Saúde Laserterapia cura a dor de crianças em tratamento contra o câncer Alguns tratamentos oncológicos infantis geram feridas na boca que podem retardar a cura. Odontologia ajuda a evitar que isso aconteça.

Por: Alice de Souza - Diario de Pernambuco

Por: Ana Paula Neiva - Diário de Pernambuco

Publicado em: 29/09/2018 13:00 Atualizado em: 28/09/2018 20:34

Tratamento com laser cura as feridas provocadas pela mucosite e evita sofrimento de crianças. Camila Pifano/Esp. DP (Camila Pifano/Esp. DP)
Tratamento com laser cura as feridas provocadas pela mucosite e evita sofrimento de crianças. Camila Pifano/Esp. DP

Os brinquedos encostados na prateleira do leito colorem o ambiente hospitalar. Deitada na cama abaixo, sem pode pegar a boneca nem o kit de maquiagem rosa e roxo, Mickaelen Florêncio segura uma tiara de pelúcia com duas orelhas de coelho. Eles são os acompanhantes da rotina exaustiva do tratamento da Leucemia Linfóide Aguda (LLA). A menina de 4 anos, natural de Caruaru, no Agreste do estado, batalha há seis meses contra a doença e enfrenta muitos desafios. A perda do cabelo é a mais visível, mas não a mais cruel. Os ferimentos na boca, em consequência da medicação usada na quimioterapia, deixam Mickaelen debilitada, sem condições de se alimentar direito e abrindo portas para as infecções.

As drogas usadas nesse tratamento contra o câncer atingem as mucosas do corpo, sendo a região da boca uma das mais afetadas. Cerca de 40% das pessoas que se submetem aos quimioterápicos desenvolvem a mucosite oral, uma inflamação na parte interna da boca e da garganta que provoca úlceras dolorosas e feridas. “Existem quatro graus de mucosite. Nos mais severos, o paciente fica impossibilitado de comer, beber água, pode precisar de sonda para se alimentar. Interfere até na fala. E se o paciente não consegue se alimentar, fica mais debilitado e não se recupera para o próximo ciclo da quimioterapia”, explica a coordenadora da residência de odontologia hospitalar do Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (Imip), Fabiana Motta.

“A mucosa da boca já é uma região traumatizada pela fala, respiração e deglutição. Os alimentos acabam sendo fatores traumáticos após a quimioterapia também. Então, isso afeta o psicológico do paciente e da família, que o vê sem conseguir comer”, completa a dentista da oncologia hospitalar pediátrica do Imip Gabriela Lima. Em casos mais graves, a mucosite pode acometer o esôfago e até o ânus, interferindo na saúde gastrointestinal.

Todas as vezes em que Mickaelen Florêncio vem ao Recife para tratamento no Imip ela recebe a visita da equipe da odontologia hospitalar pediátrica. Ao contrário do que acontece com a maioria das crianças quando vê o dentista, Mickaelen abre a boca com facilidade e fica contente quando eles chegam. Coloca um óculos preto no olho e, mesmo sem ver, se diverte com a luz vermelha que vem em sua direção. É o laser de baixa intensidade que cicatriza a sua dor. O tratamento é oferecido no instituto há quatro anos e foi ampliado desde 2016, quando foi iniciada a habilitação em odontologia hospitalar.

Antes, os pacientes oncológicos com mucosite eram tratados com uma solução que continha xilocaína e antifúngico, mas sem possibilidade de cura das feridas. O efeito era apenas analgésico. “Há 24 anos, quando comecei a trabalhar no Imip, não existia esse tipo de tratamento. Era comum que as feridas levassem a infecções por micro-organismos, provocando doenças secundárias e levando à septicemia (infecção generalizada). Podendo também causar a morte”, diz Fabiana Motta.

O laser atua na cicatrização das lesões, que costumam aparecer com no máximo uma semana depois da aplicação da quimioterapia, e libera endorfina. Em consequência, a sensação de dor se vai e o paciente se sente melhor. Ele pode ser aplicado antes ou depois da primeira sessão de quimioterapia, a depender do estado clínico da criança. Em uma semana, após a aplicação, as feridas costumam desaparecer. O laser consegue cicatrizar até 80% delas e, mesmo em casos mais graves, age amenizando o sofrimento.

Logo depois de se submeter pela primeira vez ao tratamento, Mickaelen reclamou de dores na boca para a mãe. A menina estava com uma espécie de bolha no lábio. “Ela disse que tinha um caroço e, quando fui ver, estava vermelho. Então, fizeram o laser e logo no outro dia começou a sarar”, lembra a dona de casa Kristiane Florêncio, 37, mãe da menina. Kristiane e Mickaelen vão ao Imip uma vez por semana. A menina já fez cinco ciclos de quimioterapia e só duas vezes apresentou mucosite. Sempre que se encontra com a luz vermelha do laser, seu prognóstico se torna mais positivo.

Cuidados com a boca são fundamentais para evitar infecções

Cáries, tártaros e má higiene podem ser porta aberta para infecções. Camila Pifano/Esp. DP (Camila Pifano/Esp. DP)
Cáries, tártaros e má higiene podem ser porta aberta para infecções. Camila Pifano/Esp. DP

O encontro entre Mickaelen e a luzinha vermelha não foi de imediato. Quando chegou ao hospital, a família foi informada que uma das prioridades a partir daquele momento seria cuidar das cáries em dois dentes dela. Os pacientes oncológicos precisam ter cuidado redobrado com a saúde bucal, já que o tratamento baixa a imunidade, e cáries e feridas podem favorecer o surgimento de infecções. Por isso, o ideal é que os pacientes sejam acompanhados por uma equipe de odontologistas, para que seja feito a adequação do meio bucal, ou seja, o reestabelecimento da saúde da boca.

