Especial Uma educação para o século 21 O novo milênio demanda escolas que sejam comunidades de aprendizagem personalizada, onde o professor deixa de ser a autoridade única do conhecimento e o protagonismo do processo educacional passa a ser também do estudante

Por: Anamaria Nascimento

Publicado em: 25/10/2018 10:00 Atualizado em: 25/10/2018 19:03

O século 21 exige a formação de cidadãos globais, protagonistas do processo de aprendizagem, conectados às novas tecnologias, com senso crítico e habilidades emocionais. Foto: Gabriel Melo/Esp.DP.
O século 21 exige a formação de cidadãos globais, protagonistas do processo de aprendizagem, conectados às novas tecnologias, com senso crítico e habilidades emocionais. Foto: Gabriel Melo/Esp.DP.
A escola foi por décadas um lugar para ouvir o professor falar durante todo o tempo da aula. As carteiras ficavam enfileiradas. Matemática se aprendia pela tabuada. Caneta, papel, lápis e borracha eram itens indispensáveis. Para a letra ficar bonita, caligrafia. Conversa entre alunos era considerada desrespeito. O único meio de medir o desempenho dos estudantes eram as provas realizadas em períodos pré-determinados. Rompendo com esse modelo de educação, a virada do século 20 para o 21 veio acompanhada de uma verdadeira revolução dos sistemas educacionais. O novo milênio passou a exigir novos pensamentos, formatos e metodologias.

O século 21 demanda escolas que sejam comunidades de aprendizagem personalizada, onde o professor deixa de ser a autoridade do conhecimento, e o protagonismo do processo educacional é do estudante. Como não é uma instituição que passa incólume às mudanças do tempo e da sociedade, a escola atua, muda e se desenvolve atenta ao presente e ao futuro para que os alunos estejam preparados para os dias atuais e para os anos que ainda vêm. 

O renascimento da escola no século 21 requer mudanças profundas e outras mais simples de serem implementadas. É preciso promover a participação ativa dos estudantes; relacionar o conteúdo com a realidade de forma prática e real; entender a sala de aula como um espaço de experiências de aprendizagem diversas, tendendo à personalização. O trabalho cooperativo deve ser estimulado, e os conflitos devem ser dinamizadores da construção ativa do conhecimento. Abaixo, o Diario mostra como as escolas pernambucanas têm se preparado para atender a essas demandas do novo milênio.

AS PRÁTICAS DE ENSINO DESTE MILÊNIO
Autonomia do estudante e a criação de espaços estimulantes ajudam no desenvolvimento. Foto: Camila Pifano/Esp.DP.
Autonomia do estudante e a criação de espaços estimulantes ajudam no desenvolvimento. Foto: Camila Pifano/Esp.DP.
As escolas e os professores precisam se reinventar. A constatação é unânime entre os especialistas em educação que pensam sobre o futuro da área. Para se adequarem à realidade do século 21, as instituições de ensino precisam passar por grandes mudanças. Mais do que melhorar a infraestrutura das escolas e oferecer recursos tecnológicos aos estudantes, é preciso mudar a mentalidade de quem faz educação. Por isso, o apoio aos docentes e incentivo à inovação são práticas que devem ser priorizadas por gestores e pelas políticas públicas.

Para o psicólogo e pesquisador espanhol Alfredo Hernando Calvo, autor do livro Uma viagem à escola do século 21, muitas escolas estão no século 21, mas não vivem o século 21. É como se o relógio institucional tivesse parado no tempo. “Em uma escuela21 (como define as escolas que de fato vivem o século atual), aprende-se com o movimento do corpo, porque é uma maneira de manifestar nossa inteligência. É uma escola onde existe mais de um tipo de espaço: poltrona, reflexão, intimidade, estudo, diálogo, nuvem. Cada um deles tem uma configuração estrutural diferente, mas dentro do mesmo projeto”, pontua na obra.

O filósofo, doutor em comunicação pela Universidade de São Paulo (USP) e professor aposentado de novas tecnologias José Moran, fundador do projeto Escola do Futuro, ressalta que o Brasil é muito desigual nesse sentido. “Há grupos, tanto no setor público quanto na área privada, muito atentos à inovação. No entanto, ainda temos escolas muito distintas. Algumas já estão no século 21, outras  no século passado”..

Segundo ele, um entrave importante para essa transformação é a falta de incentivo ao trabalho do professor. “Muitos trabalham em duas, três escolas para complementarem a renda. A situação da categoria não é ideal para ele conseguir pesquisar, inovar. Falta esse suporte para que o professor possa se dedicar a esse processo de mudança”, pontua. O último relatório de monitoramento do Plano Nacional de Educação (PNE), lei aprovada em 2014, mostra que os professores de escolas públicas ganham, em média, 74,8% do que ganham profissionais assalariados de outras áreas, ou seja, cerca de 25% a menos. Até 2020, esse valor terá que ser o mesmo das demais categorias.

Outro fator relevante é a formação do docente. Pelo PNE, o Brasil terá que melhorar não apenas a remuneração, mas também a formação de quem está todos os dias em sala de aula. O país ainda tem muitos professores que atuam em áreas onde não foram formados. Um levantamento do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), ligado ao Ministério da Educação (MEC), mostra que, na educação infantil, 53,4% dos docentes não têm formação superior adequada. No ensino fundamental, o percentual chega a 49,1% nos anos finais (do 6º ao 9º ano) e a 41% nos anos iniciais (do 1º ao 5º ano). No ensino médio, 39,6% não têm formação devida. Pelo PNE, até 2024, todos os professores têm que ter a formação na mesma área em que lecionam.

