denúncia Pacientes perdem visão após cirurgia Prefeitura suspendeu procedimentos em clínica conveniada após denúncias de comprometimento da saúde ocular por causa de operações de catarata

Por: Alice de Souza - Diario de Pernambuco

Publicado em: 18/12/2018 09:11 Atualizado em:

Idosa está sem enxergar nada em um dos olhos e denunciou a situação às autoridades do município. Foto:  Gabriel Melo / Esp. DP
Idosa está sem enxergar nada em um dos olhos e denunciou a situação às autoridades do município. Foto: Gabriel Melo / Esp. DP
O sonho de voltar a enxergar como no passado se tornou um pesadelo para pacientes que se submeteram à cirurgia de catarata em uma clínica particular conveniada à rede municipal de saúde do Recife. De acordo com denúncias feitas à Secretaria Municipal de Saúde e ao Diario de Pernambuco, procedimentos realizados no começo deste mês no estabelecimento Oftalmologistas Associados, na Ilha do Leite, teriam resultado em processos infecciosos e deixado algumas pessoas com a visão comprometida em um dos olhos. A Diretoria Executiva de Regulação em Saúde suspendeu os procedimentos até o esclarecimento das causas.

O drama teria começado no último dia 5, quando cerca de 35 pacientes teriam se submetido à cirurgia de catarata a partir de um mutirão realizado pelo Sistema Único de Saúde (SUS). As pessoas teriam sido encaminhadas à clínica depois de passar por postos de saúde das comunidades onde vivem. Ao sair do procedimento, algumas apresentaram dores fortes no olho. No dia seguinte, ao retirar o tampão, as famílias e alguns dos cirurgiados estranharam a visão completamente escura. “Achei estranho que ela já havia feito a mesma cirurgia no olho esquerdo, mas desta vez saiu reclamando de dor. Também nos pediram para colocar colírio numa frequência maior que na vez anterior”, contou a filha de uma das pacientes, que preferiu não se identificar.

Segundo ela, ao retornar no dia posterior à clínica, encontrou cerca de 15 pacientes na mesma situação. “Ouvi o médico comentar que eu estava perdendo o olho”, contou uma paciente que fez a operação. “Começamos a perguntar, mas eles desconversam, realizaram um ultrassom e depois subiram todo mundo para o bloco cirúrgico. Senti uma dor que começou a subir pela cabeça, um negócio horrível. Passamos quatro horas lá e, depois, pediram para ficar colocando colírio de meia em meia hora”, acrescenta a idosa.

Os pacientes, cujas escleras (parte branca dos olhos) estavam vermelhas e as pálpebras roxas, começaram a desconfiar dos procedimentos e a questionar o que poderia ter motivado a situação. Alguns chegaram a sugerir aos responsáveis pelo estabelecimento sobre a ocorrência de uma possível infecção. “Eles não dizem o que ocorreu, mas também não dão diagnóstico. Ficam irritados quando perguntamos”, contou a paciente. Outra parente de um dos afetados confirmou o ocorrido e a ausência de um diagnóstico até o fechamento da reportagem. Ela também disse que a clínica está dando o suporte necessário.

Uma das vítimas, que procurou ajuda em um serviço particular de oftalmologia, recebeu o diagnóstico de endoftalmite, uma infecção grave no globo ocular e de resultado funcional ruim entre as afecções oftalmológicas. Considerada rara após procedimentos cirúrgicos eletivos, a endoftalmite pode ocorrer em 0,18% dos casos de pós-cirurgia de catarata e levar à perda de visão, de acordo com o Ministério da Saúde. A maioria dos casos é causada por bactérias Gram-positivas (de estruturas simples). “Já me disseram que eu ia perder parte da minha visão, mas não sei quanto. Hoje, eu só consigo ver algumas imagens, outras ficam meio turvas e, às vezes, desparece tudo e fica preto.”

