Recomeço Um Natal com gosto de saudade para os refugiados venezuelanos Apesar da distância, muitos acreditam que em breve farão o caminho de volta

Por: Anamaria Nascimento

Por: Alice de Souza - Diario de Pernambuco

Publicado em: 24/12/2018 10:58 Atualizado em: 24/12/2018 11:00

As comemorações do Natal serão diferentes para 3 milhões de pessoas.
Foto: Gabriel Melo/DP.
As comemorações do Natal serão diferentes para 3 milhões de pessoas. Foto: Gabriel Melo/DP.

Natal é época de estar com a família, os amigos e relembrar as alegrias do ano que está chegando ao fim. Para 3 milhões de pessoas, venezuelanos que foram forçados a deixar o país pela crise político-econômica nos últimos anos, a celebração tem sido diferente. Longe de casa, isolados dos parentes e, em alguns casos, sem contato com aqueles que amam, muitos passarão a véspera de Natal sem as tradições da terra onde nasceram. Em Pernambuco, onde chegaram nos últimos seis meses pelo menos 200 venezuelanos, a ceia natalina será sinônimo de recomeço.

As famílias que estão vivendo no Recife desde o último dia 17, quando desembarcaram vindas de Boa Vista (RR), vão celebrar a data depois de amanhã. São pessoas que estão morando em apartamentos e casas da Zona Norte e da área central da capital pernambucana, acolhidas pela Cáritas Brasileira, com apoio da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap). A festa de Natal para os venezuelanos vai acontecer na Igreja de Nossa Senhora da Soledade, às 16h, graças aos esforços de voluntários que farão um jantar e distribuirão brindes para as 26 crianças. 

Em Igarassu, onde estão vivendo 102 venezuelanos, a celebração está sendo organizada de maneira autônoma. Apoiados pela ONG Aldeias Infantis SOS Brasil, onde receberam residência, apoio logístico e alimentação, eles começaram a chegar em julho também vindos de Boa Vista e estão compartilhando casas na sede da organização. Aos poucos, alguns conseguiram trazer parte da família e farão ceias com eles e os vizinhos. Para muitos, será a primeira comemoração natalina depois de muitos anos sem ter dinheiro sequer para comprar os itens básicos de uma refeição.

A saudade de Betty e Gerardo
O dia de Natal na casa da babá Betty Martines, 38, e do taxista Gerardo Cuartas, 38, era de comemoração dupla. “São dois aniversários: o de Jesus e o meu”, diz Betty. Nascida em 25 de dezembro de 1979 na cidade de El Tigre, a babá vai passar o primeiro Natal longe da família neste ano. O casal deixou o país e veio para o Brasil acompanhando uma diáspora que já levou 3 milhões de venezuelanos a migrar. “Viemos porque não quero ver meus filhos e netos passando fome. Só queremos arrumar um trabalho e mandar dinheiro para eles conseguirem comprar comida”, afirma.

Para o casal Betty Martines e Gerardo Cuartas esse será o primeiro Natal longe dos três filhos e dois netos.
Foto: Bruna Costa/Esp.DP.
Para o casal Betty Martines e Gerardo Cuartas esse será o primeiro Natal longe dos três filhos e dois netos. Foto: Bruna Costa/Esp.DP.

Na cidade de origem, Betty e Gerardo deixaram os três filhos – Angel, 22; Diógenes, 20, e David, 18 – e os dois netos – Angel, 2 anos, e José, de três meses. “Meu filho mais velho tem uma oficina mecânica, mas o dinheiro já não dá mais para nada. Vai ser muito difícil passar esta data longe deles, mas é pensando unicamente nos nossos filhos e netos que estamos aqui”, comenta Betty.

Ela e o marido chegaram a morar na rua em Boa Vista (RR). A babá fazia diárias em casas e apartamentos de brasileiros, enquanto Gerardo trabalhava em uma padaria. Conseguiam pagar um lugar para morar. Quando o número de venezuelanos aumentou na cidade, e as vagas de emprego diminuíram, o casal precisou morar por um período em uma praça pública. “Dormíamos sobre papelões, mas nunca passamos fome. Os brasileiros são muito acolhedores e sempre entregavam comida e roupas”, conta. Apesar de terem sido bem recebidos no país, sonham em voltar para casa. “Quero reviver os nossos natais, onde as famílias das ruas se juntam para pintar as ruas e cozinhar e fazer banquetes”, disse ela.

Beatriz em busca de estrutura
Faltavam seis meses para a venezuelana Beatriz Espinoza, 25 anos, se formar em ciências da educação quando precisou deixar a cidade de Maturín, onde trabalhava como assistente administrativo no Conselho Legislativo do Estado de Monagas. Grávida da segunda filha, ela, o marido e a primogênita deixaram para trás pais, irmãos, primos, avós e amigos. Era com eles que o casal e as meninas passariam a noite de Natal. Forçados a deixar a terra natal em busca de remédios e de melhores condições para que a caçula nascesse, os venezuelanos passarão o primeiro Natal fora do país este ano. Morando no bairro da Boa Vista, área central do Recife, há uma semana, eles sequer sabem se terão uma ceia. 


Grávida, Beatriz Espinoza conta que a situação na Venezuela está insustentável e procura melhores condições para fazer o parto.
Foto: Bruna Costa/Esp.DP.
Grávida, Beatriz Espinoza conta que a situação na Venezuela está insustentável e procura melhores condições para fazer o parto. Foto: Bruna Costa/Esp.DP.