As quatro fontes do currículo escolar no século 21: 

1. Fonte psicológica
É responsável pela atenção ao comportamento humano e aos processos de aprendizagem. 

2. Fonte pedagógica
Encarrega-se da inovação nos métodos e na prática educacional nos processos de ensino. 

3. Fonte sociológica
Refere-se às mudanças na sociedade que devem ser consideradas nas escolas. 

4. Fonte epistemológica
Avanços na ciência e pesquisas sobre tecnologia.

Os quatro pilares da educação do século 21:

Aprender a conhecer
Essa aprendizagem se refere à aquisição dos “instrumentos do conhecimento”, desenvolvendo nos alunos o raciocínio lógico, a capacidade de compreensão, o pensamento dedutivo e intuitivo e a memória. O importante é não apenas despertar nos estudantes esses instrumentos, como motivá-los a desenvolver sua vontade de aprender.

Aprender a fazer
Essa aprendizagem confere ao aluno uma formação em que aplicará na prática seus conhecimentos teóricos. É essencial que cada indivíduo saiba se comunicar através de diferentes linguagens, assim como interpretar e selecionar quais informações são essenciais e quais podem ajudar a refazer opiniões e serem aplicadas na maneira de se viver e de redescobrir o tempo e o mundo.

Aprender a conviver
Esse domínio da aprendizagem atua no campo das atitudes e dos valores e envolve uma consciência e ações contra o preconceito e as rivalidades diárias que se apresentam no desafio de viver.

Aprender a ser
Esta aprendizagem depende das outras. A educação deve propor como uma de suas finalidades essenciais o desenvolvimento do indivíduo, espírito e corpo, sensibilidade, sentido estético, responsabilidade pessoal e espiritualidade.

Fonte: Fundação Telefônica

SUPERESCOLAS INSPIRAM PELO MUNDO
Nas escolas Lumiar, os alunos trabalham livremente em três ou quatro projetos diferentes diariamente. Foto: Divulgação.
Nas escolas Lumiar, os alunos trabalham livremente em três ou quatro projetos diferentes diariamente. Foto: Divulgação.
Não faltam, no Brasil e no mundo, exemplos de escolas que podem ser consideradas modelo quando o assunto é educação no século 21. São escolas com projetos originais e criativos, que estimulam a autonomia dos estudantes, criam itinerários personalizados para eles, oferecem ambientes lúdicos e que estimulam a vontade de aprender, ensinando não apenas conteúdos, mas a lidar com as emoções. 

No livro Uma viagem à escola do século 21, Alfredo Hernando Calvo enfatiza que a boa notícia é que não se trata de um caso isolado. “O mundo está cheio de escolas nas quais professores têm outro comportamento, onde as notas têm outro sentido, os horários mudam e as salas de aulas e os corredores são cenário de atuações completamente novas. São escolas que crescem para conseguir os melhores resultados”, destaca. Ele listou 80 exemplos de ações transformadoras em escolas de 21 países, como a Omega School, em Gana, onde o aluno paga pelo que aprendeu e o Colégio Cardenal de Cracovia, no Chile, gerido por uma República de Estudantes, que toma decisões importantes sobre a rotina escolar.

Outro exemplo é a Escola da Ponte, na cidade do Porto, em Portugal. A prerrogativa da instituição é ser uma escola sem salas de aula tradicionais, com disciplinas diversas e onde os estudantes escolhem em quais conteúdos precisam se aprofundar. Os professores são “orientadores educativos” e acompanham os estudantes de modo individual e diferenciado. No lugar de disciplinas tradicionais, o projeto pedagógico é dividido por seis dimensões: linguística; lógica-matemática; naturalista (ciências da natureza, físico-química e geografia); identitária (estudo do meio, história e geografia de Portugal e história); artística; pessoal e social.

No Brasil, as escolas Lumiar, em São Paulo e no Rio Grande do Sul, são consideradas inovadoras. São colégios de educação infantil e fundamental diferentes, que compartilham o mesmo ideal pedagógico. Não há tarefa de casa ou horário fixo. Os alunos trabalham livremente em três ou quatro projetos diferentes diariamente. “Na prática, isso se traduz em substituir o papel do professor tradicional, como detentor do conhecimento, pelo tutor, que é quem acompanha o desenvolvimento de grupos de estudantes. Esse personagem tem por objetivo identificar os interesses e habilidades de cada grupo, oferecendo sempre ferramentas que possibilitem a criação e execução de projetos baseados nesses interesses e convidando os mestres, que são especialistas em temas diversos, mas não necessariamente acadêmicos de áreas específicas”, define a instituição no site oficial.

A IMPORTÂNCIA DE SER BILÍNGUE
Pesquisas mostram que cérebro de pessoa bilíngue é mais analítico. Foto: Camila Pifano/Esp. DP.
Pesquisas mostram que cérebro de pessoa bilíngue é mais analítico. Foto: Camila Pifano/Esp. DP.
Mais do que uma competência linguística, o bilinguismo tem sido defendido, no escopo da educação do século 21, como um benefício que vai além da fala. A formação de crianças fluentes em dois idiomas melhora funções cerebrais importantes e incrementa habilidades sociais. Pesquisas recentes realizadas em Montreal, Quebec, no Canadá, constataram que crianças que falam mais de uma língua demonstram maior capacidade de se concentrar e resolver tarefas. De acordo com o Censo 2016 do país, 78,4% da população de Quebec é bilíngue, a maior taxa canadense.

Ao serem estimuladas a mudar o foco de atenção, as crianças bilíngues também fazem isso de maneira mais eficaz quando os resultados são comparados com os das não bilíngues. Essas habilidades representam benefícios que vão além do bilinguismo, uma vez que também ajudam a criança a aprender e a processar informações rapidamente, não apenas na escola, mas em diversas situações da vida. “Numa verdadeira escola bilíngue, as crianças estão inserida, desde os primeiros anos da vida escolar, em um ambiente de imersão na segunda língua. O aluno aprende pelo uso, pela interação com o colega e com o professor. Aprendem a ler e a escrever na língua materna e também no segundo idioma”, explica o diretor-geral da ABA Global School, Eduardo Carvalho.

