro humanitário ao país caribenho, que teve como ponto forte da campanha uma Corrida Solidária.

"Construir centros esportivos, com salas de aulas, pistas de atletismo, basquete, futebol, judô, todos os esportes concentrados em um centro, é o que penso para Haiti. Ajudar no desenvolvimento através do esportes e educação é minha grande meta", afirma.

No Recife

Paralelamente ao objetivo de desenvolvimento no Haiti, o Gade tem se dedicado a ajudar no desenvolvimento social e ambiental no Recife. Atualmente, auxilia o Lar Batista Elizabeth Mein, que abriga 13 meninas de 9 a 16 anos, que vivem em medida protetiva. No dia 12 de outubro  de 2018, o Gade promoveu um dia das crianças especial, com café da manhã, lanches, brincadeiras, pula-pulas, brinquedos. Tudo com valores arrecadados de doadores angariados por campanha, com apoio de voluntários ligados à UFPE. Os membros do Gade buscam ainda prestar serviços voluntários no Lar através de formações profissionais.

Origem
Foto: Teresa Maia/DP.
Foto: Teresa Maia/DP.
A palavra "Gade", na língua nativa do país, o crioulo haitiano, significa "olhar". Afinal, o grupo tem como objetivo convidar o mundo para olhar com outras lentes para as localidades carentes do Haiti, país com uma sociedade que precisa ter visibilidade no mundo. "O nome do projeto é genérico. Quero que a ideia seja copiada por outros países da África, da América Central, de todos os pontos que sofrem. Queremos espalhar e motivar pessoas que também podem fazer igual para suas comunidades", destaca Jean Baptiste, filho de pais analfabetos, que seguem morando em Jean Rabel.

Ajuda


Para ajudar, ser voluntário ou firmar parceria com o Gade, basta entrar em contato com Jean Baptiste, pelo telefone (81) 99646-5615.

Saiba Mais:

> Em 2016, uma média de 20 pessoas morreram por dia tentando fugir da pobreza através do oceano vislumbrando chegar a um novo destino - total no ano de 7.496 mil migrantes mortos. Nos últimos três anos, o número total de óbitos chegou à soma de 18.501, sendo 5.267 vítimas em 2014 e 5.740 em 2015.

> Cerca de 1,4 milhão de haitianos precisam de ajuda alimentar após o furacão Matthew ter promovido mais de mil mortes e uma devastação generalizada de culturas agrícolas em grandes áreas da ilha caribenha. Mais de metade de a metade dessa população – 800 mil pessoas – precisa de assistência alimentar emergencial.

> No Brasil, cerca de 1,2 milhão de pessoas vivem como migrantes, segundo dados do Ministério da Justiça. Pouco mais de 20% desse contingente é de portugueses, seguidos por bolivianos (7,4%), japoneses (7%), haitianos (6,1%) e italianos (6%).

> De acordo com avaliação realizada pela FAO, pelo Programa Mundial de Alimentos (PMA) e pela Comissão Nacional do Haiti sobre segurança alimentar, estima-se que 1,4 milhão de haitianos precisem de assistência humanitária, dos quais 806 mil estão em necessidade de ajuda alimentar urgente.

> Quase 60% dos 10,5 milhões de haitianos vivem abaixo da linha da pobreza (2,44 dólares por dia) e 24% na extrema pobreza (1,24 dólar por dia). Mais de 175 mil pessoas ainda estão em abrigos após o furacão.

Fonte: ONU


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