ENTREVISTA: LUIZ MARANHÃO FILHO // HISTORIADOR "Os pioneiros da Rádio Clube têm de ser destacados"

Por: Silvia Bessa

Publicado em: 05/11/2018 09:48 Atualizado em: 05/11/2018 09:53

Imagem: Nando Chiapetta/DP
Imagem: Nando Chiapetta/DP

Luiz Maranhão Filho é memória viva da imprensa pernambucana e brasileira. Nesta segunda parte da entrevista concedida por ele ao Diario de Pernambuco sobre a Rádio Clube e as pesquisas que lhe deram fôlego durante oito décadas, o professor e pesquisador - autor de algumas das maiores referências bibliográficas sobre a comunicação eletrônica no Brasil - conta causos e lembranças de um passado de glória. Luiz Maranhão Filho acompanhou o sucesso da Rádio Clube desde menino, conviveu com astros criativos como Aldemar Paiva e o maestro Nelson Ferreira. Atuava como jornalista, escritor e radialista multifuncional e traz ainda no seu currículo trabalhos como publicitário e diretor de canais de TV.

Neste depoimento, que integra a série de reportagens publicada toda semana para marcar os 100 anos da Clube, ele narra como começou a carreira na Universidade Federal de Pernambuco, onde chegou a lecionar 22 disciplinas diferentes. Cita projetos que marcaram sua trajetória profissional, passagens curiosas da convivência com amigos e lembra da luta incessante (contínua e atual) junto a pesquisadores de outros estado para que a emissora recifense seja reconhecida como a pioneira.

PAIXÃO
Estudei Direito, mas minha paixão sempre foi o rádio. Quando eu saí do Recife, entrei para área da publicidade. O jornal pagava pouco... Aí a primeira agência de propaganda daqui, a Abaeté Propaganda, cismou de me levar. Fui para a Bahia dirigir o escritório da agência. Depois, fiz TV. Eu tive até um problema com Glauber Rocha. A atriz Helena Ignez, mulher dele, passou no teste da televisão e ele não deixou porque disse que aquilo era subliteratura. Fiz uma novela e aí Glauber, com raiva, escreveu no jornal usando este termo “subliteratura”. Eu cismei com a cara dele, já tinha tido esta refrega, então peguei Senhora, de José de Alencar, e adaptei para televisão. Teve jornal que anunciou assim: “TV Itapoan abre com literatura”. Aí Glauber calou a boca. Até que Glauber se aproximou de mim para eu liberar Yoná Magalhães para fazer o filme dele. Yoná Magalhães, que atriz espetacular!.... Depois voltei para Recife e fui ainda para Campina Grande. Cheguei no Rio de Janeiro e fiquei até 1971. Era assessor de comunicação de um banco e repórter do Diário Carioca. Foi barra naquela época porque a gente saia da redação para fazer matéria e não sabia se ia voltar. Minha filha mais velha adoeceu, então voltei para o Recife e fiz o concurso para a Universidade. A universidade era cheia de teóricos e não tinha um radialista. Era um concurso de cartas marcadas e aí eu vi que tinha uma disciplina de Legislação da Comunicação em que a exigência era ser bacharel em Direito. Eu tinha mestrado. Quando me aposentei, cheguei a ensinar 22 disciplinas. Fundei o curso de radialismo em 1982 e, na Nassau, fui fundador do curso de cinema.