Eduardo Carvalho defende alfabetização em dois idiomas. Foto: Camila Pifano/Esp.DP.
Eduardo Carvalho defende alfabetização em dois idiomas. Foto: Camila Pifano/Esp.DP.
Uma das principais vantagens cognitivas do bilinguismo  foi descoberta em 2003 pela psicóloga e pesquisadora da Universidade York de Toronto Ellen Bialystok. Ela estudou um grupo de crianças, pedindo que elas identificassem quais frases de uma sequência eram gramaticalmente corretas. Tanto monoglotas quanto bilíngues enxergavam o erro em frases como “maçãs cresçam em árvores”, mas os resultados foram diferentes quando os dois grupos analisavam frases sem sentido, como “maçãs crescem em narizes”. Os monoglotas não conseguiam reconhecer que a sentença não continha erros gramaticais, afirmando apenas que a frase era “boba”, enquanto os bilíngues diziam que a frase era “boba, mas gramaticalmente correta”. 

A partir dessa e de outras pesquisas, a estudiosa defende que os cérebros de bilíngues passam por qualificações no chamado “sistema executivo” do cérebro, um conjunto de habilidades mentais que capacita para o bloqueio de informações irrelevantes. Isso daria a eles uma capacidade maior para conseguirem se concentrar na gramática e ignorar o sentido das palavras. A característica também os ajudaria a passar de uma tarefa ou foco para outro sem ficar confuso. O sistema executivo é fundamental para diversas atividades, como raciocínio lógico até dirigir carros.

Carreira
A capacidade de falar mais de um idioma tem repercussão ainda na futura vida profissional do estudante. No Brasil, um dos maiores entraves das empresas na hora de selecionar profissionais é a falta de proficiência em inglês. Uma pesquisa da EF Education First mostrou que o país ocupa a 41ª colocação em um ranking com 70 países. O estudo mediu o nível de inglês de 910 mil adultos de todo o mundo, em países que não têm o inglês como língua nativa.

BRINCADEIRAS AJUDAM NO APRENDIZADO
Brinquedos confeccionados a partir de desenhos feitos por estudantes dinamiza aula. Foto: Gabriel Melo/Esp.DP.
Brinquedos confeccionados a partir de desenhos feitos por estudantes dinamiza aula. Foto: Gabriel Melo/Esp.DP.
A falta de tempo, espaço e segurança para brincar livremente tem impacto direto no desenvolvimento das crianças. As vantagens do lúdico no desempenho é comprovado por pesquisas, que incentivam a inclusão da brincadeira nos currículos escolares não só na educação infantil, mas em todo o percurso acadêmico dos estudantes. Refletir antes de agir, traçar objetivos, ter maior atenção, ser flexível e controlar as emoções são habilidades essenciais à vida adulta que podem ser estimuladas através da ludicidade.

O Centro sobre o Desenvolvimento Infantil, da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, se dedica ao tema desenvolvimento infantil e defende a brincadeira como essencial ao processo de aprendizagem. “Não é uma pausa para aprender quando falamos de brincadeira”, afirma o diretor do centro de pesquisas, Jack Shonkoff, destacando que o brincar gera uma série de benefícios cognitivos, físicos, mentais e socioemocionais. “Brincar é uma das formas mais importantes pelas quais as crianças aprendem”, completou. Essas habilidades obtidas através da brincadeira perduram até a vida adulta, de acordo com o pesquisador. 

A mesma ideia é defendida pelo psicólogo evolucionista Peter Gray. Ele ressalta que quanto mais desenvolvido o cérebro de um mamífero, maior a quantidade de tempo que os filhotes daquela espécie passam brincando. Já os animais privados de contato social tornam-se adultos mais assustados. A ONG australiana Playground Ideas, no dossiê The case for play (A defesa do brincar), confirmou os benefícios no desenvolvimento humano vai além de questões cognitivas. Países que investem em abordagens amigáveis do brincar têm retorno financeiro. O estudo mostrou que estudantes beneficiados por programas que estimulavam o lúdico têm chances sete vezes maiores de conseguir um emprego. “Um dos benefícios pouco reconhecidos, mas fundamentais da brincadeira é a capacidade de autorregulação, uma habilidade difícil de ser ensinada, mas naturalmente desenvolvida através do brincar”, pontua o documento.  

Atividades que envolvem brincadeiras e estimulam a criatividade dos alunos têm sido adotadas com cada vez mais frequência nas escolas, levando em consideração todos os benefícios já comprovados do lúdico. “O aprendizado tem que ser prazeroso. Através da experiência, do desejo e da produção que a brincadeira proporciona, os estudantes aprendem. E é uma aprendizagem significativa, que ele leva para toda a vida”, destaca a pedagoga Karina Koblitz, do Colégio Parnamirim.

Na escola, os alunos do 2º ano do ensino fundamental participaram de um projeto interdisciplinar anual em que precisavam observar o bairro, identificar seus problemas e propor soluções. Tudo com um olhar lúdico. “Brincadeiras com fotos antigas do bairro ensinaram história, indo às ruas e observando a urbanização, aprenderam geografia. Em português, construíram um texto divertido, em que eles colocaram super-heróis criados por eles mesmos para 'salvar' o bairro de alagamentos e outros problemas. As histórias construídas pelos alunos viraram um filme de animação, narrado e desenhado por eles”, explica a diretora pedagógica do colégio, Tarcia Falbo. Os desenhos foram transformados em bonecos, batizados de bololofos. Com os brinquedos criados por eles mesmos, os meninos e as meninas narram as histórias e não esquecem os detalhes do que foi aprendido em sala de aula.

