Urbanismo Domingos José Martins: uma rua quase invisível no Bairro do Recife A via recebe os fundos dos imóveis das ruas do Bom Jesus e da Guia e tem sua dinâmica afetada pela pouca conectividade

Por: Rosália Vasconcelos

Publicado em: 08/01/2019 14:10 Atualizado em: 08/01/2019 15:01

A Rua Domingos José Martins abrigou a primeira senzala urbana do Brasil e chamava-se Rua da Senzala. Foto: Peu Ricardo/DP.
A Rua Domingos José Martins abrigou a primeira senzala urbana do Brasil e chamava-se Rua da Senzala. Foto: Peu Ricardo/DP.
Famoso por seus monumentos históricos e ruas carregadas de significado, o Bairro do Recife possui em seus limites uma via quase invisível. A Rua Domingos José Martins recebe os fundos dos imóveis do Bom Jesus e da Guia e tem sua dinâmica afetada pela pouca conectividade entre espaços, uma vez que ela começa na Praça do Arsenal e termina no meio de uma quadra da Avenida Barbosa Lima. Arborizada, agradável e ampla, a via acaba servindo de estacionamento e depósito de lixo. Urbanistas acreditam que espaços como esse podem ser melhor aproveitados, com projetos de ativação, a exemplo dos que foram promovidos em 2015 e 2017 pelo Laboratório de Pesquisa e Inovação para as Cidades - Inciti, com o estímulo de atividades culturais, disponibilização de mobiliário urbano para fruição e participação ativa da sociedade. 

Pouca gente sabe, mas a Domingos José Martins também tem sua relevância histórica. Ali funcionou a primeira senzala urbana do Brasil e por isso, antes de receber tal nome, chamava-se Rua da Senzala Velha. Há alguns anos, no entanto, a falta de movimento na rua e de visibilidade trouxe secundarização e degradação à via, cujas calçadas estão esburacadas e há sempre bastante lixo, relegando a ela o status de estacionamento e depósito. 

"A Rua Domingos José Martins está espremida entre duas ruas supervalorizadas no Bairro do Recife. Enquanto a do Bom Jesus tem o seu apelo histórico e belo, a Rua da Guia está ligada a uma relação afetiva com a cidade. E a Domingos acaba se contendo, se diluindo entre essas duas. Apesar disso, é possível e desejável dar uma nova funcionalidade espacial a ela, que pode agregar e contribuir para a vitalidade do bairro. Como, por exemplo, pela calmaria que ela oferece, estimular ações específicas de convívio e fruição", afirma o arquiteto urbanista e conselheiro federal do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil (CAU-BR), Roberto Salomão. 

Em 2015 e 2017, o laboratório de Pesquisa e Inovação paras as Cidades - Inciti fechou a Rua Domingos José Martins durante o evento Urban Thinkers Campus (UTC) com o objetivo de desenvolver alternativas de ocupação para essa via de grande potencial urbanístico e histórico mas esquecida dentro do Bairro do Recife. "A calha da rua é larga e ela tem características de pedestrianização até maiores que na Avenida Rio Branco, sendo possível dar a ela um uso alternativo de ocupação, desde que esteja atrelado a outras políticas públicas de uso no Bairro do Recife", disse o urbanista, pesquisador e coordenador de ativação do Iniciti, Natan Nigro. Ele foi um dos responsáveis pelos trabalhos desenvolvidos na Rua Domingos José Martins durante as edições do UTC. 

"Essa via é a de menor conectividade no bairro. Ou seja, se ela fosse transformada num calçadão para pedestres não traria impacto na circulação de veículos porque basicamente hoje ela não funciona como passagem nem de pedestres nem de carros. E poderia ser transformada numa espécie de Rua do Lazer, como acontece na via entre os blocos da Unicap, aumentando a qualidade de vida de quem trabalha, mora e frequenta o Bairro do Recife. O sucesso dos eventos de 2015 e 2017 mostrou que a ocupação demanda sobretudo conscientização das pessoas. E a ocupação da Rio Branco mostra que as pessoas sentem a necessidade por mais espaços públicos de lazer com qualidade", completa Nigro.

Resgatar antigas transversais
Estimular atividades é uma das alternativas para dar uso à via. Foto: Maira Brandão/Divulgação.
Estimular atividades é uma das alternativas para dar uso à via. Foto: Maira Brandão/Divulgação.

