Caso Arthur Eugênio Caso Artur Eugênio: Defesa quer culpar filho de médico Advogados de Cláudio Amaro Gomes, acusado de mandar matar o colega Artur Eugênio, apostam em depoimento de Cláudio Filho para livrar cirurgião

Por: Mariana Fabrício - Diario de Pernambuco

Por: Rosália Vasconcelos - Diario de Pernambuco

Publicado em: 11/12/2018 09:23 Atualizado em: 11/12/2018 09:43

Julgamento de dois réus começou ontem e deve ser concluído amanhã, em Jaboatão. Foto: Leo Malafaia/Esp.DP
Julgamento de dois réus começou ontem e deve ser concluído amanhã, em Jaboatão. Foto: Leo Malafaia/Esp.DP
A defesa do cirurgião Cláudio Amaro Gomes, acusado de ser o mandante do crime contra o colega e ex-sócio Artur Eugênio, em 2014, está contando com o depoimento do filho, Cláudio Amaro Gomes Júnior - já condenado pelo crime -, como principal recurso de seu cliente. Tanto que as outras quatro testemunhas de defesa previstas para participar do julgamento, que começou ontem no Fórum de Jaboatão dos Guararapes Desembargador Henrique Capitulino, foram dispensadas.

Segundo os advogados de Cláudio Amaro pai, as declarações dadas pelo filho durante depoimento de ontem mostram que não há prova ou indício que vincule Cláudio Amaro Gomes ao homicídio que tirou a vida de Artur Eugênio. Com a dispensa das testemunhas, a expectativa é de que o julgamento, inicialmente previsto para terminar na sexta-feira, seja encerrado até amanhã. Hoje, a sessão será retomada a partir das 8h. 

“O interrogatório do advogado Bráulio Lacerda (defesa) esgotou o manancial de provas. Não há nada que prove que doutor Claúdio Amaro tenha participado desse crime, a menos pelo fato de que ele é pai de Cláudio Amaro Júnior, que já declarou ser o mandante do fato”, disse o advogado Moacir Veloso. As testemunhas dispensadas foram Daniel Gomes (filho de Cláudio Amaro), Solange Queiroga (esposa), Clóvis Gomes(filho) e Débora Carvalho (secretária do consultório em que o médio trabalhava). 

Durante o depoimento de Cláudio Amaro Júnior, que durou duas horas e meia, ele declarou que havia mandado dar uma surra no médico Artur Eugênio por ter presenciado ele destratar seu pai por três vezes e praticado outros atos de hostilidade. “Eu fui mandante no processo e não meu pai. Partiu de mim a ideia de dar uma surra em Artur porque ele vivia perseguindo meu pai. Mas nunca comentei com meu pai porque sabia que ele não concordaria”, disse Cláudio Amaro Júnior no depoimento. 

A promotoria de acusação do Ministério Público de Pernambuco (MPPE) entendeu, contudo, que a confissão do filho é uma estratégia para livrar o pai da responsabilidade pela premeditação do crime contra Artur Eugênio. “Por que só agora, depois de condenado, você resolveu assumir que foi o mandante e executor do homicídio?”, questionou a promotora Dalva Cabral de Oliveira. Durante toda a sessão, o médico Cláudio Amaro Gomes permaneceu de cabeça baixa e apenas em um momento, enquanto o filho prestava depoimento, levantou-se e tentou falar, mas foi impedido pela juíza que presidiu a sessão Inês Maria de Albuquerque Alves. 

O julgamento dos dois últimos acusados de participar da premeditação e morte do médico torácico Artur Eugênio de Azevedo Pereira teve início ontem no Fórum de Jaboatão dos Guararapes. O médico Cláudio Amaro Gomes, acusado de ser o mandante do crime, está sendo julgado por homicídio duplamente qualificado, por motivo torpe e recurso que impossibilitou a defesa da vítima. 

Já o réu Jaílson Duarte César, acusado de ser o intermediário na contratação dos executores do crime, está respondendo por homicídio duplamente qualificado por motivo torpe e recurso que impossibilitou a defesa da vítima em concurso material com o crime de dano qualificado. Após quatro anos e meio do crime, os dois estão sendo submetidos a júri popular. Antes de iniciar a ouvida das testemunhas, houve a escolha de sete dos 25 jurados convocados. 