15 benefícios da brincadeira:

1. Compreender e identificar os sons

2. Conhecer e entender seu corpo e o ambiente

3. Despertar a curiosidade e o prazer de ver e buscar

4. Melhorar a eficiência visual

5. Despertar a vontade de movimentar-se e realizar atividades

6. Conhecer e entender seu corpo e o ambiente

7. Desenvolver e integrar os sentidos

8. Conhecer formas, sequência e seriação

9. Desenvolver o tato para reconhecer texturas, formas, temperatura, grandeza, peso, consistência e materiais de que são feitos os objetos

10. Desenvolver a estruturação e organização espacial

11. Reconhecer os objetos do ambiente, seu nome, uso e função

12. Adquirir independência e autonomia para movimentar-se e realizar as atividades cotidianas

13. Divertir-se com os números e iniciar o aprendizado de conceitos matemáticos

14. Desenvolver o prazer da leitura com livros interativos

15. Adquirir noção de tempo e aprender a usar o relógio

Fonte: Brincar para Todos (Ministério da Educação)

ENTREVISTA

Tânia Fortuna // Professora de psicologia da educação e coordenadora geral do programa Quem quer brincar?, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)

 (Foto: Elias Santos/UFRGS/Divulgação.)
Qual a importância do lúdico no processo de aprendizagem no século 21?
A escola de hoje não atende às exigências atuais em relação ao erro, à ilusão, à dúvida. Ela não nos ajuda a conhecermos a nós mesmos e aos outros. Porém, a escola deveria ajudar os alunos a aprenderem a viver. É aí onde entra a ludicidade, que ajuda a dar sentido ao que vivemos. Além disso, promove experiências de prazer. Isso porque quando a gente brinca ou joga, experimentamos as coisas por um ângulo novo. Por outro lado, a brincadeira também nos ajuda a tornar conhecido algo estranho. Perceba: quando pegamos um chocalho, uma caneta, um lápis e os transforma em outra coisa durante um jogo, transformamos o conhecido em estranho. Quando assistimos a um filme, participamos de uma atividade lúdica, estamos fazendo esses dois movimentos: tornando conhecido o desconhecido e transformando o desconhecido em algo familiar. Na brincadeira, tentamos entender, dar sentido. A experiência mais rica que o lúdico pode nos dar e dar às escolas é contribuir nessa tarefa de ajudar as pessoas a viverem.

Como o erro ensina?
A brincadeira permite que a gente erre sem culpa, sem medo. Brincando, podemos testar nossas habilidades. Ao mesmo tempo, permite que a gente desenvolva novas habilidades, competências e crie bagagens. A escola do século 21 terá que se curvar ao poder do brincar, da brincadeira que ajuda a dar sentido. Os alunos experimentam ainda a sensação de bem-estar e de satisfação do êxito. Isso os motiva a pensar, a se sentirem potentes. Através do erro, os alunos encontram estímulo para prosseguir.

No mundo conectado, como atrair a atenção e a concentração das crianças para as atividades escolares? 
A ludicidade pode contribuir de forma inusitada no processo de aprendizagem. Nunca tivemos tanto acesso ao conhecimento como agora. Dados sobre saúde, informações sobre política, dúvidas de português, biografia de uma personalidade. Para tudo isso, a internet nos dá respostas. O estranho é que isso não é o suficiente para as pessoas terem sede de conhecimento, terem vontade de conhecer. Essa abundância de informações não garante o estímulo para estudar. Ao contrário, parece que o excesso de dados gera uma espécie de saturação. Parece que nada comove os alunos. Então, o lúdico pode contribuir para desfazer ou transformar essa realidade. Não é renunciar a essa aquisição de saberes pelas novas mídias, mas se faz necessário que alguém ajude a organizar essa experiência. Esse organizador é o professor. O brincar pode ser uma poderosa ferramenta para organizar essas informações das novas mídias. Assim, em resumo, a ludicidade gera uma experiência prazerosa, ajuda a dar sentido e organiza as informações disponíveis, transformando em conhecimento e aprendizagem, uma vez que a brincadeira é essencialmente interrogativa. Ela provoca, instabiliza, dá vontade de avançar, de saber como é.

FOCO EM SOLUÇÕES E COLETIVIDADE
Formato de assembleia, que acontece uma vez por mês, é adotada atualmente em colégio do Recife. Foto: Léo Malafaia/Esp. DP.
Formato de assembleia, que acontece uma vez por mês, é adotada atualmente em colégio do Recife. Foto: Léo Malafaia/Esp. DP.
Aprender a ser, aprender a fazer, aprender a conhecer e aprender a conviver. Os quatro pilares da educação para o século 21 mostram que mais do que ensinar conteúdos e práticas, as escolas devem auxiliar na construção do protagonismo do aluno e estimular a convivência com as diferenças. É nesse contexto que surge o conceito de educação moral. Mais do que ensinar a obedecer a regras, as instituições de ensino precisam criar ambientes justos e cooperativos por meio do estímulo ao senso crítico e ao debate, mesmo em situações de conflito.

Estudiosa da educação moral, a doutora em educação e professora da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) Catarina Gonçalves ressalta que “se aprende a conviver convivendo”. Segundo ela, a escola é espaço privilegiado para a aprendizagem de competências socioemocionais porque é nela que a criança começa a se relacionar com a diferença. “Antes de começar a estudar, ela convive com os pais, com os irmãos. Na escola, por outro lado, passa a conviver com uma diversidade maior de etnias, de formas de alimentação, por exemplo. Por isso, a escola é um lugar favorável ao desenvolvimento de habilidades socioemocionais”, explica.

A pedagoga é membro do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Moral (Gepem), que, desde 2005, reúne pesquisadores de várias universidades, como a UFPB, Universidade de São Paulo (USP) e Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Os estudiosos observaram o dia a dia de várias instituições de ensino e compartilham o conhecimento com escolas de todo o país abertas a discutir o tema. “Uma grande meta deste século é ter pessoas que conseguem regular suas atitudes por meio de seus valores e não apenas por causa das normas, dos fatores externos que existem”, ressalta Catarina.

