obras Concatedral de São Pedro terá altares restaurados Trabalho de recuperação dos bens integrados do templo, orçado em R$ 5,5 milhões, está previsto para o primeiro semestre de 2019

Por: Tânia Passos - Diário de Pernambuco

Publicado em: 29/10/2018 09:12 Atualizado em: 29/10/2018 09:18

Os seis altares laterais e o alta-mor vão receber douramento nos seus ornatos. Foto: Peu Ricardo/DP
Os seis altares laterais e o alta-mor vão receber douramento nos seus ornatos. Foto: Peu Ricardo/DP

A Concatedral de São Pedro dos Clérigos, no Pátio de São Pedro, bairro de Santo Antônio, vai passar pela segunda etapa na restauração do templo, que foi reaberto em dezembro de 2017, após ter permanecido fechado por cinco anos. A reforma incluiu reforço estrutural, tratamento de piso, parede, coberta e instalações elétricas, além da recuperação de uma fenda em uma das torres. A obra custou R$ 3 milhões do Programa de Aceleração de Crescimento de Cidades Históricas. Dessa vez, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artísticos Nacional (Iphan) abriu licitação no valor de R$ 5,5 milhões para o restauro dos bens integrados do templo religioso.

O edifício faz parte de um conjunto arquitetônico tombado pelo Iphan desde 1938. A previsão é que as obras sejam iniciadas no primeiro semestre de 2019. As propostas das empresas interessadas devem ser entregues no dia 29 de novembro. “Depois teremos o prazo de habilitação das empresas e a depender dos trâmites desse processo, as obras só devem ocorrer no próximo ano. Já o prazo de execução é de 13 meses”, revelou a superintendente do Iphan-PE, Renata Borba. 

Apenas os ornatos em alto-relevo terão douramento. Foto: Peu Ricardo/DP
Apenas os ornatos em alto-relevo terão douramento. Foto: Peu Ricardo/DP


O projeto de recuperação é da Arquidiocese de Olinda e Recife e teve à frente o arquiteto e restaurador Jorge Tinoco. No interior da nave da igreja, onde estão localizados seis altares laterais, além dos púlpitos, todos são em madeira talhada em alto-relevo. Na Capela-mor, o altar e o teto, também em madeira com desenhos em alto-relevo, serão recuperados. O salão da sacristia vai ser contemplado no projeto de restauro. No local há vários ornatos em dourado nas paredes e teto. 

Estudos para se chegar ao modelo mais próximo do original dos bens integrados acabou levantando vertentes distintas. Segundo o reitor da Igreja de São Pedro, o frei Rinaldo Pereira dos Santos, para se chegar a um consenso foi feito um seminário com especialistas do setor. 

Uma parte dos especialistas defende que os bens integrados em madeira nas laterais da nave e no altar-mor não eram pintados em dourado. Outra parte, que a madeira era pintada em branco e uma terceira que o entalhe ficou na madeira crua, sem pintura. “Alguns estudiosos acreditam que a madeira não foi pintada por falta de dinheiro, mas prevaleceu a proposta do arquiteto Jorge Tinoco de dourar as partes em alto-relevo e deixar o restante em madeira”, revelou o reitor. 

O arquiteto e restaurador Jorge Tinoco baseou a sua proposta a partir de informações de um documento encontrado no acervo das irmandades. “Praticamente não há registro histórico. Mas foi encontrada uma matéria de jornal publicada em 1942, no acervo da irmandade, que revela que a capela-mor e os altares laterais eram dourados. No entanto, o trabalho de prospecção encontrou vestígios apenas de branco, que serviria de base para o douramento”, explicou Tinoco.

A perda dos elementos revelada na prospecção ocorreu ao longo de sucessivas reformas realizadas pela irmandade e também pelo Iphan na década de 1970, quando  houve a opção de raspar a tinta que havia e deixar a madeira dos altares à mostra. “Havia um pensamento mais modernista dos profissionais que faziam o Iphan na época e houve a decisão de deixar tudo na madeira. A tradição dos templos católicos remete ao ouro da Jerusalém Celestial”, disse. 
 
Concatedral é também um ponto turístico religioso

A sacristia do tempo também terá painéis restaurados.  Foto: Peu Ricardo/DP
A sacristia do tempo também terá painéis restaurados. Foto: Peu Ricardo/DP


Além de ser um refúgio espiritual, a Igreja de São Pedro dos Clérigos é considerada um ponto turístico por sua beleza singular. De estilo barroco, ela começou a ser construída em 1728, ficando totalmente pronta apenas em 1789. Talhada em pedra de cantarina, a igreja traz uma estrutura em volta da porta principal única no estado. É realizada uma missa ao meio-dia nas quartas-feiras, no restante da semana a igreja fica aberta para visitação e orações dos fiéis. “Há uma taxa de R$ 5 e meia entrada para quem quiser visitar a igreja. Esse dinheiro é usado na manutenção do templo”, explicou o reitor da Igreja de São Pedro dos Clérigos, o frei Rinaldo Pereira. 

A Irmandade de São Pedro dos Clérigos, criada em 26 de junho de 1700, comprou, quase 20 anos depois, uma horta e seis casas situadas no meio das Águas Verdes, no bairro de Santo Antônio da Vila do Recife, para a construção de uma igreja própria. Uma inscrição na portada da igreja informa que o início das obras ocorreu em 3 de maio de 1728. Estavam presentes frei José Fialho e o provedor da Irmandade.

 O projeto é de Manuel Ferreira Jácome. O consistório, a capela-mor e a sacristia ficaram prontos em 1729, mas o corpo da igreja e a parte central da fachada só foram terminados em 1759. Em seguida construíram-se as duas torres sineiras. O Comendador Padre Antônio Martins, Vigário da Vila de Bom Jesus, foi um dos entalhadores. João de Deus Sepúlveda realizou a pintura do forro da nave em 1764, auxiliado por Manuel de Jesus Pinto, que pintou o coro. A sacristia, com o altar de Nossa Senhora da Soledade, foi inaugurada em 1781. Inácio Melo Albuquerque foi o mestre-dourador das obras de talha, terminadas em 1784.

As obras de talha do retábulo do altar-mor não são originais. A primeira decoração foi substituída na reforma ocorrida em 1858, que alterou o estilo para o neoclássico. Durante uma segunda restauração, levada a cabo entre 1953 e 1957, substituiu-se a cobertura (sem interferir no forro) e o madeiramento de sustentação, e recuperou-se novamente o altar, adotando-se uma intervenção alternativa que removeu repinturas posteriores que anulavam o efeito de relevo dos entalhes. Como este segundo retábulo não foi dourado originalmente, sendo apenas coberto por uma camada de tinta a óleo branca, permanece visível a madeira natural.
 
 


Os comentários abaixo não representam a opinião do jornal Diario de Pernambuco; a responsabilidade é do autor da mensagem.