“O condicionamento do meio bucal faz a restauração, exodontia, limpeza de tártaro, todas as necessidades, e ensina como fazer a higiene”, afirma Fabiana Motta. Aqueles pacientes oncológicos que chegam com problemas têm mais chances de desenvolver mucosite em grau maior. Para a efetividade das ações, é fundamental o trabalho da equipe multidisciplinar da oncologia pediátrica, fazendo a busca ativa dos pacientes com necessidade de passar pela adequação. “A saúde bucal hospitalar sempre foi neglicenciada Quando as pessoas estão internadas, poucas vezes se pensa na higiene da boca, mas a ausência de cuidado aumenta as chances de infecção”, diz Fabiana.

O trabalho de busca ativa começa na admissão social, retirando as dúvidas, e termina com os odontologistas ensinando as famílias a cuidar dos dentes no hospital e também em casa. “É preciso sensibilidade para fazer a crianças aderirem ao tratamento e existem técnicas para isso. Quando elas sentem dor, acabam abandonando o tratamento”, complementa a coordenadora da odontologia do Imip, Verônica Kozmhinsky. No instituto, a taxa de abandono do tratamento oncológico pediátrico é menor que 1%.

O desgaste do tratamento é evidente no rosto do pequeno Carlos Eduardo, 3 anos. Há um ano na luta contra um neuroblastoma, o menino expansivo costuma ficar acanhado depois de cada sessão. Abaixa o olhar e prefere ficar no celular. Tirando esses momentos, ele é só euforia quando a equipe de odontologia chega. O menino estabeleceu um vínculo de parceria com a odontóloga Gabriela Lima. É ela que orienta a família e ele a como cuidar da boca. “Já tinha um cuidado de escovar sempre os dentes dele, mas aqui aprendi a fazer uma limpeza mais profunda. Se aparece uma afta, já temos para quem mostrar e resolver”, diz a mãe do menino, a dona de casa Maria Eduarda Silva, 20.

Câncer oncológico infantil é raro e de tratamento longo

Caso de mucosite grave de Felipe fez hospital passar a fazer laserterapia todos os dias da semana. Nando Chiappetta/DP (Nando Chiappetta/DP)
Caso de mucosite grave de Felipe fez hospital passar a fazer laserterapia todos os dias da semana. Nando Chiappetta/DP

Depois de ver o filho passar 14 dias internado em consequência de uma mucosite severa, os pais do pequeno Felipe, a advogada Juliane Maia Alencar, 40, e o professor universitário Geraldo Maia Leite, 40, imploraram para o serviço do Imip funcionar 24 horas. A criança, que em 2016 se tratava de uma leucemia, sofreu com feridas na boca, garganta e esôfago quatro dias depois da primeira sessão de quimioterapia com Metotrexato (MTX), um antimetabólito indicado no tratamento de células malignas, administrado de forma venosa. O caso de Felipe serviu de pontapé para atendimento com o laser funcionar 24h, de domingo a domingo.

“Felipe parecia estar bem nos três primeiros dias após a sessão. No quarto dia, justamente na sexta-feira, feriado de sete de setembro, ele teve alta do hospital. Assim que chegamos em casa, percebi as manchinhas brancas no céu da boca dele e bolinhas avermelhadas na parede da bochecha e entre os lábios. Quando levamos para o hospital de volta, ele teve que ser internado e ficamos 14 dias até ele se curar completamente das feridas”, lembrou Juliane.

Devido às complicações com a inflamação da mucosa, o menino não se alimentava.  Felipe teve grau quatro, o mais grave. “Foi a primeira e única vez que tivemos que dar morfina para amenizar a dor”, conta a mãe. O tratamento contra a leucemia consistia em quatro sessões com MTX, com intervalos quinzenais. Mas por conta dos problemas, a segunda sessão acabou só acontecendo quase um mês depois.

Coincidentemente, a data marcada para aplicação do quimioterápico foi em cima do feriado de 12 de outubro daquele ano. “Meu marido ficou louco e foi até o hospital implorar para que o serviço de aplicação de laser ficasse aberto no feriadão. O medo da gente era que Felipe desenvolve a mucosite mais uma vez e numa recaída não resistisse”, recordou a advogada.

A coordenadora da oncologia pediátrica do Imip, Kaline Maciel, explica que as complicações com a mucosite, se não tratadas a tempo, podem atrasar o tratamento e diminuir as chances de cura da leucemia. “As doenças não esperam, as complicações também não. O tratamento do câncer em crianças é agressivo, pois é um coquetel de medicações, e pode durar mais de dois anos. O de Leucemia são dois anos e meio, entre idas e vindas semanais”, diz a coordenadora da oncologia pediátrica do Imip, Kaline Maciel. Segundo ela, 70 crianças são atendidas no ambulatório da oncologia diariamente.

Pernambuco registra uma média de 450 novos casos de câncer infantil por ano. O Imip atende 65% dessa população, que se tratada precocemente tem mais de 70% de chances de cura. O Hospital tem uma parceria, desde 1994, com o St. Jude Children's Research Hospital. “É uma doença que não escolhe cor, raça, classe social. Há estudos sobre causas genéticas, mas não há comprovação. Não é hereditário nem contagioso”, diz Kaline. Aos cinco anos, Felipe é uma criança curada.  



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