Luciana Mello destaca importância de habilidades socioemocionais. Foto: Léo Malafaia/Esp. DP.
Luciana Mello destaca importância de habilidades socioemocionais. Foto: Léo Malafaia/Esp. DP.
No Recife, as ideias do grupo foram usadas para a criação de um programa de formação de estudantes e trabalho de colaboração entre pares do Colégio Apoio, localizado em Casa Amarela, Zona Norte da cidade. Em 2019, a escola vai implementar uma ação pioneira voltada para o fortalecimento dos vínculos entre os alunos e investe em espaços para os estudantes pensarem formas alternativas de resolução de conflitos. “Essa questão é vista como conteúdo porque a gente entende que convivência é algo que, como a Matemática, a História, a Geografia e o Português, também se aprende”, pontua a vice-diretora pedagógica do Apoio, Luciana Mello.

Desde a fundação, o colégio desenvolve projetos de formação social e pessoal do estudante. “Temos, desde o maternal até o nono ano, uma área voltada para essas questões. Vamos fazendo uma gradação de metas ao longo dos anos escolares. As crianças menores têm metas que podem ser resolvidas com a ajuda dos adultos. Com os maiores, vamos dando mais autonomia, para que lidem com maior independência em relação aos conflitos”, esclarece a vice-diretora. O Apoio usa hoje, por exemplo, o modelo de assembleia com os estudantes. Nelas, que acontecem uma vez por mês, os alunos discutem coletivamente questões relacionadas a comportamento e relações interpessoais. Também em conjunto, debatem soluções.

A REVOLUÇÃO DA CULTURA MAKER
Colocar a mão na massa, com ou sem o uso de tecnologia, ajuda no processo educativo. Foto: Léo Malafaia/Esp. DP.
Colocar a mão na massa, com ou sem o uso de tecnologia, ajuda no processo educativo. Foto: Léo Malafaia/Esp. DP.
“Vai lá e faz.” O lema da cultura maker está cada vez mais presente nas escolas e mudou a relação dos alunos com os conhecimentos trabalhados em sala de aula. A dinâmica nas unidades de ensino e nos laboratórios maker é baseada na experimentação “mão na massa”. Crianças e adolescentes podem usar os mesmos processos de design que os adultos usam para desenvolver produtos para o mercado.

Um projeto possível nesse contexto, por exemplo, é a criação de uma Casa do Futuro. Os alunos começam estudando referências de projetos de arquitetura, realizam estudo de volumetria e estrutura geométrica e, em seguida, começam a colocar ideias no papel. Depois, modelam os projetos em computadores, cortam as peças dos protótipos, montam e finalizam os projetos. “Hoje, não se pensa mais em uma sala de aula sem recursos tecnológicos, seja ele qual for. Mas a questão principal não é a presença desse recurso, mas como ele será utilizado. Se a concepção de aprendizagem for arcaica, não tem inovação”, diz a diretora pedagógica do Colégio Apoio, Rejane Maia.

“A relação da cultura maker antecede aos anos 2000. Desde 1993, o trabalho com a temática mão na massa se estabeleceu no colégio. A caminhada envolve diversas invenções e projetos desenvolvidos por nossos alunos”, diz a professora do colégio Vancleide Jordão. A escola, que vai implementar uma Maker School em 2019, estimula os alunos a desenvolverem projetos por meio da experimentação. “O que acho mais legal de fazer as coisas é que materializamos ideias”, afirma o estudante do 8º ano Benjamim Chaves. Ele e os colegas de classe criaram reproduções da Usina Hidrelétrica de Xingó após uma excursão escolar ao Rio São Francisco. “Discutimos em sala de aula, tivemos o conhecimento teórico antes da viagem. Depois, criamos as reproduções”, completou a estudante Carolina Marinho, também do 8º ano.    

A professora do Centro Interdisciplinar de Novas Tecnologias na Educação e da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Liliana Passerino destaca que a cultura maker transforma o consumidor em produtor. “Defendo uma escola que produz seu próprio material e que se utiliza da informação, transformando-a em sua própria história. Nesse sentido, temos muito para caminhar, para construir em termos de políticas públicas. Se proposta for consumir coisas prontas, jogos prontos, apostilas digitais, não vamos produzir inovação”, considera. 

A pesquisadora lembra que não basta inserir as novas tecnologias na sala de aula se a metodologia for a mesma do passado. “Reproduzimos um modelo antigo de sala de aula, muitas vezes, usando a tecnologia, mas com metodologia antiga. É como se estivesse na louça de giz, só que agora digital. A tecnologia não se torna uma aliada, mas um meio”, pontua. Segundo ela, a tecnologia deve estar aliada a uma educação realmente inovadora. “Isso passa não só pela tecnologia, mas pelo professor, como produtor de ambientes de conhecimento. O aluno coparticipa de um processo em sala de aula, onde o centro não é a tecnologia nem o professor, mas a ação planejada”, enfatiza.

10 motivos para implementar espaço maker na escola:

1. Demonstração prática de conceitos científicos
O aluno manuseia, constrói, vê as ocorrências. Se o aluno estiver aprendendo noções de força, movimento e aceleração, poderá ver o que significa.

2. Desenvolvimento das habilidades mentais
O aluno é incentivado a usar o raciocínio lógico, a atenção, o poder de concentração e a observação.

3. Desafio de criar e ser flexível
O estudante é desafiado a criar. Ele terá de encontrar soluções para os problemas que surgem na aula, desde aqueles de ordem prática aos mais complexos. 

4. Aprimoramento da coordenação motora e manual
O aluno trabalha com as mãos e os olhos o tempo inteiro. São dezenas de peças separadas por tamanho, cor e função. 

