Apoio Uma força para vencer a dor do luto

Por: Marcionila Teixeira

Publicado em: 05/11/2018 17:54 Atualizado em:

Foto: Gabriel Melo/Esp. DP
Foto: Gabriel Melo/Esp. DP
Saulo Santos Oliveira, 17 anos, morreu baleado na rua, cercado de curiosos, policiais e por sua mãe ajoelhada junto ao corpo. "Tanto que te pedi para sair dessa vida, meu filho", dizia Dulândula Maria dos Santos, 50, repetidamente. A última conversa entre mãe e filho soou como uma espécie de premonição materna. Naquele dia, ela sentiu o coração apertado. Pediu ao jovem para não sair. Diante do inevitável, restava apenas esperar a volta do jovem para casa. Ele nunca mais retornou.

A partida precoce do jovem aconteceu há oito anos, no dia 24 de outubro de 2010. A mãe, uma pedagoga, mergulhou fundo em uma espécie de abismo formado por depressão e saudade. Em dois anos, emagreceu e passou a usar remédios para dormir. Manteve o quarto do filho arrumado, à espera de um dia ele cruzar a porta principal.

Para Dulândula, o acompanhamento de psiquiatras, psicólogos, a acupuntura e a presença da família foram fundamentais na ressignificação do luto. "Um dia minha irmã disse: se você continuar assim, vai enlouquecer e eu vou precisar lhe internar. Você tem mais dois filhos para cuidar". Foi o sinal de alerta. Dulândula escolheu sobreviver. Ressignificar.

O luto por um filho morto em condições violentas é uma das dores mais lancinantes para uma mulher. São essas mães vítimas da violência urbana quem mais procuraram ou são encaminhadas pela família para o grupo O Farol, um espaço que funciona na Avenida Maurício de Nassau, 219, na Iputinga, no Recife, e atende de forma voluntária pessoas enlutadas.

"Nos homicídios, a avalanche é maior, pelo sentimento de morte injusta, indigna. O mais comum é brigar com Deus. 'Que Deus é esse que deixou isso acontecer?', costumam perguntar", disse Andréa Botelho, psicóloga e idealizadora do Farol.

O acidente e o infarto também são considerados perdas abruptas. Os parentes nunca imaginam que tal fato pode acontecer com o ente querido. "São mortes trágicas não naturais. Pouco se fala sobre isso. São acidentes, choques elétricos, homicídios. É preciso cuidar para não entrar no luto patológico, na melancolia", alertou a psicóloga. Para isso, não basta simplesmente dar medicação. "É preciso entender o que acontece".

O filho de Gilzete Valença Gomes, 71 anos, trabalhava como segurança na Avenida Recife quando foi assassinado. Aconteceu em 13 de abril de 1998. "Naquele dia, falei para ele: hoje é o último dia que você vai. É um trabalho perigoso. Se eu soubesse o que ia acontecer, tinha dado um beijo, um abraço no meu filho antes dele sair", lamentou a mãe.

Hoje, ela carrega no peito uma imagem do filho em um pingente de prata. "Ainda choro. Mas é de muita saudade. O luto é como uma cicatriz. Não apaga, mas cicatriza. Já posso falar sobre isso. Antes não podia. Também comparo com uma queda. É difícil levantar e voltar a seguir ereto." O segurança Anselmo Eduardo Valença tinha 27 anos quando morreu.

O caminho de volta de Gilzete consistiu em buscar a alegria de viver. "No lugar onde estou, ninguém fica triste. E ele também era assim. Sei que tem coisas que acontecem. Mas a gente tem que ser superior. Faço teatro, danço, procuro ser feliz. Também procurei apoio em encontro de casais com Cristo e no grupo Farol". Gilzete, assim como Dulândula, também escolheu sobreviver. Ressignificar.

O Farol funciona como um grupo de apoio e promove encontros uma vez por mês. Aos frequentadores, é recomendado um trabalho paralelo com especialistas. No espaço, as pessoas recebem orientações sobre o que fazer em relação ao sofrimento provocado pelo luto, como a família pode dar suporte ao parente para ele não entrar em um estado de luto crônico, entre outras informações. Na programação, há palestras e espaço aberto para quem quiser falar.

"O Farol chama o navio desgovernado e diz: é por aqui, vem. Pensamos sobre a perda. Se a gente deixa de falar, a dor cristaliza e é ainda mais difícil prosseguir", explicou a psicóloga Andréa Botelho. O melhor a ser feito, diz Andréa, é procurar uma intervenção com um especialista logo após a morte da pessoa querida. "O parente muitas vezes adoece, perde trabalho. Se há pendências na Justiça, por exemplo, o luto não seca. É como uma roupa molhada no varal. O mesmo acontece quando não há o corpo, como acontece com mães de desaparecidos. Nesse caso, o luto parece não ter fim", destacou.

A arterapia é outro caminho possível na busca da ressignificação do luto. O trabalho tem foco na criatividade e no imaginário. "É comum, no luto, estar com a palavra interditada. Na arteterapia, usamos materiais como colagens e pinturas para ressignificar o luto. A linguagem quem vai dizer é o próprio processo do cliente", explicou o arteterapeuta Ivan Ferreira. No lugar da fala, trabalham-se as produções simbólicas.

Ele contou que na primeira vez que abordou o luto com um cliente, pediu imediatamente argila, uma forma da pessoa voltar ao concreto, ao real, sair do lugar da dor e elaborar o conflito. A aquarela, disse Ivan, pode ser aplicada para quem tem necessidade do controle da situação, que não aceita a perda. "Você não chega dizendo como deseja trabalhar com a arteterapia. Nos encontros, percebemos o material ideal e o que a pessoa traz de subjetividade", explicou.

Ivan considera que entender o luto faz parte de um ciclo, que passa pela negação, raiva, barganha, depressão. "Nem sempre falar de luto é quando alguém morre. Isso pode acontecer também na perda de emprego, mudança de endereço, fim de um relacionamento. O ritmo dessa ressignificação do luto é a pessoa quem define, a forma como sente e processa os acontecimentos. Cada um tem seu tempo", completou.

A saudade, disse Ivan, não é doença. "Trata-se de um processo simbólico que precisamos ressignificar. Se o lugar que a pessoa deixou me faz sofrer, posso ressignificar, lembrar dos momentos bons e ficar feliz", pontuou.


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