LEGADO
Publiquei vários livros. Um dos últimos, Raízes do Rádio, tem uma segunda parte que é uma pesquisa, chamada Viva a voz. Juntei depoimentos de todo mundo da Rádio Clube. De Chacrinha, de Antônio Camelo... Esses depoimentos são em áudio e em vídeo; estão em São Paulo agora porque a Urca Filmes está fazendo um grande documentário sobre a história do Rádio. Eu tinha feito esses depoimentos todos na TV Universitária, mas eram em fitas U-matic, que ninguém reproduz aqui. Montei um programa chamado Memória. São cinco programas de cinema e quatro de teatro. Tem depoimento de Abílio de Castro, de Oto Silas, que foi um alemão...Não sei se você sabe, mas a primeira transmissão de FM foi feita aqui no Congresso Eucarístico Nacional, em 1939. O Silas conta esta história, de que ele construiu um transmissor pelo esquema da revista antena, que era da Alemanha, movido a duas baterias de caminhão. Para fazer a transmissão andando, ele colocou o transmissor nas costas de um estivador e as baterias nas costas de outro. A solução que deu para o problema foi arrumar duas algemas e amarrar um no outro. Curioso porque a procissão começava ali defronte ao Grande Hotel. Foi colocada uma torre intermediária no Diario e, do Diario, se transmitia para o Parque 13 de Maio onde foi o Congresso. 

HISTÓRIA
A Rádio Clube tem uma série de pioneirismo que precisam ser destacados porque esse povo do Sul briga por isso. Eu sou do Intercom, que é um congresso dos pesquisadores, e quando eu encontro os pesquisadores no Congresso, eles pensam: ‘Já vem polêmica’. Mas já tem um grupo todo ao meu lado. Outro grupo que defende muito a Clube é o grupo do Nordeste. O problema é o pessoal do Rio de Janeiro, mas o próprio Roquette Pinto nunca se arvorou de patrono do rádio ou de pai do rádio. Ele pegou um transmissor já feito nos Estados Unidos e botou uma rádio no Rio. Oscar Moreira Pinto é primo de Roquette Pinto e foi dizer a ideia de montar uma rádio em Pernambuco. Ele disse ‘Não bote, não, porque tem um grupo. Procure o grupo e se associe a ele’. Aí está o mérito de Oscar porque ele reorganizou a Rádio Clube. O primeiro transmissor que foi montado aqui foi um transmissor de telegrafia por um garoto de 14 anos. Tem um depoimento de Abílio de Castro que ele diz que o microfone tinha mais de cinco metros de distância e fazia ressonância na sala. 

LEMBRANÇAS
Minhas maiores lembranças são as da convivência com Aldemar Paiva. Quando a Rádio Clube juntou-se com a Tamandaré, foi um desastre. Eu fiquei lá na Tamandaré e lembro que fiz um concurso de bandas do interior chamado Salve a retreta; teve uma das maiores repercussões da época. Eu ia para o interior e pegava uma banda quase desativada, gravava a retreta e voltava. 

CONCEITO
“A Rádio Clube era a ponte”, meu pai sempre dizia. Tinha gente que saia do Ceará e fazia carreira aqui. Depois, se mandava. Vinha gente da Bahia e de todos os estados. 

Tinha grandes produtores na Clube, como Telga de Araújo. Severino Barbosa, grande redator, e J. de Oliveira que era outro. Eram quatro redatores para cobrir tudo. Eu cheguei a ter três novelas no ar ao mesmo tempo. Depois teve uma crise financeira e perguntaram o que fazer. Criei o Forró de Mané Vito com toda a história de Gonzaga, com o Cabo 70... Eram duas horas de programas, o auditório tinha mil e tantos lugares. Ficava lotado todas as noites.

Luiz Gonzaga iria fazer temporada e estava na estrada, quando chegou me apresentei a ele. Ele disse: “Quero entrar para o Forró de Mané Vito. Vou ser o sanfoneiro da roça”. Aí o auditório estourou.

A última entrevista que Gonzaga deu foi a mim. No fim, eu pergunto a ele sobre o futuro. Ele está numa rede, cansado, e responde: “Minha vida é andar por este país”... Tenho um arquivo com muita riqueza, por isso todo aluno que quer fazer projeto me procura.

Esta entrevista de Luiz Maranhão continua na próxima segunda-feira, como parte da série de reportagem sobre os 100 anos da Rádio Clube 


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