100 anos Rádio Clube Nem speacker, nem falador; locutor Abílio de Castro fez história com as primeiras locuções de rádio do Brasil em 1926; neste ano, passou a dividir o tempo entre liceus do Recife e a Rádio Clube

Por: Silvia Bessa

Publicado em: 22/10/2018 07:53 Atualizado em: 22/10/2018 07:59

Prédio histórico que abrigou a PRA8, a Rádio Clube, a Pioneira, fundada em abril de 1919. Foto: Reprodução/Internet
Prédio histórico que abrigou a PRA8, a Rádio Clube, a Pioneira, fundada em abril de 1919. Foto: Reprodução/Internet

Abílio de Castro foi um dos pioneiros da Rádio Clube de Pernambuco e um dos idealistas do rádio no Brasil. Era professor de Português em escolas do Recife quando se encantou pelo rádio, à época em que o microfone era feito de lata de doce Peixe. A Clube foi fundada em 1919; Abílio começou a fazer parte dela em 1926. Tornou-se o primeiro locutor do país e, durante todo o período em que trabalhou na emissora, exerceu a função de locutor-chefe. Ficou conhecido pela rigidez nas contratações. Lia artigos do Diario de Pernambuco, previsão do tempo e até comerciais de farmácias - conta o historiador do rádio e professor Luiz Maranhão Filho. Antes de morrer, Abílio (1901-1989) concedeu uma entrevista exclusiva ao professor Luiz Maranhão. O depoimento é uma relíquia: está gravado em áudio e vídeo, pertence à coleção Memória, da TV Universitária e da Universidade Federal, e compõe o acervo do Instituto Histórico de Olinda. Abaixo, parte dele é transcrito como importante registro para a memória da Rádio Clube:
 
DEPOIMENTO 
Abílio de Castro // Primeiro locutor do Brasil, em entrevista a Luiz Maranhão Filho

Foto: Paulo Paiva/DP/Reprodução
Foto: Paulo Paiva/DP/Reprodução

 
“Em qualquer lugar que eu estivesse, ouvia a Rádio Clube” 
 
MICROFONE DE LATA 
“Em 1925, eu era professor do Ginásio do Recife, onde estudava o pianista Elísio Azevedo. Era pianista do Rádio Clube. E Elísio então me convidou a visitar a Rádio Clube porque estavam precisando de locutor e iam fazer um concurso. Nunca tinha ouvido falar naquilo. Aí ele me apresentou a Oscar Pinto e Oscar perguntou se eu sabia ler. Mais ou menos, não é? Dá para o gasto. Eu era professor em vários colégios aqui do Recife. ‘Bom, então você se inscreve e no dia 16 de setembro você vem fazer o concurso’. Éramos 18 candidatos e passamos de setembro a novembro fazendo esse concurso. Era 15 de novembro, terminamos o concurso. A comissão julgadora era o público ouvinte. O candidato não tinha nome; só tinha número. No dia 16 de fevereiro de 1926 eu entrei na Rádio Clube de Pernambuco como locutor oficial, sendo o primeiro locutor do Brasil. A estação era uma coisa muito precária. Nós tínhamos como microfone uma lata de doce Peixe. Foi Oscarzinho Dubeux quem fez isso. Fez lá com uns carvões, etc. Nós ficávamos numa distância de 5 metros do microfone porque era estridente demais.” 

SEM DINHEIRO
“A estação funcionava três vezes por semana com orquestra. Segundas, quartas e sextas, das 6h às 10h da noite, uma orquestrazinha de 6 figuras. Aos domingos, Chico, que era nosso servente, metia a mão na vitrola, dava corda, metia o disco na vitrola e anunciava: vamos ter disco. E botava o disco. Não sabia o que vinha porque era analfabeto. Apesar de ser uma ótima criatura. Quando terminava a irradiação, ele dizia: ‘Bom, terminou-se a radiação. Boa noite e amanhã temos mais e mió’. E assim terminava. E assim foi o ano de 1926. Em 28 a coisa foi piorando. Apelamos para tudo. Pusemos alto falantes no Parque 13 de Maio para o público, pusemos no Palácio do Governo para os pronunciamentos do governador...”

