O inesperado presente de Edivaldo Guarda é chamado para levar vizinha grávida ao hospital e acaba ajudando com o parto A dona de casa Ilka Fernandes Barbosa, 29 anos, vizinha do guarda, tem outros cinco filhos e o marido está desempregado

Por: Marcionila Teixeira

Publicado em: 23/10/2018 07:04 Atualizado em: 24/10/2018 06:57

O guarda Edivaldo (de farda), Ilka e o marido felizes com a chegada do bebê. Imagem: Gabriel Melo/Esp DP
O guarda Edivaldo (de farda), Ilka e o marido felizes com a chegada do bebê. Imagem: Gabriel Melo/Esp DP
O dia começava como outro qualquer para Edivaldo Vera Cruz Júnior, 34 anos, guarda municipal do Recife. Por volta da cinco horas da manhã de ontem, quando já estava de pé para dar conta da rotina, recebeu um pedido de socorro inusitado. Uma moradora de uma rua próxima estava em trabalho de parto e precisava de alguém com um carro para levá-la com urgência a uma maternidade. Àquela altura, Edivaldo não sabia, mas teria papel fundamental no nascimento do bebê.

O guarda municipal, que estava de folga, pegou o carro dele, um Gol, e partiu para a casa da gestante, na Rua Montese, 16, em Chão de Estrelas, no Recife. Ao chegar no endereço, encontrou a dona de casa Ilka Fernandes Barbosa, 29 anos, na frente de casa e com a criança prestes a nascer. “Quando ela botou o pé na rua, o bebê começou a sair. O pai segurou a criança para ela não cair. O problema é que o cordão umbilical estava enrolado no pescoço da menina. Então eu tinha duas situações para resolver: a criança podia cair no chão ou morrer enforcada”, pensou.

Edivaldo, então, pediu uma tesoura para cortar o cordão umbilical e logo depois pediu um barbante para amarrar o mesmo. Ele temia uma hemorragia. “Acho que me trouxeram uma tesoura de unha. Foi difícil de cortar, mas fiz. Depois não sei de onde surgiu o barbante”, contou. Enquanto isso, o marido de Ilka, o desempregado Demerval das Neves Silva, 39, segurava o bebê.

Tudo aconteceu muito rápido e o casal foi levado pelo guarda municipal, enfim, para o Centro Integrado de Saúde Amaury de Medeiros (Cisam), na Encruzilhada. Ilka chorou de alegria. Para Demerval, se Edivaldo não tivesse ajudado, ele acha que a criança morreria. “Eu não saberia fazer nada daquilo”, disse.
Ajudar no parto foi como ganhar um presente de aniversário, comemorado por Edivaldo no dia anterior. “Eu ainda estava no clima de aniversário. Ajudar uma pessoa desesperada, em situação complicada, e ajudar a salvar uma vida é um grande presente”, considerou. Edivaldo disse que acompanhou o nascimento da única filha, o que lhe ajudou a proceder no parto de Ilka. Além disso, contou com aulas de primeiros socorros como profissional da guarda.

Comovido com a situação financeira da família de Ilka e Demerval, que juntos têm seis filhos, Edivaldo iniciou uma campanha para ajudar o casal e as crianças com 12, 10, 8, 4 e agora a recém-nascida. A mais velha, com 15 anos, não vive com os pais. “Eles precisam muito de alimento não perecível e de coisas para a recém-nascida. Estão desempregados”, pediu o guarda. Na próxima sexta-feira, Edivaldo pretende fazer uma grande surpresa para a família e entregar os donativos. Quem quiser ajudar, pode ligar para o guarda, no número 98829.3861.

No dia anterior, outro caso de uma gestante que terminou tendo o filho em casa porque não houve tempo hábil para levar a mulher ao hospital. O caso aconteceu no bairro de Santo Aleixo, em Jaboatão dos Guararapes, e desta vez quem ajudou foram dois policiais do 25º Batalhão da Polícia Militar, o sargento Nerivalter e os soldados W. Fernando e Silva, chegaram a acionar o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), mas a criança nasceu antes da equipe de saúde chegar.

Um outro episódio parecido aconteceu em setembro. Desta vez, o parto aconteceu dentro de um ônibus que fazia a linha Brasília Teimosa/Conde da Boa Vista. A gestante tinha saído de casa, em Brasília Teimosa, para comprar objetos para o bebê, mas começou a sentir dores no veículo. Ao flagrar a cena, o motorista parou o coletivo na frente do Hospital da Restauração para que a mulher fosse atendida com o bebê. De lá, mãe e filho foram encaminhados para a Maternidade Bandeira Filho, em Afogados.

A enfermeira Paula Viana, coordenadora da ONG Curumim, faz um alerta: esse tipo de parto revela a precariedade do sistema público de saúde no atendimento à gestante. “Vivemos um grande caos. Não está havendo educação para a saúde. O pré-natal é o momento de dar informação à família e isso não está acontecendo como deveria. Está tudo muito desorganizado na assistência obstétrica. Os municípios também não investem nesse serviço e colocam as mulheres em uma ambulância para mandar para o Recife”, criticou.

A especialista lembra, também, que todo profissional de segurança deve ter preparo para esse tipo de atendimento. Outro ponto importante é evitar o corte do cordão umbilical da criança ainda na rua. Isso somente deve ser feito na maternidade, assim como a retirada da placenta. “Quando o cordão  umbilical está batendo, ele não deve ser cortado porque indica que o bebê ainda não está respirando sozinho e ainda recebe sangue da mãe. Isso dura cerca de três minutos.”

De acordo com Paula, se o bebê nasceu e tem o cordão enrolado no pescoço, ele não corre risco de morrer enforcado. Basta desenrolar o mesmo e deixar para cortar o vínculo no posto de saúde com material esterelizado. O importante nessas horas, diz Paula, é aquecer a criança. “É possível colocar a criança dentro de um saco, com a cabeça para fora, e aquecer com um pano até chegar à maternidade”, explicou. 

Segundo Paula Viana, no ano passado, Recife registrou 16 mortes maternas. Este ano, até setembro, o número já alcançou o mesmo patamar, o que mostra o agravamento da situação. “As mulheres voltaram a peregrinar atrás de vagas”, alertou.


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