A saída do casal da Venezuela, com Beatriz grávida, fez outros conterrâneos que os receberam em Boa Vista (RR) – primeira cidade brasileira onde ela e o marido moraram – lembrarem da história do próprio Jesus, cujo nascimento é celebrado amanhã. A passagem sobre a ida do recém-nascido Jesus, Maria e José para o Egito para fugir da perseguição do rei Herodes foi usada pelos venezuelanos para fazer o comparativo. “Saímos da Venezuela porque a situação já era insustentável. Não havia medicamentos, ácido fólico (consumido por gestantes para ajudar na prevenção de doenças no tubo neural do bebê) ou mesmo condições para ter um parto lá”, recorda.

A caçula, Antonella Díaz, 1 ano, é brasileira. Nasceu em um hospital público da capital de Roraima. “Foram dois dias de ônibus para chegar ao Brasil, mas somos gratos por ela ter nascido aqui. Não havia nenhuma condição de passar por uma cirurgia na Venezuela”, conta.

Um nova vida para Elizabeth
Quando chegou ao Brasil, em maio deste ano, Elizabeth Bruzual havia deixado para trás metade da família. Grávida de um mês e com 23 anos, ela chegou a Boa Vista com o filho de 4 anos, Jorge. Haviam ficado na cidade de Maturín, a 500 quilômetros da capital venezuelana Caracas, seu marido e a filha, de 2 anos. Com dinheiro apenas para chegar à fronteira entre os países, Elizabeth contou com a solidariedade de uma desconhecida, que garantiu a passagem dela e do filho até Boa Vista. Foram meses morando em um abrigo e trabalhando em um açougue, até vir para o Recife.

Elizabeth Bruzual faz parte do primeiro grupo, composto por 70 venezuelanos, a chegarem a Igarassu.
Foto: Camila Pifano/Esp.DP.
Elizabeth Bruzual faz parte do primeiro grupo, composto por 70 venezuelanos, a chegarem a Igarassu. Foto: Camila Pifano/Esp.DP.

Ela faz parte do primeiro grupo, composto por 70 venezuelanos, a chegarem a Igarassu. “Lá na Venezuela, eu trabalhava em uma fábrica de sucos e meu marido como militar. Mas o salário só dava para um arroz. Comíamos macaxeira e sardinha, pois era mais econômico. Por isso, decidir sair”, conta. Na Aldeias Infantis, ela divide uma casa de quatro quartos e três banheiros com outras famílias conterrâneas. Até setembro, vivia a angústia de estar afastada da filha e do marido. Toda a comunicação ocorria em um telefone emprestado e, depois, em outro doado. Agora tudo está se estabilizando. De acordo com o programa Brasil Sem Fronteiras, da Aldeias Infantis, a ideia é que as famílias possam ficar até seis meses nas casas e, com apoio social e psicológico, possam arrumar trabalho e conseguir independência financeira. 

Este mês, Elizabeth vive um momento de retomada de planos deixados no passado. O marido começou a trabalhar tem uma semana e o filho vai nascer em janeiro. “Quero conseguir trabalho e trazer meus outros parentes”, contou.

Um pé no Brasil e o coração...
O mestre de obras Jean Carlo Ruiz, 38, não lembra exato a última vez que teve ceia de Natal. Com certeza, foi há mais de cinco anos, tempo que a crise começou a se aprofundar na Venezuela e trouxe mais de 85 mil pessoas desse país ao Brasil. Ele chegou sozinho, saído de Puerto La Cruz, 335 quilômetros de Caracas, há dois anos. Como a maioria, atravessou a fronteira e foi morar em Boa Vista. Sem emprego e dinheiro, morou oito meses na rua e vivia vendendo baldes e bacias no comércio informal. Com o que juntou, voltou para casa e trouxe a mulher e o filho, de 15 anos.

Na Venezuela, ficaram duas casas próprias, uma moto e o restante da família. Com ele, vieram a determinação e a saudade. “Sinto falta do meu idioma, da brisa, do meu sangue natal, dos irmãos, sobrinhos, mas lá estava muito difícil”, conta. Jean chegou a morar com a mulher e o filho quatro meses na rua, antes de conseguir um abrigo. É nos abrigos que o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) faz a triagem de quem ocupará as casas da Aldeias Infantis no Brasil.


Jean Carlo Ruiz chegou a morar com a família na rua antes de conseguir abrigo.
Foto: Camila Pifano/Esp.DP.
Jean Carlo Ruiz chegou a morar com a família na rua antes de conseguir abrigo. Foto: Camila Pifano/Esp.DP.

Além de estar com a família, Jean tem outros motivos para celebrar o Natal. Irá começar a trabalhar como mecânico em janeiro. “Minha ideia é ficar aqui em Pernambuco uns seis meses, juntar dinheiro e depois voltar para Boa Vista. Dessa forma, estarei mais perto da Venezuela e consigo trazer a minha família. Meu sonho é voltar para lá, mas não dá”, diz ele, que já está preparando a lista da ceia, com panetone, pan de jamón e hallacas. “Lá, quem consegue comprar macarrão, hoje, é rico.”  Das famílias que chegaram desde julho, nove já conseguiram sair.


Os comentários abaixo não representam a opinião do jornal Diario de Pernambuco; a responsabilidade é do autor da mensagem.