Pelo menos quatro denúncias já foram feitas à ouvidoria da Secretaria de Saúde do Recife. A reclamação das vítimas é da ausência de diagnóstico e de uma tentativa de amenizar a situação, que aconteceria por parte da clínica. “Eles não falam nada sobre perda da visão, não dizem o que ocorreu. Só temos receitas de colírios que temos que ficar colocando no olho a cada hora, sem prazo para terminar o tratamento”, reclamou a paciente entrevistada pelo Diario.  

Em nota, a Diretoria Executiva de Regulação em Saúde do Recife informou que a clínica presta serviço à Prefeitura há quase 30 anos, sem histórico de complicações cirúrgicas, mas que, mesmo assim, logo após receber as denúncias, decidiu suspender os procedimentos até que as causas sejam esclarecidas. Técnicos da Vigilância Sanitária e da Regulação do município estiveram no local e, durante avaliação inicial, não encontraram irregularidades. 

Catarata
É qualquer tipo de perda de transparência do cristalino, lente situada atrás da íris do olho, seja ela congênita ou adquirida, independente de causar ou não prejuízos à visão. Acomete mais a população idosa e é responsável por quase 50% dos casos de cegueira no mundo. 

A cirurgia
Consiste na remoção do cristalino opaco e sua substituição por uma prótese transparente (lente intraocular) para possibilitar melhor passagem dos estímulos luminosos para o interior do olho. É um procedimento considerado seguro, mas como é invasivo não está isento de riscos.

No passado
Era realizada sob anestesia geral, a catarata era removida através de uma incisão ampla, seguida por implante de lente intraocular rígida e múltiplas suturas do globo ocular. 

Hoje
A incisão é de cerca de dois milímetros, a catarata é emulsificada (fragmentada) em pequenos pedaços e aspirada por um aparelho chamado de facoemulsificador e a lente intraocular é dobrável. 

Fonte: Associação Brasileira de Catarata e Cirurgia Refrativa (ABBCR)

Responsável técnico crê em recuperação

Diante das denúncias realizadas pelos pacientes à Prefeitura do Recife, o responsável técnico pela clínica Oftalmologistas Associados, que na internet também aparece com o nome de Oftalmo Centro de Oftalmologistas Associados de Pernambuco, o médico Francisco Cordeiro, conversou com o Diario. Ele confirmou que a instituição está com os procedimentos suspensos desde o começo deste mês, mas disse que um dos motivos seria o recesso de fim de ano. O profissional, que também é professor e pesquisador da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), disse ainda que os casos estão sendo investigados e que seria precipitado dizer que a causa foi uma infecção bacteriana.

Segundo Francisco Cordeiro, houve de fato uma suspeita de infecção, mas que por enquanto está sendo caracterizada como uma síndrome tóxica do segmento anterior, uma inflamação pós-operatória. “Isso aconteceu em cinco ou seis pacientes de um grupo de 10. Esses 10 pertencem a um grupo maior de 1,6 mil pacientes operados do fim do ano passado para cá. Não podemos caracterizar por infecção para não correr o risco de alardear uma notícia sem fundamento teórico e provocar um tumulto na população”, disse. 

O profissional afirmou que a maioria dos pacientes já estaria em fase de recuperação e que a própria clínica teria comunicado à Vigilância Sanitária o ocorrido. “Eles estiveram lá e não encontraram nenhuma anormalidade. Também não identificamos nada anormal na conduta do médico que realizou as cirurgias. Tomamos as medidas necessárias, fizemos a coleta do material. Foram feitos exames e todos os pacientes foram tratados”, disse. Ele afirmou, ainda, que acha que todos os pacientes terão recuperação. “A cirurgia que propomos é de recuperação imediata.  Entretanto, nas cirurgias de catarata, o paciente pode demorar meses para recuperar a visão sem nenhum problema.”

Duas amostras analisadas pelo laboratório, garante Cordeiro, teriam sinalizado a presença de “germes sem identificação”. “Não seria correto, porém, adiantar o que aconteceu”, explicou. 

Em 2003, denúncias sobre a ocorrência de cegueira no pós-operatório de catarata de pacientes submetidos a cirurgias em hospitais do Rio de Janeiro levaram o Ministério da Saúde a solicitar o recolhimento de lotes de medicamentos com o composto químico metilcelulose.


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