100 anos Rádio Clube Carmem Towar, a diva: "Ainda sonho com o rádio" Em depoimento exclusivo, a radialista Carmem Towar, que fez carreira na Rádio Clube, revela a sua trajetória até o estrelato

Por: Silvia Bessa

Publicado em: 15/10/2018 07:48 Atualizado em:

Ícone revelado na década de 1950, com apenas 13 anos, Carmem já fez de tudo no rádio; aos 79 anos, continua apaixonada pelo veículo. Foto: Gabriel Melo/Esp. DP
Ícone revelado na década de 1950, com apenas 13 anos, Carmem já fez de tudo no rádio; aos 79 anos, continua apaixonada pelo veículo. Foto: Gabriel Melo/Esp. DP
1º CAPÍTULO 
“Esta história tem um ‘Era uma vez…’
O desejo de descobrir como aquela caixa falava quando ligava o botão, acendendo uma luz verde chamada olho mágico, é a minha primeira lembrança do rádio. Fiquei encantada e curiosa em descobrir como a voz era a mesma voz que eu ouvia na caixa. Na minha casa, ouvíamos o rádio por um Philips Holandês, que, quando quebrava o cordãozinho, meu tio tinha de vir de João Pessoa para consertar. Naquela época, só tinha a Rádio Clube, não tinha outra emissora. 

Lembro das lágrimas de mamãe Dolores na novela O direito de nascer e - na Rádio Clube, Os que não devem nascer, Mistérios do Além e a Novela religiosa. São lembranças que o tempo não apaga. Em um 9 de agosto de um ano, que não vai muito longe (acho que no século passado), nasci. Foi no Brasil, um país que tem tudo para dar certo e não acerta nunca. No início dos anos de 1950, comecei a correr atrás do meu sonho.”

2º CAPÍTULO
“Era uma menina. Eu saí do colégio e fui na Rádio Clube sozinha. Era totalmente desconhecida. Ninguém olhou para mim. Tinha cabelo grande, franja. Era abestalhada. Aí entrou uma atriz, que depois eu vim saber ter o nome de Carmem e que usava Ada Neusa artisticamente, e eu perguntei: ‘Como é que a gente faz para falar com o diretor?’ O atendente respondeu: ‘Aquela moça fez testes e não passou’. Eu fiquei calada e, no outro dia após a ginástica, eu fui lá de novo. Fui atendida. Eu era tímida e comecei a suar. Depois, Abílio de Castro fez um teste de verdade. Não era contratada; era um cachê.

Eu fiz em 1952 teste para locutora de palco com René Almeida. O programa era Cartazes de amanhã, sempre aos sábados. Aos domingos, era locutora comercial do programa Miscelândia sonora. José Edson, o apresentador, me anunciava como a mais jovem locutora do Brasil, com exagero. Eu tinha 13 anos.

Apresentava o jornal falado das 7h45 nas férias, pois estudava no horário da manhã. Apresentava com Jorge Rodrigues. Comecei a fazer novela e ensaiava a novela religiosa. O J. Austragésilo era professor e dava aula na hora da novela. Pediu que eu ensaiasse. Os meninos eram: Emanuel Rezende, Gino César, Adaura Barreto, Zita Moreira, Giovani Siqueira. Meu contrato foi até 1955.”

3º CAPÍTULO 
“Minha mãe sabia que eu estava na rádio. Meu pai, se soubesse, era uma surra de matar. Mamãe era uma pessoa que não teve abertura, mas se tivesse dado condição para ela, seria outra figura. Ela foi reprimida, tinha uma criação miserável. Ela só dizia a mim: “Não chegue tarde”. Mamãe, quando podia, me levava e, quando eu viajava para show no interior, ia comigo. Papai soube que eu trabalhava na rádio um ano e meio depois. Me deu uma surra que fiquei cortada com fivela de cinturão. Reclamava por causa da minha nota de comportamento, que foi oito e pouco, mas sei que não me bateu por isso. Fui para a escola de manga longa. Foi quando papai disse: ‘Vou me mudar para a Usina Nossa Senhora do Carmo’. Eu disse ‘não vou’. Fiquei na casa de minha tia de João Pessoa. Fui e fiquei na Rádio Tabajara. Era o maior salário de lá. Eu tinha uns 15 ou 16 anos. Passei só nove meses, voltei para a Tamandaré, que era colada e que depois se associou à Rádio Clube.