A defesa de Jailson argumenta que ele não teve participação no crime. “A linha de defesa é a inocência total. Jailson foi acusado de ser articulador do crime, o mentor intelectual. Em seu depoimento ele explica que jamais cometeu o crime”, disse advogado Elysio Pontes.

"Artur nunca teve inimigos", garantiu pai da vítima

Além do filho de Cláudio Amaro Gomes, duas testemunhas de acusação também foram ouvidas. A primeira foi a esposa da vítima, Carla Rameri, e a segunda foi o pai do médico, Alvino Luiz Pereira. Os dois se emocionaram bastante ao falar de Artur Eugênio.

“Meu filho nunca teve inimigos. Eu só sabia que ele tinha desfeito a sociedade com Cláudio Amaro porque, segundo ele, o doutor não tinha ética profissional. Mas eu não o conhecia pessoalmente. E, durante o velório do meu filho no Hospital Português, ele chorou e abraçou a mim e a minha esposa”, relatou o pai de Artur, em depoimento. 

O assistente de acusação, o advogado Daniel Lima, também pontuou. “São quatro anos de sofrimento. A família está destroçada emocionalmente. A família quer que isso tenha um fim. Inclusive o próprio Conselho Regional de Medicina cassou o registro de Cláudio, pelas faltas éticas que Artur disse que iria denunciar e logo depois foi assassinado. Tanto é que essas faltas éticas foram motivos da cassação do diploma de Cláudio”.

Réus devem começar a ser interrogados hoje

Hoje pela manhã, a expectativa é de que, com a dispensa das testemunhas de defesa, tenha início o interrogatório dos réus. A fase seguinte é a de debates orais, em que acusação e defesa apresentam seus argumentos. Cada lado terá até duas horas e meia para tentar convencer os jurados. Em seguida, começam a réplica e a tréplica, que garantem mais duas horas para cada. Os jurados, então, são isolados numa sala. A decisão pela absolvição ou condenação dos réus é tomada por maioria simples e a votação tem caráter sigiloso. 

A princípio, o julgamento iria se alongar por cinco dias, mas a expectativa é de que a audiência se encerre amanhã, já que a juíza Inês Maria de Albuquerque Alves deferiu o pedido feito pela defesa de Cláudio, para não exibir as mídias da fase de pronúncia e a defesa de Jailson dispensou as três testemunhas que havia convocado.

Além dos réus Cláudio Amaro Gomes e Jaílson Duarte César, estiveram envolvidos também no homicídio do médico Artur Eugênio Flávio Braz, morto numa troca de tiros com Polícia Militar em fevereiro de 2015, Cláudio Amaro Gomes Júnior e Lyferson Barbosa da Silva. Os dois últimos foram a júri popular em setembro de 2016, quando foram condenados a 34 anos e quatro meses de reclusão e 26 anos e quatro meses de reclusão, respectivamente. 

Artur foi executado com tiros na cabeça e nas costas na noite do dia 12 de maio no ano de 2014, às margens da BR-101, próximo a Comportas, em Jaboatão dos Guararapes. A vítima foi seguida desde o local de trabalho e abordado quando chegava à sua residência, sendo levado ao local onde foi morto. O carro dele foi incendiado na mesma estrada, já no Recife. Artur e Claudio eram cirurgiões torácicos e trabalharam juntos, até Artur descobrir irregularidades cometidas por Cláudio em procedimentos cirúrgicos no Hospital das Clínicas, passando a ser perseguido, situação que se complicou quando Artur passou a se destacar no cenário médico pernambucano. 

“É uma dor muito grande, mas confiamos em Deus, na Justiça da terra que os culpados serão punidos conforme a lei. Imagine você ficar cara a cara com um monstro? Mandar matar meu filho e chorar no caixão. Artur era muito ético, não comentava com ninguém, só falava que não dava para trabalhar com Cláudio porque era desonesto”, comentou o pai de Artur, Alvino Luiz Pereira, de 68 anos.

O filho de Artur completa seis anos nesta semana e pergunta constantemente pelo pai, disse a mãe de Artur, Maria Evane de Azevedo. “Eu só queria ter a oportunidade de perguntar a esse senhor se já amou na vida, se conheceu o amor. Se ele sabia o que é tirar o filho de uma mãe e  deixar um filho sem o pai da maneira que ele deixou o meu neto, que ainda hoje clama pela presença do pai. Clamamos por justiça. Ele não volta, mas acalma o coração da gente saber que houve justiça na terra”, lamentou.


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