5. Incentivo às capacidades de projetar e planejar
Antes de realizar um projeto, é preciso definir o que se pretende alcançar, selecionar o material necessário e pensar nas condições para a realização.

6. Interesse pela imaginação
Os projetos da aula de robótica podem ser criados a partir das ideias e histórias dos alunos. 

7. Aprendizagem em trabalhar em equipe
O aluno é incentivado a trocar experiências. Os projetos são quase sempre realizados em pequenos grupos, fortalecendo as relações interpessoais.

8. Entendimento dos próprios limites
O aluno aprende a testar os próprios limites, a conviver com as diferenças e a aprender com elas. 

9. O valor da paciência e da disciplina
O projeto é normalmente pensado em fases que exigem tarefas resolvidas uma após a outra. 

10. Desenvolvimento da metacognição
O aluno ganha a percepção do próprio processo de aprendizagem (metacognição).

ENSINO INTEGRAL: DESENVOLVIMENTO PLENO DO ALUNO
Melksedec participou de projeto que o levou para a Alemanha. No Integral, diz que não vê o tempo passar. Foto: Léo Malafaia/Esp. DP.
Melksedec participou de projeto que o levou para a Alemanha. No Integral, diz que não vê o tempo passar. Foto: Léo Malafaia/Esp. DP.
Melhorar o interesse do aluno pela permanência na escola é um dos desafios brasileiros e uma das apostas para mudar esse cenário é na ampliação do ensino integral. Até 2024, o Plano Nacional de Educação (PNE) prevê que o Brasil tenha, no mínimo, 50% das escolas públicas oferecendo educação em tempo integral, com capacidade para atender pelo menos 25% dos alunos da educação básica nessa modalidade. 

Atualmente, o tempo médio de jornada escolar brasileira é de quatro horas, menor do que a média de outros países, que é de seis horas. Aumentar a jornada é importante, porém, especialistas em educação concordam que não se pode aumentar o tempo do aluno na escola e continuar com o mesmo modelo educacional. É preciso usar o tempo maior para dar protagonismo ao jovem, desenvolvendo projetos diferenciados e tornando a escola mais atrativa.

É o que defende o gerente de projetos do Instituto Ayrton Senna, Helton Souto. “Entendemos a educação integral como o desenvolvimento pleno da criança e do adolescente. Para isso, é necessária uma série de fatores relacionados à gestão, formação dos professores, metodologia e organização do currículo. Tudo isso precisa estar voltado para o desenvolvimento pleno do estudante. Esse tipo de educação pode ser desenvolvidos em qualquer escola, seja no tempo parcial ou no integral. O tempo integral alarga o tempo de experiências pedagógicas, pois lidar com um espaço maior dá maior chance de ampliação e elaboração de práticas inovadoras”, afirma.

A professora de química Maeli Ramos acredita que laços com os alunos se estreitam. Foto: Léo Malafaia/Esp. DP.
A professora de química Maeli Ramos acredita que laços com os alunos se estreitam. Foto: Léo Malafaia/Esp. DP.
Aluno do Ginásio Pernambucano, o estudante do terceiro ano do ensino médio Melksedec da Silva, 17 anos, diz que não vê o tempo passar quando está na escola. A jornada em tempo integral não é sentida pelo aluno porque as atividades colocam o estudante no processo de escolha. “Desenvolvemos um projeto de vida do primeiro ao terceiro ano. Antes mesmo de as aulas começarem, quando ingressamos no colégio, somos recebidos por estudantes mais antigos, que nos explicam sobre protagonismo, autonomia e outras questões que são desenvolvidas ao longo do ensino médio”, conta. “De verdade, a escola é a nossa segunda casa. Passamos o dia inteiro aqui, então nossa relação com os professores se estreita e temos uma relação próxima com toda a equipe”, completa.

O tempo integral permitiu, por exemplo, que o estudante fizesse um curso de alemão no turno da tarde.  Desde 2009, o idioma faz parte da grade curricular de estudantes da Escola de Referência em Ensino Médio. A inclusão da língua no currículo é pioneira e resultado de uma parceria entre o Ministério das Relações Exteriores da Alemanha, Instituto Goethe, o Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico (DAAD) e o governo do estado, com apoio do Centro Cultural Brasil-Alemanha (CCBA). “Participei do curso e fui incentivado pela professora a me candidatar a uma vaga para viajar para a Alemanha. Ganhei uma bolsa para estudar em Frankfurt”, revela Melksedec.

Professora de química do GP há quatro anos, Maeli Ramos, enfatiza que o termo integral não se refere apenas ao tempo que alunos e docentes passam na escola, mas aos valores da instituição de ensino. “Temos uma preocupação forte com a formação cidadã dos estudantes. Preparamos nossas turmas não só para o presente, mas para o futuro, pensando não só no cognitivo, mas no emocional, nas relações que eles estabelecem. Como passamos o dia juntos, os laços se estreitam”, pontua.

Pernambuco é referência nacional
Ginásio Pernambucano é unidade de referência e comemorou pioneirismo em outubro deste ano. Foto: Léo Malafaia/Esp. DP.
Ginásio Pernambucano é unidade de referência e comemorou pioneirismo em outubro deste ano. Foto: Léo Malafaia/Esp. DP.
Catorze anos depois de implementar a política de escolas em tempo integral, Pernambuco está servindo como referencial para a expansão desse modelo de ensino para o Brasil. Hoje, o estado tem a maior rede estadual em tempo integral do país. Entre 2007, quando foi criada uma estratégia visando a ampliação dessa modalidade, e 2018, o número de Escolas de Referência em Ensino Médio saltou de 19 para 345. Enquanto a meta brasileira é até 2024 ampliar para 50% a quantidade de instituições com ensino integral, a pernambucana é chegar a até 70%. O objetivo é disponibilizar vagas suficientes para que todos aqueles que tenham interesse possam migrar.