Uma alternativa que pode potencializar a Domingos José Martins seria a reutilização das passagens transversais no meio das quadras do Bairro do Recife, perdidas ao longo dos anos, mas que foi muito utilizada durante décadas. Alguns dos prédios que começam nas ruas do Bom Jesus e da Guia e se estendem até a Domingos José Martins e possuem saídas vazadas, que hoje funcionam como porta dos fundos. Ainda assim, muitos desses imóveis utilizam dois endereços oficiais. É o caso do Edifício Cristina Tavares (prédio da Softex), que são mapeados como Rua da Guia e Rua Domingos José Martins. A Sinagoga da Rua do Bom Jesus também utiliza os dois endereços como oficiais. 

“Pela forma do parcelamento das construções, os edifícios em geral das quadras são vão de uma rua a outra, mas não necessariamente tem uma situação de circulação, mas no meio dessas quadras, que são relativamente longas, historicamente havia uma passagem aberta e pública. De modo que os pedestres não precisavam arrodear as quadras mas atravessá-las. Era assim da Avenida Alfredo Lisboa para a Rua do Bom Jesus. Do Bom Jesus para a Domingos. Da Domingos para a Rua da Guia. Da Guia para a Rua do Apolo. E da Rua do Apolo para o Cais do Apolo. Da Alfredo Lisboa era possível chegar aos Cais Apolo passando por dentro das quadras. Muitas delas ainda existem mas estão fechadas. A única aberta é a do prédio da Softex. A abertura dessas passagens e a ativação do térreo desses imóveis com duplo endereço pode estimular a ocupação da Domingos José Martins”, sugere o presidente do Instituto Pelópidas Silveira, João Domingos.

Para ele, o fechamento dos famosos “becos” diminuiu a dinâmica e o fluxo de circulação das ruas, em especial na Domingos José Martins, a menor das vias cortadas por essas passagens. “Existem diversas tipologias de espaços urbanos. Há os conectores, quando uma rua liga a lugares, edificações. E existem os espaços polares, que geram determinada atração pelos usos que têm lá. Essa atração pode ser espontânea ou induzida. No caso específico da Domingos José Martins, é possível desenvolver um projeto urbano que incentive a dinâmica de uso da rua. A ampliação de um calçadão é uma possibilidade, aliado à realização de atividades culturais, eventos, sobretudo porque o fechamento dela não traz prejuízo ao fluxo geral do bairro. Mas precisa ser algo muito bem planejado porque metade dos imóveis da quadra que divide com a Rua da Guia estão fechados, em ruína ou são estacionamentos. Por isso que qualquer projeto de ativação ali precisa da parceria com a iniciativa privada, para dar uso e ocupação aos imóveis. Entendemos que a Domingos José Martins tem potencial para a realização de atividades culturais, sociais, de lazer e gastronomia, que atraiam pessoas”, completa João Domingos.

O urbanista Roberto Salomão entende que, além de retomar a vida dos prédios abandonados, enquanto não existir uso ativo ao longo das calçadas e dos térreos dos prédios é difícil reverter essa situação. Ele dá como exemplo o café do Paço do Frevo, que poderia ser aberto para a Domingos José Martins com mesas nas calçadas para atrair o fluxo de pessoas. Poderia haver uma intervenção urbanística que trabalhe a caminhabilidade dessa rua”, revelou

Um pouco de história…

Nem sempre a Rua Domingos José Martins foi despovoada e esquecida dentro do mapa do Bairro do Recife. Até o início do século XX, a via era conhecida por Rua da Senzala Velha. Segundo um texto do historiador e professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Marcus Joaquim Carvalho, durante o primeiro século de colonização no Brasil, funcionou nessa rua o que ele chamou do “primeiro depósito de cativos de grandes dimensões da futura vila do Recife, e assim uma das mais antigas senzalas urbanas do Brasil, para aprisionar e revender os escravos recém-chegados da África”.

Ainda de acordo com o historiador, posteriormente foi aberta a Rua da Senzala Nova, localizada nas imediações da Avenida Rio Branco. “A tal senzala (na Rua Domingos José Martins) já era velha na época da ocupação holandesa (1630-1654), segundo indica o inventário de armas e apetrechos apreendidos dos holandeses pelos luso-brasileiros”. O material está publicado no blog Memória da Escravidão e Cultura Negra em Pernambuco, alimentado pela historiadora e professora da UFPE Isabel Guillen. 


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