Voltei da Paraíba e comecei a participar do programa Tarde Sertaneja, que permaneceu oito anos no ar. No programa Tarde Sertaneja eu era a Maria Filó, locutora-chefe de uma rádio, a PR Municipá Antena de ouro, a que num mareia. Eu era chamada Mocotó de Ouro por todo mundo porque tinha as pernas bonitas. Quer dizer: diziam, mas eu não achava nada bonito. Emanuel Rezende, que também fazia Tarde sertaneja, na década de 50, dizia ‘- Chama mocotó aí’. Fiquei chateada. Me disseram para eu não me incomodar, mudar de assunto para o apelido não pegar. Mas pegou. Rezende fez uma logomarca com um M e uma roda, um C e uma roda e T e uma roda e colocava no script para brincar comigo. Agora eu olho na foto antiga e acho minhas pernas bonitas.

Em tempo: em 1954, depois do Miscelândia Sonora, apresentava um programa para crianças, o Divertimentos Ping Pong. Nesse tempo não tinha Xuxa. Não tinha nada. Eu apresentava os meninos, eu trazia pastoril, gente das escolas. Vez por outra, falava com pessoa que tinha poder para ajudar às escolas. Gostei demais de fazer esse programa.”

4º CAPÍTULO
“Foram muitas novelas das 18h e no horário das 10h. Entre tantas apresentadas, uma me marcou muito: Chamas que não se apagam. Duas espiãs, Cris Sheridan, que era Rosa Maria, e Tokito, eu (Carmem Towar). Na segunda guerra mundial, as personagens viviam os horrores do ataque a Pearl-Harbor. As últimas novelas da PRA-8 eu e José Mário Austragésilo vivemos os papéis principais. Ele era o galã e eu a mocinha. A penúltima novela foi 16h30 foi Cristal e eu fiz o papel-título. A das 14h45 era Enquanto o sono não chega. Esta foi a última. Eu fazia o papel de uma mulher relaxada, que não tomava conta da casa, que deixava a alça da combinação aparecendo. Quer dizer, foi um inferno a vida do personagem porque ela queria mudar de vida. Quando eu andava nas ruas, as pessoas me reconheciam pela voz. O gerente da padaria que sabia quem eu era ou me ouvia dizia para alguém e quando a gente via começavam os autógrafos. Gastava-se uma nota tirando fotografia na Foto Boa Vista para dar. Tirava com Guiomar, na Rua da Concórdia; ela inclusive tinha foto minha com pernas de fora. Eu era e sou vaidosa. Era tão vaidosa que o cabelos dos dois lados tinham que ficar na mesma altura. Hoje, as pessoas perguntam como eu colo minhas unhas. Não entendo. São verdadeiras. Amava cantar, até gravei disco, mas deixei de tocar violão porque, cortar as unhas? Nem morta. Passei 17 anos apresentando o Miss Pernambuco e foi uma das coisas que mais gostei de fazer. Tinha de ter reputação moral e ilibada. A Rádio Clube retransmitia. Do que eu tenho saudade? De tudo.”

5º CAPÍTULO
“A rádio mudou, eu cresci e ele ficou pequeno, mesmo agora na Era Digital, e eu continuo sonhando com o rádio. Meu sonho não acabou!”

CAPÍTULO EXTRA
O depoimento acima é de Carmem Towar, uma diva do rádio brasileiro. Locutora, radioatriz, produtora, cantora, apresentadora de programas da Rádio Clube, onde atuou de 1952 até 1986. Fez escola na Rádio e TV Clube. Hoje, com 79 anos, é história viva da Era de Ouro da Clube, que completa 100 anos em abril de 2019.

Esta reportagem faz parte de uma série publicada todas as segundas-feiras em homenagem ao centenário da Rádio Clube



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