O Ginásio Pernambucano, segunda escola pública mais antiga em operação no Brasil, foi a primeira escola da rede a ser transformada em unidade integral. Em 2002, um grupo de colegas empresários iniciaram o trabalho de recuperação do colégio que teve estudantes ilustres como Epitácio Pessoa, Ariano Suassuna, Clarice Lispector. A reforma do GP não se limitou ao prédio. Os empresários queriam recuperar também a qualidade do ensino público. O projeto de recuperação do prédio levou dois anos e meio e um investimento de R$ 3 milhões, numa parceria público-privada.

Em 2004, a escola abriu as portas para a primeira turma, que passaria a vivenciar uma educação integral em tempo integral. Quatro anos depois, o então governador do estado, Eduardo Campos, assinou a lei complementar 125, que criou o programa de Educação Integral na rede. A partir disso, Pernambuco começou a instituir como política pública o ensino médio integral e técnico, bem como a oferta sistemática de experiências inovadoras e o estímulo à inserção da tecnologia nas salas de aulas e tornar as escolas mais atrativas e, com isso, potencializar o aprendizado dos estudantes.

Desde então, o estado vem se destacando no cenário nacional com a quantidade de escolas em tempo integral que agrega. De acordo com o Ministério da Educação, Pernambuco concentra a maior rede de ensino médio integral do país. O estado dispõe de 388 escolas em tempo integral. Dessas, 345 são Escolas de Referência em Ensino Médio e 43 são Escolas Técnicas Estaduais.

METODOLOGIAS ATIVAS FAVORECEM APRENDIZAGEM

Enquanto na escola do século 20 o protagonista na sala de aula é o professor, no século 21, esse papel é do estudante. Colocado na posição central do processo de aprendizagem, o aluno participa ativamente da construção do conhecimento e não é visto como mero receptor de informações. Esse modelo em que a autonomia e a participação dos estudantes é priorizada é definido como metodologias ativas.

Fundador do projeto Escola do Futuro, da Universidade de São Paulo (USP), o filósofo e doutor em comunicação José Moran explica que metodologias de aprendizagem são todas as formas de motivar o aluno a aprender, seja sozinho, em grupo, com um especialista, em um espaço fechado ou aberto. “Hoje está muito mais claro que a escola tem que ser mais aberta, com o aluno participando mais e com metodologias ativas, onde ele pode fazer escolhas e não simplesmente obedecer a uma proposta fechada de currículo”, afirma.

Método de Aprendizagem Baseada em Problemas trabalha com pequenos grupos. Foto: Léo Malafaia/Esp. DP.
Método de Aprendizagem Baseada em Problemas trabalha com pequenos grupos. Foto: Léo Malafaia/Esp. DP.
Segundo o especialista, as metodologias ativas se caracterizam pela personalização, criação de itinerários e roteiros específicos que atendam às necessidades de cada aluno ou grupo de estudantes. “Antes, tínhamos uma escola que vinha pronta. Hoje, ela está em construção conjunta. As metodologias ativas criam estratégias para que o aluno participe, aprenda sozinho e com os outros, quando há um professor e não. O estudante aprende a aprender, mas não só isso. Ele aprende a fazer, a construir, a refletir a partir de práticas, aprende experimentando, pela experiência e pela reflexão”, enfatiza o pesquisador.

O modelo, adotado pela Faculdade Pernambucana de Saúde (FPS), já tem gerado resultados positivos. A instituição de ensino superior adota em todos os cursos o método pedagógico da Aprendizagem Baseada em Problemas (ABP), que se caracteriza por priorizar a aprendizagem significativa, colaborativa, baseada em problemas e trabalhada em pequenos grupos  - até 12 estudantes para um professor, chamado de tutor, que age como um facilitador do processo de aprendizagem. “Não temos aulas expositivas. Quando o grande grupo se encontra, abordamos temas transversais ou interprofissionais, como nas atividades de integração entre os cursos. Com este método, nosso estudante aprende a aprender conteúdos técnicos, a trabalhar e se relacionar em equipe, a resolver problemas na sua área profissional de atuação com ética, espírito crítico e retendo mais o conhecimento”, esclarece o coordenador acadêmico da FPS,  Gilliatt Falbo.

A aprendizagem baseada em problemas, internacionalmente conhecida como Project Based Learning (PBL), tem o objetivo de fazer com que os estudantes aprendam por meio da resolução colaborativa de desafios. São explorados desafios dentro de um contexto especifico de aprendizado, que pode utilizar a tecnologia ou não, contanto que a atividade os incentive a investigar, refletir, desenvolver senso crítico e solucionar questões. “A nossa preocupação é preparar nossos alunos para um futuro de 30, 40 anos ou mais de atuação na vida profissional que eles terão pela frente. Um docente tem o dever, como pressuposto ético, pensar como seus jovens estudantes desempenharão suas profissões no futuro, pois sem isso estarão mais atrapalhando que ajudando”, diz Gilliatt Falbo. 

José Moran destaca que a metodologia deve estar sempre acompanhada de um objetivo claro e ser situada no cotidiano do aluno. “O aluno aprende muito junto com o outro. É uma aprendizagem situada, que faz sentido. Não só para o futuro, isto é, não é apenas um conhecimento que ele só vai usar quando for adulto. Ele vê que já pode realizar experimentos, desenvolver projetos, escrever e contar histórias, ou seja, ele exercita diversas possibilidades. É diferente dos modelos antigos, onde ele só acumulava informações que seriam aplicadas apenas numa profissão”, explica.

