PE no Campus Mil bolsas de estudo serão distribuídas para alunos de escolas públicas Programa do governo do estado foi lançado no ano passado e ganhou nova edição

Por: Anamaria Nascimento

Publicado em: 14/01/2019 14:00 Atualizado em: 14/01/2019 14:55

Karoline e Luiz recebem bolsas do PE no Campus desde o ano passado. Foto: Camila Pifano/Esp.DP.
Karoline e Luiz recebem bolsas do PE no Campus desde o ano passado. Foto: Camila Pifano/Esp.DP.
Karoline Guerra nasceu com o destino quase traçado. Em Santa Cruz do Capibaribe, Agreste do estado, o futuro esperado era de trabalho no polo têxtil da região, que emprega boa parte da população. A mãe, as tias, os primos e todos os parentes conhecidos de Karoline atuam em um das fases na produção de roupas. Ela quebrou o ciclo ao ingressar, no início do ano passado, no curso de direito na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Sair da cidade natal e estudar a 185 km de casa, porém, não seria fácil. A mudança para o Recife só foi possível porque Karoline, de 19 anos, foi uma das estudantes selecionadas pela primeira edição do Programa de Acesso ao Ensino Superior (PE no Campus), com oferta de bolsas para que estudantes egressos da rede estadual de ensino se mantenham no ensino superior. Nesta segunda-feira (14), o segundo edital do programa foi lançado e vai oferecer mil novas vagas para candidatos que fizeram o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2018 ou que participaram do Sistema Seriado de Avaliação (SSA), da Universidade de Pernambuco (UPE).

Do total de vagas, 900 serão destinadas aos que prestaram o Enem e 100 aos participantes do SSA. Para concorrer às bolsas, o estudante deve ter cursado todo o ensino médio na rede pública de ensino. O candidato não precisa ter concluído a educação básica em 2018 – o limite do programa é ter concluído o ensino médio, no máximo, há cinco anos. No entanto, é necessário ter feito a última edição do Enem, uma vez que a nota será exigida na inscrição. Outros critérios são renda familiar máxima de três salários-mínimos e ter residência fixa igual ou superior a 50 km da universidade onde vai estudar. “A ideia do programa surgiu quando visitamos uma escola em Flores (Sertão do estado). A escola tinha um dos melhores índices de desempenho, mas os alunos não se inscreviam no Enem ou em vestibulares. Não porque achavam que não passariam, mas porque sabiam que não teriam como se manter fora da cidade”, pontuou o governador do estado, Paulo Câmara, que assinou o decreto de regulamentação do processo seletivo do PE no Campus 2019.

Um levantamento da Secretaria Estadual de Educação e Esportes mostrou que o número de alunos da rede pública de Pernambuco inscritos no Enem saltou de 40% para 70% entre as edições de 2017 e 2018 do exame. “O PE no Campus se divide em duas fases. A primeira é feita durante o ano letivo nas escolas, com o incentivo à inscrição no Enem e nos principais vestibulares. Os estudantes são orientados e recebem auxílio na retirada de documentos necessários para fazer as provas. A meta é aumentar a taxa de participação para mais de 80% no exame deste ano”, afirmou o secretário estadual de Educação, Frederico Amancio.

Governador Paulo Câmara e o secretário de Educação, Frederico Amancio, assinaram decreto do programa nesta manhã. Foto: Camila Pifano/Esp.DP.
Governador Paulo Câmara e o secretário de Educação, Frederico Amancio, assinaram decreto do programa nesta manhã. Foto: Camila Pifano/Esp.DP.
Os estudantes selecionados recebem bolsa do governo do estado durante os dois primeiros anos do curso superior. No primeiro ano, é oferecida uma bolsa mensal de R$ 950. O valor passa para R$ 400 no segundo ano. A quantia ajuda nas despesas com moradia, alimentação, transporte e outros custos, como compra de materiais e livros necessários para as aulas. “A bolsa se limita a dois anos porque entendemos que, a partir do segundo ano do curso, o estudante tem condições de se manter, pois passa a ter acesso a oportunidades como estágios e iniciação científica”, explicou o secretário estadual de Educação. Para continuar recebendo a bolsa, o estudante precisa frequentar a universidade e manter a matrícula. Notas mínimas na graduação não são exigidas.

A primeira fase do processo seletivo do PE no Campus 2019 é realizar inscrição no site da Secretaria de Educação de Pernambuco. O período vai desta terça-feira (15) até o dia 23 deste mês. Nessa etapa, o interessado deve preencher dados como os números de RG e CPF além de informar o resultado do Enem ou do SSA. A nota final do exame nacional deve ser divulgada nesta sexta-feira (18), de acordo com o Ministério da Educação (MEC). Já o listão do SSA sai nesta terça. “O estudante já pode fazer a inscrição, com os dados dos documentos e deixar pendente o resultado, que pode ser preenchido posteriormente”, esclareceu Frederico Amancio. O resultado dessa primeira fase será publicado no dia 24 deste mês.

O segundo passo do processo seletivo – que vai de 28 de janeiro a 1º de fevereiro – é informar, no site, o endereço e o nome da universidade para onde foi selecionado pelo Sistema de Seleção Unificada (Sisu). A plataforma que seleciona estudantes para instituições de ensino superior de todo o país por meio da nota do Enem tem inscrições entre 22 e 25 de janeiro. Nessa etapa, cujo resultado sai no dia 11 de fevereiro, será verificado o critério de distância. A terceira e última fase será voltada para a comprovação de matrícula do estudante na instituição informada. A divulgação final da seleção será em 22 de fevereiro. No mesmo dia, será iniciada a convocação das listas de espera.

Para Karoline, que concluiu a educação básica na Escola de Referência em Ensino Médio Luiz Alves da Silva, o PE no Campus foi como “uma luz no fim do túnel”. Contrariando os prognósticos sobre o seu destino, foi a primeira pessoa da família a ingressar no ensino superior. Ela foi aprovada em primeiro lugar na categoria L1 do sistema de cotas – voltada para candidatos com renda familiar bruta per capita igual ou inferior a 1,5 salário-mínimo que tenham cursado integralmente o ensino médio em escolas públicas – e, atualmente, cursa o terceiro período de direito. “Estudar na FDR (Faculdade de Direito do Recife) era um sonho. Era apaixonada pelo prédio e pela história, mas sabia que seria difícil me manter no Recife. Quando soube do edital, vi uma luz no fim do túnel”, contou. Desde o ano passado, Karoline mora e estuda na capital pernambucana. “Estar estudando aqui dá esperanças para meus primos, irmãos e amigos. É muito triste ver colegas que queriam estudar, mas não conseguiram por não ter como se manter distante de casa. Não fiz cursinho e não tive acesso a livros caros, mas consegui. Digo isso para que outros estudantes saibam que eles também são capazes”, comentou a estudante, filha de uma costureira do polo têxtil do Agreste do estado.

Ex-aluno da Escola de Referência em Ensino Médio (EREM) Timbaúba, Luiz Lourenço, 18 anos, também foi aprovado no edital do ano passado do programa. Com a bolsa, consegue se manter em São Paulo e estudar na maior universidade do país e uma das principais da América Latina: a Universidade de São Paulo (USP). “Moro com três pessoas, e a bolsa me ajuda muito na manutenção. Estudo com pessoas que fizeram cursinho de verão em Harvard e que os pais pagavam R$ 7 mil de colégio no ensino médio. Competir com ele é difícil, mas sonhar alto e baixo custa da mesma forma, então é melhor sonhar alto”, disse.


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