CIDADANIA Escola Pernambucana de Circo completa 23 anos

Por: Patrícia Monteiro

Publicado em: 04/02/2019 08:44 Atualizado em: 04/02/2019 08:52

Atividades acontecem das 14h às 17h. Foto: Divulgação
Atividades acontecem das 14h às 17h. Foto: Divulgação

Entre malabarismos, acrobacias, palhaçaria e muito compromisso social, equilibra-se com maestria um dos maiores projetos socioculturais do Nordeste, e mesmo do Brasil: a Escola Pernambucana de Circo (EPC). A organização não governamental, criada em Recife no ano de 1996 pela ação de um grupo de artistas e educadores sociais, completa 23 anos de atuação em 2019.

Um time multifacetado de que sempre teve como premissa a Pedagogia do Circo Social, que se utiliza das técnicas circenses como instrumento para extrapolar esta técnica como meio de abrir espaço para a reflexão e o fortalecimento das relações humanas. Sempre de forma gratuita e aberta ao público geral. Segundo a coordenadora executiva da EPC, Fátima Pontes, circo social não se trata apenas de oferecer oficinas de circo para pessoas em situação de vulnerabilidade, mas uma forma de se colocar no mundo, nas relações, nas representações. “Ele nos direciona em nossas ações, na forma de estarmos e sermos coletivamente no mundo contemporâneo, traçando uma linha de expressão com nossa identidade cultural e como todas as abordagens que podemos ter de nossa realidade social”, explica.

Instituição atende cerca de 100 crianças e adolescentes
Instituição atende cerca de 100 crianças e adolescentes

Um dos pilares bases da Escola Pernambucana de Circo é o projeto Brincar e Aprender para Crescer com Você, realizado por meio de convênio com o Conselho Municipal de Defesa e Promoção dos Direitos da Criança e do Adolescente do Recife (COMDICA), destinado a crianças dos 06 aos 10 anos e adolescentes dos 11 aos 15. O objetivo é que, por meio das aulas de circo, eles exercitem o trabalho coletivo, estimulem a criatividade e alimentem sua autoestima. Durante todo o ano, dedicam-se às aulas de acrobacia de solo e aérea, equilíbrio e malabares, bem como jogos de integração de grupo, brincadeiras populares e outras linguagens artísticas. As aulas são gratuitas, regulares e à tarde, das 14h às 17h. Sempre as segundas e quartas para as crianças e terças, quintas e sextas para os adolescentes. 

O circense Bruno Luna foi um dos que passou por este processo quando criança, aos 12 anos. Hoje, aos 29, é artista da Trupe Circus e educador. Ele conta que conheceu a instituição quando ela chegava ao bairro do Burity, por meio de um amigo. Começou a fazer aulas de equilíbrio e, depois, encantou-se com os malabares. Em 2004, foi convidado para participar do seu primeiro espetáculo de grande porte, O Vendedor de Caranguejo. “Participar da rotina de treinos com os artistas representou mais responsabilidade, mas isto não me assustou. Pelo contrário, me atraiu ainda mais e me fez crescer artística e emocionalmente”, conta. Em 2010, recebeu o convite para fazer parte do quadro de educadores. “Eu não sabia o quanto era maravilhoso passar nossos conhecimentos, lidar com as particularidades e o tempo de cada um, ensinar sobre respeito, sobre a possibilidade de o educando ser protagonista da sua vida, ter seu espaço de fala e direito de ser ouvido. Com o tempo, alguns deles cresceram, viraram amigos de trabalho e podemos trocar muito um com o outro. Isto é vida, é coração pulsando todos os dias”, afirma. O amante dos malabares vem descobrindo outra paixão: a acrobacia. “A arte do circo tem isso de transformação e esta modalidade tem feito com que eu pense ainda mais sobre o meu estar no mundo, minha alimentação, meu próprio corpo e superação dos meus limites”, conclui. 

Nestes mais de 20 anos de atividades ininterruptas, a EPC firmou-se como uma instituição consolidada na região que atua em diversos nichos das artes circenses, desde este atendimento pedagógico à construção de espetáculos circenses. Até agora, já foram mais de 10 espetáculos montados como Presepadas, Ilusão, o Vendedor de Caranguejo, Um Dia de Circo na Praia, Círculos que Não se Fecham e Experimento Circo Science - do Mangue ao Picadeiro. Um dos mais recentes deles, Flores Fortes, encenado no mês de novembro do ano passado, abordou a questão da sororidade e violência contra a mulher e teve o objetivo de levar este tema para escolas de ensino médio da Zona Norte do Recife. 

