Sebos do recife resistem à crise Procura por livros, especialmente didáticos e paradidáticos, aumenta entre dezembro e março devido à proximidade e ao início do ano letivo escolar

Por: Patrícia Monteiro

Publicado em: 29/12/2018 09:21 Atualizado em:

Foto: Reprodução/Facebook
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Um livro na mão, um passaporte para qualquer lugar no tempo ou espaço. Quem possui o hábito da leitura tem nas livrarias um verdadeiro oásis. No momento atual, entretanto, o setor vive uma crise intensa em todo o país. Duas das maiores redes brasileiras estão em recuperação judicial, enquanto editores clamam aos clientes que doem livros como presentes de fim de ano. Alguns, mais pessimistas, dizem que não há mais leitores. Diante deste cenário, como anda, então, o mercado para os sebistas no centro do Recife? A reportagem do Diario de Pernambuco visitou a Praça do Sebo, na Rua da Roda, e o sebo da Rua Marquês do Recife, entre a Dantas Barreto e a Engenheiro Ubaldo Gomes de Matos. Ambos estão no bairro de Santo Antônio e são os únicos atuantes, com características de comércio coletivo, na região.

A Praça do Sebo existe há 37 anos e abriga 19 boxes no largo, localizada por trás da Avenida Guararapes. O espaço é bem cuidado, sem sujeira ou irregularidades no calçamento. Em março do ano passado foi revitalizado, ganhando nova iluminação e recuperação do piso de pedras portuguesas. À sombra das árvores, em um banco, fica a estátua do cronista e poeta pernambucano Mauro Mota, lendo, como quem espera por companhia. Rara, infelizmente, nos dias atuais. A maioria dos boxes abre as portas a partir das 9h para pouquíssimos clientes.

O comerciante Severino Augusto, 59 anos, chegou ao largo em 1981, ano de inauguração da Praça do Sebo, depois que a área em que trabalhava com seus livros, ao lado do antigo Banco Safra, na Dantas Barreto, foi desativada. Se na época não dispunha nem de 50 livros para venda, hoje possui um estoque de 3 mil, com preços que variam de R$ 10 a R$ 400. Investe em peças raras. Por isso costumava receber a visita de historiadores e professores em um tempo não muito distante, há cerca de 10 anos. E que hoje abandonou suas prateleiras. “Muitos perderam o hábito de manusear e optam pelo livro digital. Quem continua com o hábito de ler no papel também aderiu à tecnologia e, por isso, nossos maiores concorrentes são os sites que disponibilizam o nosso serviço, como o Estante Virtual. Se antes vendíamos até 120 livros por dia, hoje este número mal chega a 15”, conta.

O eletricista Cléber José, 39, foi um dos poucos visitantes do espaço enquanto a reportagem esteve por lá. Frequentador das livrarias dos shoppings, costuma procurar os sebos em busca de novidades e promoções. “Busco aqui o que não encontro nelas: lançamentos não tão recentes que já estejam com preços mais acessíveis. Gosto de HQs, ficção, história e estou sempre nesta área”, informa.
Carlos Pontes, há 23 anos comercializando na praça, também sinaliza para a questão do universo digital. “Atualmente, as pessoas procuram muitos livros nas redes sociais, baixam em PDF. Então, assim como nas livrarias, sentimos uma queda gradativa em nossa área nos últimos quatro, cinco anos. Há dias em que não vendo um exemplar sequer”, revela. Situação que, pelo menos nos próximos três a quatro meses, tende a melhorar devido à procura por livros didáticos e paradidáticos. “Embora haja também no meio virtual grupos de WhatsApp especializados na troca e venda, registramos um exponencial aumento nas vendas de dezembro a fevereiro e, muitas vezes, até março”, salienta.

Economia 
A doméstica Marilene Lins foi uma das que fez a opção pelo sebo. “Antes comprava tudo para as minhas filhas nas livrarias. Esta é uma das muitas vezes que venho aqui, onde pesquisei e consegui fazer uma economia de até 30%”, afirma.
Cátia Sales, comerciante que atua na área há 22 anos, acredita que a procura já aumentou em até 40% e tende a crescer. “Muitos ainda não chegaram porque não estão com a lista dos materiais, mas outros já se antecipam e saem à procura. O problema é que depois que começam as aulas o movimento despenca de forma gritante. Acredito que o que falta é divulgação deste espaço por meio do poder público, de envolvimento e inserção da praça em mais atividades culturais da cidade”, opina.

Nos 10 boxes de livros da Rua Marquês do Recife, em frente à movimentada Avenida Dantas Barreto, a frequência do público é maior. Nesta época do ano, principalmente em busca de livros escolares. O local, menos espaçoso do que a Praça do Sebo, possui menos boxes especializados, mas tem uma confluência maior de público. Provavelmente devido à privilegiada localização, bastante visível para quem circula pela avenida, e também pelos preços acessíveis.
Stephany Monaliza, comerciante da área, conta que, nesta época do ano, a demanda chega a aumentar em até 50%, embora também sinta a concorrência dos grupos de WhatsApp. “Eles quebraram um pouco a gente. Sobre o impacto para o nosso comércio diante da crise das livrarias, acredito que ainda é algo recente e não chegou, até agora, em nós”, acredita. O problema das vendas, segundo ela, é anterior a isto, pois está relacionado ao fato de o brasileiro não ter o hábito forte da leitura.

A dentista Juliana Bompastor, 40, ao contrário da afirmação de Stephany, mostra que o hábito da leitura em sua casa teve início bem cedo. Ela procurava livros da saga Star Wars para o filho de 10 anos. A procura de Juliana é uma espécie de resistência diante do que se avizinha na história do seu próprio filho. Na escola do menino, a partir de 2019, não haverá a utilização de livros impressos. Tudo será consultado via tablet. “Há dois anos, a direção começou a anunciar esta mudança e, durante este tempo, fizeram uma substituição gradual. A partir do próximo ano, será tudo digital, exceto os cadernos de atividades. Esta é uma geração diferente da minha, que, temo, não tenha tanto apreço pelos livros”, disse. Na sua época de escola, conclui a dentista, aprendia-se a ler de forma tradicional. Por isso, ainda prefere a leitura de lazer, por prazer, nos bons e velhos impressos.


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