AQUI NOS BAIRROS A Brasília da resistência Bairro da Zona Sul do Recife é referência em luta e perseverança através dos moradores locais

Por: Gustavo Carvalho - Diario de Pernambuco

Publicado em: 01/11/2018 20:27 Atualizado em: 01/11/2018 20:47

Praia do Buraco da Véia, na comunidade da Brasília Teimosa. Foto: Leo Malafaia/Esp.DP
Praia do Buraco da Véia, na comunidade da Brasília Teimosa. Foto: Leo Malafaia/Esp.DP

Todo lugar é repleto de histórias e memórias. Isso é relatado, muitas vezes, por meio da arquitetura e o desenho que tal distrito foi construído. Porém, além desse delineamento, os espaços são celeiros de histórias do que acontece ou que já aconteceu neles. Essa relação é fundamental para a formação do que ela é, sua vida e reminiscência.  

Localizado na Zona Sul do Recife e Integrado à sexta região político-administrativa da capital pernambucana, o bairro de Brasília Teimosa é aquele tipo de lugar que de só ouvir o seu nome desperta curiosidade. Nos tempos passados, o distrito foi destinado à construção do Parque de Inflamáveis do Porto do Recife, fato que não ocorreu. O terreno ficou em litígio e acabou sendo invadido. 

Essa comunidade foi sempre marcada por uma intensa luta em defesa de seus anseios, conseguindo permanecer num local valorizado e de interesse de grupos econômicos e políticos poderosos.

Célia Silva e Celly Silva, comerciantes da localidade. Foto: Leo Malafaia/Esp.DP
Célia Silva e Celly Silva, comerciantes da localidade. Foto: Leo Malafaia/Esp.DP

Célia Silva, 57, é moradora do bairro há 50 anos. Ela mantém na ativa um bar há mais de 30, e conta que chegou ao local com a sua irmã gêmea, Cely, quando ambas tinham apenas sete anos. “Quando chegamos não tinha nada. Lembro-me bem que só havia palafitas construídas próximas ao mar. Para pegar um ônibus tínhamos que ir à avenida. Boa parte das ruas não eram calçadas. Éramos esquecidos”, destaca.  

Quem chega ao estabelecimento é recebido com bastante alegria. No cardápio, as opções são infinitas. Vai de guisado até tubarão ao coco. Esta última é a iguaria da casa. Célia lembra que, enquanto moradora, vários acontecimentos no local a marcaram profundamente. “Foi o período de construção do Parque das Esculturas de Brennand. As carretas levando aquelas pedras imensas que quando passavam pelas ruas as casas tremiam. Aquilo me fascinava”, completa, sorridente. 

O apego pelo bairro é tanto que ela não hesita em esconder. “Não há dinheiro no mundo que me faça sair daqui. Foi aqui que me criei e conquistei as minhas melhores amizades. Quero morrer aqui, cuidando do meu bar”, conta, emocionada.

O local abriga Igrejas, restaurantes, padarias e até fast foods. Tem opção para todos os gostos. Seguindo pela Avenida Brasília Formosa, que também dá acesso à Rua Arabaiana, encontra-se a casa da cabeleireira Maria do Nascimento, 47. Com os olhos emaranhados, ela conta que a relação com a Brasília já vem de muito tempo. “Me mudei da Estrada dos Remédios para morar aqui. Tanto o lugar quanto as pessoas me cativaram. Foi um sentimento inexplicável. Amo essa comunidade” completa. 

Virou revista 

A paixão e afeto por um lugar nem sempre parte dos mais velhos. Camila Souza, 26, é prova disso. Nascida e criada em Brasília Teimosa, a relação de afeto e apego pelo bairro é algo imensurável. “Brasília Teimosa tem aquela coisa de ‘meu lugar’, ‘minha terra’. Tenho muito orgulho de sua biografia e resistência popular”, reforça. 

Para ela, o distrito é definido em uma palavra: resistência. A paixão é tanta que o bairro virou tema de seu trabalho de conclusão de curso (TCC). “Desenvolvi um livro no mesmo ano em que a comunidade completaria 70 anos de invasão. A teimosia de Brasília Teimosa precisava ser registrada e usei a minha visão de jornalista e moradora para concretizar o livro”, ressalta. 

Quando questionada sobre o futuro do local como um todo em um futuro não tão distante, Camila reforça que o bairro tende a crescer como um todo, e enaltece os valores dos moradores locais. “Talvez o meu livro seja esse “clamor” para lembrar aos moradores o que já fomos um dia e que possa chamar atenção no que podemos fazer para não perder de vez o espírito de luta, de resistência que aprendemos com tantas lideranças e moradores que ali passaram”, conclui. 


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