100 anos Rádio Clube A história de amor do Menino de ouro Passado do garoto Antônio Alfredo, declamador de poesias e ícone da Rádio Clube nas décadas de 1930 e 1940, está guardado com a viúva, dona Cacilda

Por: Silvia Bessa

Publicado em: 01/10/2018 09:05 Atualizado em: 01/10/2018 10:02

Imagem: Marina Curcio/Esp DP
Imagem: Marina Curcio/Esp DP

Dona Cacilda, então, bateu o pé e deu um ultimato ao namorado, com quem começou a namorar aos 14 anos: “Só fico noiva quando você deixar a Rádio Clube”. Ele não pensou duas vezes. Abandonou o hobby, iniciado aos 4 anos de idade quando usava calça curtas e boina. Passou a limitar suas apresentações a festas em clubes sociais de Pernambuco. “Eu tinha ciúmes, sim. Claro. Ele recebia muitas cartas de fãs. Já estava fazendo também radioteatro. Pegava as cartas na minha frente e tum, tum [faz barulho imitando um papel ao esfregar as mãos], rasgava. Eu disse: ‘não’. Quero nada. E quando eu não estou por perto? Será que ele gosta?”, contou dona Cacilda esta semana sobre os seus pensamentos à época, início da década de 1940. O casal ficou quarenta anos junto, até a morte prematura do amado, aos 68 anos. 

Dona Cacilda Menezes, 88 anos, é a viúva de Antônio Alfredo, aquele que recebeu o apelido de “menino de ouro” da PRA-8, a pioneira, numa época em que o rádio era o único meio de comunicação eletrônico e era luxo de uma minoria. Tratava-se de um ícone da época, famoso nos jornais pela sua grande habilidade em declamar poesias e impressionar ouvintes da emissora. 

“Antônio Alfredo era um homem que não cresceu muito, ainda que não fosse baixo, mas que impressionava pela dicção e vozerão”, diz a mulher de Antônio Alfredo. “Orgulho? Claro que tinha orgulho. Eu admirava muito ele como ouvinte da rádio. Eu era pequena e pensava: “Queria declamar como esse menino. Nunca consegui”. Dona Cacilda conta que chegou a ser levada pela mãe para concursos de recitadores na Rádio Clube, mas não ganhou o prêmio principal. Desistiu da ideia. “De toda forma, sou capaz de declamar se vocês quiserem”, sugeriu ela, com boa memória, superando a idade avançada. “Prefere um normal ou de Natal?”, perguntou, esnobando disposição. Dona Cacilda Menezes se levanta, alinha a coluna, levanta a cabeça e declama o poema das bonecas, de autoria desconhecida. 

FOLHAS AMARELADAS
Hoje ela é a guardiã de relíquias do passado artístico do marido, homem que é parte da história da Rádio Clube, que completará 100 anos em abril de 2019. Primeiro foi a mãe do pequeno Antônio Alfredo, dona Cora Oliveira Lima de Menezes, quem começou o livro de registros e recortes. Guardava tudo, incluindo fotos presenteadas por atrizes visitantes e admiradoras do astro mirim pernambucano. No álbum, estão as peripécias do único filho e das seis filhas atrizes que brilhavam na Rádio Clube - numa primeira fase em programas infantis; numa segunda fase, em atrações voltadas para o público juvenil. Eram elas: Maria Coríntia, Dora, Maria Neuza, Arlete, Dulce e Gacinha. Com a morte de dona Cora, a viúva Cacilda assumiu a responsabilidade. No livro de memórias, está lá ela, no ano de 2000, justificando-se ao declarar do próprio punho que a partir de então se tornaria a guardiã do passado.

Imagem: Marina Curcio/Esp DP
Imagem: Marina Curcio/Esp DP

“Antônio Alfredo é o menino de ouro da PRA-8. Quem deu o título foi Nelson Ferreira. Antônio alfredo não canta. Só o que sabe fazer é recitar. Com 8 anos sabe dizer muito bem o que os poetas escreveram. E com que jeito! E que pose quando faz uma porção de mesuras e recita Arco-íris, de Olegariano Marianno (1889-1958)”, descrevia com detalhes um dos recortes com a foto do menininho Antônio Alfredo. Nos versos de Olegariano, via-se a leveza infantil: “”Choveu tanto esta tarde que as árvores estão pingando de contentes/ As crianças pobres, em grande alarde, molham os pés nas poças reluzentes”// (...), para então, finalizar “Chuva com sol//Casa a raposa com o rouxinol”.

Saudades
O jornal informava: “Antônio Alfredo aos domingos toma parte da meia hora infantil. Já conta com uma porção de admiradores. E é por isso que Nelson Ferreira o chamou de “Menino de ouro”. Até hoje é citado pelo nome composto. Vários eram os elogios e fotos.

Quando ele e as atrações infantis deixaram de ter espaço na programação do rádio, o público sentiu. Em um dos recortes, o texto dizia: “A gente lembra com saudade enorme dos artistas pequenos - simples, espontâneos, engraçadinhos até mesmo em suas atrapalhações diante do microphone”.

Desafinado 
À dona Cacilda e aos filhos Antônio Alfredo dizia que era “desafinado até para dizer bom dia”. Ela ri até hoje do comentário dele. Em eventos da família, não declamava. Só quando era convidado para tal apresentação. Formado como bacharel de Direito, ele trabalhava como assessor jurídico da Secretaria de Saúde, mas a veia artística permanecia pulsante. Antônio foi convidado a atuar como diretor social do Clube Náutico.  Aceitou o desafio e priorizava festas infantis e de família. “Nossos filhos foram criados nesse meio e ele organizava tudo”, conta ela. 

Por causa desta passagem, dona Cacilda se mantém como ouvinte do rádio que permeia a história dela de vida. Leitora do jornal ainda hoje, ela guarda os dias das partidas dos campeonatos de futebol para sacar o rádio e ouvir a narração, enquanto espera o gol. Do Náutico, passou a agitar os eventos do Clube Português e depois viu o marido se transformar diretor social do Clube Alemão, onde ganhou homenagem de amigos com o seu nome em uma obra de requalificação do estacionamento. “Estávamos sempre juntos”. É uma história de poesia a de Antônio Alfredo, o “menino de ouro” da PRA-8, e de dona Cacilda. Com filhos, netos e bisnetos, tendo o rádio como testemunha.

Esta reportagem faz parte de uma série em homenagem aos 100 anos da Rádio Clube
 


Os comentários abaixo não representam a opinião do jornal Diario de Pernambuco; a responsabilidade é do autor da mensagem.