A EPC também já desenvolveu projetos buscando levar a arte do circo e a oferta de outros caminhos para socioeducandos de casas de acolhimento da cidade. “Temos um papel social. Então, toda e qualquer ação nossa tem um objetivo direcionado à reflexão de algum tema que por ventura esteja nos afetando socialmente. Isto se faz tanto no atendimento das crianças e adolescentes, quanto nos espetáculos que apresentamos trabalhando o circo social na organização da nossa dinâmica, já que os números são coletivos, construídos coletivamente, de forma cooperativa na maneira de se ver e se colocar no mundo, de se expressar, de se relacionar”, explica Fátima Pontes.

Para se manter em atividade no nível de excelência com que atua, a Escola precisa enfrentar, frequentemente, as dificuldades, que não são poucas. Organização sem fins lucrativos que não conta com auxílios financeiros ou de outra ordem das administrações estaduais ou municipais, sustenta-se por meio do trabalho da Trupe Circus – braço artístico da instituição – seja na própria sede ou na das empresas que os contratam, de editais e doações. 

EPC completa 23 anos de atuação. Foto: Divulgação
EPC completa 23 anos de atuação. Foto: Divulgação

A História - A EPC teve início a partir da parceria entre um artista circense e um professor. Bóris Trindade Júnior, o Borica, conta que a ideia de montar uma escola de circo surgiu quando ele voltou de uma temporada de estudos em São Paulo, na Escola de Teatro Macunaíma e no Circo Escola Picadeiro. “Não achava justo que esta gama de formação ficasse apenas para mim, pois nem todos tinham as mesmas condições que tive. Achava que era um dever cívico e moral compartilhar estes conhecimentos e valores”, relata. Após conhecer o professor Zezo Oliveira durante um seminário no Centro de Educação Comunitária e Social do Nordeste (Cecosne), o sonho começou a virar realidade. A razão social da nova empreitada foi sugerida por ninguém menos do que Ariano Suassuna: Grande Circo Arraial. O nome fantasia e pelo qual o empreendimento ganhou fama, Escola Pernambucana de Circo, veio do próprio Borica. Sempre que contempla a estrutura e a solidez da EPC em seu extenso galpão da Macaxeira, Borica se emociona. “Aquela árvore germinou e deu frutos. Meu papel foi cumprido e hoje ela caminha com suas próprias pernas. Atingiu maturidade suficiente para caminhar e, muito bem dirigida, é referencia pedagógica e social. São 23 anos de labuta, trabalho e perseverança”, ressalta. Borica, atualmente, continua circense e é também arte educador e produtor. 

Zezo Oliveira, professor, ator e produtor cultural, pesquisador, e parceiro de Borica na criação da EPC, fala sobre o processo pedagógico. “Sempre quisemos trabalhar algo mais profundo do ponto de vista da pedagogia trabalhando o circo como elemento de inclusão social. Para isto nos inspiramos em Gramsci, Piaget, Winicott, pois precisávamos, inclusive, compreender o lugar da fantasia na cabeça das crianças. A ideia era fazer um trabalho de intervenção”, conta. Crianças estas, inicialmente, que frequentavam o entorno do Recife Antigo por onde eles sempre estavam. 

Foi na Torre Malakoff onde aconteceram as primeiras aulas. Antes da sede na Macaxeira, as atividades também chegaram a acontecer na Associação dos Moradores do Burity.  “Víamos as crianças pedindo esmolas, engraxando sapatos, cuidado de carros e, ao mesmo tempo, aquele espaço livre ao lado delas. Então, em um primeiro momento, esta questão social foi a mais forte”, conta Zezo. A partir daí, foi montada uma equipe com profissionais de psicologia e assistência social que desenvolveram um processo pedagógico baseado no perfil de Paulo Freire. O conceito de Circo Social, cujo termo foi cunhado no Rio de Janeiro, viria depois, estruturado a partir de uma articulação com uma rede formada pela EPC e outras instituições. “Considero estes 23 anos um momento de celebração porque, apesar das dificuldades, a Escola conseguiu se manter e, além disso, dar um certo norte no plano municipal de cultura do Recife com grande relevância no nível social e profissional no sentido de formação de circo, o que não existia em Pernambuco. Além disso, as crianças, em suas escolas formais, apresentam nítido avanço na participação oral, disciplina, dentre muitos outros aspectos”, explica.

Rede Circo do Mundo - A Escola Pernambucana de Circo integra a Rede Circo do Mundo/Brasil, parceira do Cirque du Soleil, que reúne 22 instituições de quatro regiões brasileiras e têm como perspectiva o trabalho educativo, o exercício da cidadania e o resgate das raízes culturais. A Escola é, também, um dos quatro Centros de Referência em Formação de Educadores de Circo Social da Rede Circo do Mundo Brasil, no país. Além dela, existem a Associação Londrinense de Circo Londrina (PR), Instituição de Incentivo à Criança e ao Adolescente - ICA, em Mogi Mirim (SP) e Circo Lahêto, em Goiânia (GO).


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