Recife Em busca de presentes de Natal, famílias ocupam ruas para ganhar doações No endereço insalubre e provisório, as famílias esperam brinquedos, roupas e comida

Por: Marcionila Teixeira

Publicado em: 21/12/2018 21:25 Atualizado em: 21/12/2018 21:30

Foto: Peu Ricardo/DP
Foto: Peu Ricardo/DP
Novembro tinha acabado de começar quando Sandra*, 20 anos, deixou sua casa, um imóvel situado na localidade chamada Sítio, dentro do Coque, bairro pobre do Recife. Junto com ela foram o filho pequeno e o marido. Naquele dia, carregaram poucos pertences, entre eles, uma bicicleta e uma lona preta. O destino era o calçadão do Cais de Santa Rita, no bairro de São José. É época de Natal. E o tal espírito solidário floresce entre quem tem algo sobrando em casa. Sandra sabe disso. Ela ainda estava na barriga da mãe quando o calçadão já era seu destino e de mais dez irmãos e irmãs nos dias natalinos. Hoje, repete o mesmo ciclo com o filho. No endereço insalubre e provisório, espera brinquedos, roupas e comida.

Sandra, assim como as demais mulheres e homens do calçadão, evitam dar os nomes verdadeiros e posarem para fotos. Temem perder os filhos em processos judiciais. Muitas crianças correm risco de atropelamento quando limpam os para brisas de carros ou circulam ávidas no meio do trânsito para colocarem alguma moeda dentro das caixinhas de Natal preparadas artesanalmente. “Eu não deixo meu filho pedir. Ele é muito pequeno”, garantiu Sandra. Enquanto a mulher espera as doações, que chegam sem afago e apressadas através das janelas dos carros, o marido comercializa água mineral no semáforo em frente. Sandra e o companheiro se conheceram há cinco anos no calçadão. Quando acabar o Natal, a família volta para casa.

Foto: Peu Ricardo/DP
Foto: Peu Ricardo/DP

As doações costumam aumentar nos finais de semana e no final do mês. Na véspera de Natal, elas chegam ao auge. Chega de tudo. Material de higiene, roupa, comida, brinquedo. Flagramos até mesmo a entrega de uma boa quantidade de lingerie. Ana, 31, brincou. “Agora não preciso mais comprar calcinhas”. A mulher está no calçadão há duas semanas. Não foi antes porque os filhos ainda estavam indo para a aula. São ao todo quatro crianças, de 9, 7, 4 e 2 anos. Além deles, o marido de Ana também foi. A família mora no Coque. Essa é a origem de 90% dos ocupantes do calçadão.

Nos dias de acampamento, o marido de Ana limpa para brisas em frente ao calçadão para ajudar na sobrevivência. Esse é também o trabalho de Ana, que há vinte anos frequenta o lugar para receber doações. “Ganho R$ 50 por semana nos sinais e tenho R$ 200 de Bolsa-Família. Com esse dinheiro, tenho que pagar feira e aluguel. Se eu não precisasse, não estaria aqui com meus filhos. Daria do bom e do melhor para as crianças”, afirmou. Quando ela tinha 19 anos, assistiu à chegada de mais de trinta carros ao calçadão em uma noite de Natal. Seus ocupantes doaram feira, roupa nova e até dinheiro. “Não esqueço esse dia. Foi meu melhor Natal. De lá para cá piorou um pouco. Muitos dão para a gente roupa suja e rasgada só porque estamos na rua”, lamentou.

Cristina, 20, também frequenta o calçadão desde criança. Ia com a mãe e seis irmãos e irmãs. O filho de Cris, de 4 anos, acompanha ela no acampamento natalino. Pergunto qual presente ela gostaria de ganhar. “Queria uma feira para passar o Natal de barriga cheia.” Até agora, a mulher considera que a melhor doação foram roupas. “Eu tava precisando. Tocaram fogo nas roupas da gente quando roubaram o barraco que eu moro lá no Coque. É assim que os maloqueiros fazem na comunidade”, explicou.

Quem também costuma passar no calçadão é a Polícia Militar. Segundo os ocupantes, fazem interrogatórios às famílias, calculadas em cerca de sete. Quando não são os homens de farda, são equipes da Prefeitura do Recife que passam recolhendo pertences das pessoas, contam. “Antes eu achava legal vir aqui. Mas agora tem violência, tem também a polícia. Venho porque tô mal acostumada”, disse Sandra.

Todo ano a Prefeitura do Recife faz campanha para as pessoas doarem no que chamam de “lugar certo”. Trata-se de uma parceria do Transforma Recife com a Secretaria de Desenvolvimento Social, Juventude, Políticas sobre Drogas e Direitos Humanos do Recife. O mote é não incentivar a permanência de pessoas nas ruas e evitar que entrem em contato com situações de violência e vulnerabilidade, sobretudo as crianças. Mas Sandra, Ana e Cris não desejam mudar a paisagem do calçadão antes do dia de Natal. Conhecem a violência e a vulnerabilidade desde a infância. A ocupação, afinal, já tornou-se um ritual familiar.

Em tempo: a PCR publicou no site do Transforma Recife uma lista de instituições que estão recebendo donativos de Natal. Para quem preferir exercer o tal espírito de Natal nesse formato, pode acessar o site www.transformarecife.com.br

*todos os nomes são fictícios


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