LOCUTAGEM
“Em 1934, há tempo que eu vinha zangado com esse termo speacker. Eu vinha encabulado com ele porque, como estudioso da língua portuguesa, abominava qualquer estrangeirismo. O único que eu admitia era o latim porque não o considerava estrangeirismo, como não é. É nossa língua mãe. De modo que eu escrevi para alguns colegas da Argentina pedindo que nos programas da América Latina eles empregassem o termo locutor e não speaker. Era uma palavra latina, uma palavra de origem latina, de locur, locus, locutur, loque - de maneira que daí vinha - locutus, locutoris, locutor, quer dizer, aquele que fala, que pronuncia, que se faz compreender. E a Holanda, depois do Rádio Clube, foi a primeira que admitiu o termo locutor. Aqui no Brasil foi onde mais se resistiu. Não quiseram aceitar. Aqui meu caro amigo Mário Melo, do Jornal Pequeno, veio com uma ironiazinha, dizendo que não havia razão para ser locutor e sim falador. Na porta do Telégrafo, na Avenida Rio Branco, Mário Sette diz: ‘Olha, Abílio, Mário Melo está dizendo que você é falador, não locutor’. Falador é ele que fala da vida alheia, fala de tudo e de todos’. Mário Sette e Heitor de Andrade Lima dizem: ‘Não, você tem toda a razão’. Analogicamente, eu admiti o termo locutagem. Locutor é o que fala, locutagem é o serviço em si.”

RIGIDEZ
“Achavam-se muito exigente na admissão de locutores, porque eu fui locutor-chefe durante todo o tempo em que lá estive. Não era. Eu exigia o conhecimento de latim, de francês, de inglês, de alemão, de espanhol, de italiano. Não é que o sujeito fosse poliglota, não, mas é que tínhamos músicas em todos esses idiomas e era preciso anunciar nesses idiomas. De maneira que, se por acaso o indivíduo não conhecia nada de francês, por exemplo, e vinha um título de francês, como é que ele ia fazer? Ia fazer como fez um colega nosso. Veio um título de música. Então ele disse: os bois de Bolonha. Ora, Les Bois de Bologne, os bosques de Bolonha. Por isso que eu exigia que tivesse conhecimentos gerais de idiomas. Quando conseguiam passar nos idiomas, se esborravam no improviso. Por que? Não sabiam falar. É tanto que de 174 que compareceram uma ocasião, eu aproveitei um. Eram indivíduos com língua amarrada, outros fanhosos. Não davam para ser locutor.”

DEVOÇÃO
“Quando eu estava em casa, era sempre ligado na Rádio Clube, em qualquer lugar que eu estivesse. E somente um disco atrás do outro. Não havia anúncio, não havia nada (...)  O Recife daquela época era saboroso. Não tinha arranha-céus, não tinha esse movimento todo. Você podia estacionar seu carro em qualquer lugar, podia deixa o seu carro, à noite inteira aberto à porta de sua residência. (...) Mas devo me referir ao Recife moderno daquela época. Os bondes mais modernos do Brasil eram os daqui do Recife. Tinham hora certa. Eu, por exemplo, morando em Casa Amarela, saía da Rádio Clube às 12h em ponto, chegava no 13 de Maio às 12h05 (...) Das exigências de Oscar Pinto, tinh uma: o locutor não podia nem tirar o paletó no estúdio. Antônio Maria era um colega nosso e nas férias foi para o Rio e encontrou essa moda de camisa slack, esportiva. Quando voltou, trouxe uma camisa esportiva e foi entrando no estúdio assim. Eu disse: ‘Olha, rapaz, acaba com isso, vai botar uma camisa social, gravata e paletó’. Oscar disse: ‘É, vá vestir-se. No meu estúdio, só entra de gravata e paletó’. Antônio Maria voltou para casa foi pegar a gravatinha, a camisinha, o paletozinho e voltou para trabalhar (...) 

Esta matéria faz parte de uma série de reportagens publicadas todas as segundas-feiras no Diario de Pernambuco, em homenagem aos 100 anos da Rádio Clube 


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