100 anos Rádio Clube E a peleja do pastoril foi parar na Clube Tradição de festas populares era ignorada pela PRA-8 até que o alagoano Aldemar Paiva desembarcou na Rádio Clube e passou a lotar auditório

Por: Sílvia Bessa - Diário de Pernambuco

Publicado em: 24/12/2018 10:22 Atualizado em: 24/12/2018 10:33

Pioneirismo da Rádio Clube foi dar espaço para as apresentações na década de 1950. Foto: Ricardo Fernandes/DP/D.A Press
Pioneirismo da Rádio Clube foi dar espaço para as apresentações na década de 1950. Foto: Ricardo Fernandes/DP/D.A Press

Naquele tempo, o ano inteiro tinha pastoril como atração de festas públicas no Recife.  Era década de 1950. Nos jornais, os anúncios das apresentações serviam de chamariz. Via-se a versão religiosa, sobretudo às vésperas de Natal e da virada do Ano Novo, mas muito sucesso fazia a versão pagã irreverente. Existia uma tradição folclórica nordestina dessa animação profana - lembra o professor e historiador Luiz Maranhão Filho, revelando o pioneirismo da Rádio PRA-8, a Rádio Clube. “Os pastoris eram danças realizadas com a participação  de  pastoras, tidas como mulheres  de vida  fácil, comandadas  por  um velho  pornográfico, licencioso  e  desrespeitoso. Por este motivo, jamais o  tal  folguedo teve espaço no  rádio”, frisa ele, que cresceu na emissora ao lado do pai, o mestre Luiz Maranhão.

O padrão foi quebrado com a chegada de um talento criativo. Aldemar Paiva, radialista alagoano, desembarcou no Recife e foi contratado pela PRA-8 com a difícil incubência de substituir Chico Anísio na Clube. Homem de cabeça borbulhante de boas ideias, sabia que precisava de uma proposta nova para inovar no show da virada, durante a passagem do ano nas ondas sonoras. “Lembrou  o  produtor então  que,  na  Rádio  Difusora de Alagoas, uma  atração  era a  presença  de  um tipo  de pastoril  familiar,  cumprido por crianças e adolescentes. Lembrou  a  expertise da professora Zezé de  Almeida,  sua  conterrânea, que   ensaiava  e  organizava o  folguedo”, conta Maranhão, reconhecido estudioso brasileiro quando se trata de rádio. “A  convidada veio  ao  Recife  para experimentar  a  atração. E  deu  certo”.

A apresentação dos pastoris passaram a lotar o  auditório da Rádio Clube e  movimentava a capital pernambucana.  “Logo  despertou a  cobiça da  recém-inaugurada, a Rádio  Tamandaré, que se apressou em  descobrir no estado  vizinho uma nova  organizadora, a  professora Maria José Carrascoza”, relata Maranhão. “ “Estabeleceu-se  a  competição.  A  segunda  emissora local, Rádio  Jornal do  Commercio, ainda  hesitou pois  se  postava  numa  linha  de  elite”, diz o professor. Por pouco tempo. Acabou cedendo e terminou  por  aderir  ao folguedo.

Maranhão lembra que apresentadores de renome faziam as noitadas transmitidas pelas rádios e presença dos pastoris: Aldemar,  Almeida  Castro, Roberto Linhares, Manoel Malta e mais coadjuvantes  incendiavam  as  torcidas. E não se limitavam a apresentações apenas. Havia uma participação ativa do ouvinte e espectador. 

Segundo ele, além  das  bilheterias,  havia  a  venda  de  votos  para os  Cordões Azul e Encarnado. “Eram  apurações  concorridíssimas  e  até  torcidas  pelas  ruas,  culminando  tudo com  a  Queima da Lapinha, no Dia  de Reis, em 6 de janeiro, após  desfiles pela  cidade em carroças  ornamentadas com os   dois  cordões e as figuras da Diana,  do  Pastor, da  Borboleta e  das Ciganas do  Egito.

O feito da veterana Rádio Clube - frisa o historiador -  teria valido como  reforço de  caixa  para a folha  de  pagamento  dos  elencos da PRA-8, além  da  valorização  da  tradição. Um costume que foi transformado e que atualmente merece críticas de Luiz Maranhão. “A tradição do pastoril foi muito distorcida  pela descaracterização das Quadrilhas  nas  televisões  comerciais”. Algo, para ele, a se lamentar.

Um história de loas
Encantamento do religioso resiste com grupos para apresentações natalinas. Foto: Ricardo Fernandes/DP/D.A Press
Encantamento do religioso resiste com grupos para apresentações natalinas. Foto: Ricardo Fernandes/DP/D.A Press


Até hoje os pastoris, com seus cordões encarnados ou anis, são destaques em programações festivas natalinas. E restam alguns grupos mais resistentes, sobretudo os oriundos de subúrbios do Recife, que são chamados a mostrarem suas cores, marchas e loas (músicas chamadas de jornadas) e coreografias ao público em parques públicos a esta época. Continuam a buscar a valorização deste que é um folguedo regional decenal.

Os pastoris representam autos de Natal e seguem aqui o estilo do teatro português. São inspirados na Idade Média, época em que populares se reuniam para contar em aldeias como foi a chegada do menino Jesus. Em Pernambuco, destacam-se alguns estudiosos que se debruçaram a pesquisar a chegada dos pastoris no estado. Maria Alice Amorim, pesquisadora cultural, diz que há notícia que os primeiros pastoris teriam chegado aqui no final do Século 16. Lembra ela que escritos de Pereira da Costa apontam um registro desta data feito pelo Convento Franciscano de Olinda. 

Já a historiadora Carmem Lélis, em entrevista ao Diario de Pernambuco anos atrás, fez questão de frisar que “a forma de dançar o pastoril é totalmente nossa. Apesar da influência europeia, é uma expressão nordestina. Cada estado nordestino tem uma peculiaridade. Em Pernambuco, a característica é o dançar das pastoras em frente ao presépio, louvando o nascimento do menino Jesus”. Para esta tradição, a Rádio Clube serviu como fomentadora há algumas décadas. 

Esta reportagem faz parte de uma série publicada todas as segundas-feiras pelo Diario de Pernambuco em homenagem aos 100 anos da Rádio Clube.


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