"A ESCOLA TEM QUE ENSINAR A PENSAR"

 (FGV/Divulgação.)
A educação brasileira precisa ser repensada para atingir as metas do século 21. Para isso, é preciso formar professores, oferecer espaços mais acolhedores, discutir e implementar mudanças nos currículos e ensinar os alunos a pensarem e a agirem com autonomia. As afirmações são da diretora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais (Ceipe) da Fundação Getúlio Vargas (FGV), um dos principais nomes do setor no país. Com experiências na gestão pública, tendo sido secretária de Educação do município do Rio de Janeiro e de Cultura no estado de São Paulo, ela mapeia experiências de excelência em educação. Em entrevista ao
Diario, Claudia Costin falou sobre os retrocessos, avanços e o futuro do Brasil.

Há uma preocupação atual em relação à educação relacionada ao futuro do mercado de trabalho. Como essa questão tem sido vista? 
No ano passado, a OIT (Organização Internacional do Trabalho) criou uma Comissão Global sobre o Futuro do Trabalho (o grupo, liderado pela presidente das Ilhas Maurícios, Ameenah Gurib-Fakim, e o primeiro-ministro da Suécia, Stefan Löfven, tem 28 integrantes, sendo Claudia a única brasileira e a única da área de educação). O objetivo é analisar o impacto de mudanças estruturais sobre o mercado de trabalho. São mudanças na área tecnológica; na área demográfica, com alguns países tendo um maior número de jovens e outros com aumento no número de idosos, e a própria globalização. Minha função no grupo é justamente sobre como educar para esse futuro. A revolução industrial (nos séculos 18, 19 e 20) trouxe a substituição do trabalho manual pelas máquinas. Agora, no século 21, a substituição tem sido não só do trabalho manual, mas também da inteligência, através da inteligência artificial. Precisamos preparar as novas gerações para as demandas e competências desse novo tempo. A previsão é de que, até 2030, um terço dos postos de trabalho não existam mais. No entanto, não só serão extintas profissões existentes, mas outras serão criadas.  

Quais são, então, as novas competências necessárias para esse futuro?
Não temos certeza em relação a essas novas competências. O futuro tem um quê de incerteza, mas alguns aspectos já podemos perceber como muito importantes, e as escolas já podem ensiná-los. É importante ter em mente que a extinção (de postos de trabalho) será em ondas. Não será de uma vez. Então, uma competência que pode ser ensinada é a capacidade de se reinventar várias vezes, pois será uma habilidade necessária diante dessas estimativas. A escola, nesse sentido, deve ensinar o aluno a aprender. Outra competência fundamental está relacionada à resolução colaborativa de problemas. As máquinas ainda não conseguem identificar problemas sistêmicos, relacionados à sociedade, por exemplo. Aprender a resolver problemas com pessoas de diferentes áreas, então, será uma competência unicamente humana. Máquinas aprendem com o humano, mas não de forma colaborativa para resolver problemas, que é a capacidade para se envolver em um processo em que dois ou mais agentes tentam resolver um problema, partilhando a compreensão e o esforço necessários para chegar a uma solução, reunindo conhecimentos, competências e esforços. Essa competência é tão importante que o Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes, principal avaliação internacional de educação, com propósito de avaliar o desempenho escolar de diversos países em três quesitos principais: matemática, ciências e leitura) de 2015 avaliou a Resolução Colaborativa de Problemas (RCP), considerando o que a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) a definiu como uma competência necessária em contextos de educação e trabalho. Nesse quesito, o Brasil ficou em último lugar entre 44 países. Isso significa que precisamos trabalhar essa questão. 

Existem outras competências em que as máquinas não poderão substituir os humanos?
Sim, a empatia é outro exemplo. As máquinas não têm essa competência. As competências que temos que desenvolver são as que nos tornam humanos, isto é, as características humanas, como o pensamento crítico, que a máquina não tem condições de ter, e o pensamento sistêmico, ou seja, ser capaz de relacionar aspectos menores a um contexto maior. Uma competência relevante para o futuro é a capacidade de navegar em culturas diferentes, isto é, a agilidade cultural. Saber entender as diferentes normas culturais e interagir com elas, entendendo o que uma pessoa quer dizer com determinadas expressões faciais ou frases inseridas em diferentes sentidos também será uma aptidão importante.

Como essas mudanças devem ser entendidas?
As pessoas vão ter que ficar constantemente mudando e aprendendo. As universidades terão, portanto, que adquirir outras tarefas, como ter mais cursos curtos para reciclar os seus egressos e também ter um ecossistema educacional, onde escolas e universidades terão mais cursos semipresenciais (parte presencial, parte a distância). Outra questão importante nesse cenário será a certificação de conhecimentos se que adquire no mundo do trabalho ou no ensino médio para não repetir o conhecimento. Hoje, por exemplo, muitos alunos precisam voltar a ver no ensino superior questões que já aprenderam em um curso técnico. Seja em situações formais, como num curso profissionalizante, seja na prática, como no mercado de trabalho, será preciso certificar as pessoas em relação às competências que elas já têm para que não precisem passar pela mesma formação mais de uma vez. 

Qual é o raio x do Brasil nesse sentido?
Somos um país que universalizou o acesso aos ensinos fundamental 1 e 2 muito tardiamente. Isso impacta não só em questão de direitos, mas também na escolaridade dos filhos dos que tiveram pouco tempo na escola. Estudos mostram que 68% do sucesso escolar de uma criança depende da escolaridade dos país. Se os pais tiveram pouca escolaridade, os filhos terão mais dificuldades para estudar. Estamos avançando mais no acesso ao ensino médio, que ainda não é universalizado no país. A pré-escola também está no caminho da universalização, com quase 95% de taxa. A universalização indica que a criança ou o adolescente ou o jovem está na escola, mas não significa que ele está aprendendo. Estamos entre os dez países com o maior PIB, mas ocupamos posições entre os últimos no Pisa. Tem algo de muito errado na nossa educação.



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