100 anos Rádio Clube Jingles, uma invenção do rádio O maior e mais bem sucedido compositor de modinhas políticas de Pernambuco era também o maior gênio criativo da música da Rádio Clube

Por: Silvia Bessa

Publicado em: 24/09/2018 14:32 Atualizado em: 24/09/2018 14:40

Imagem: Arquivo/DP
Imagem: Arquivo/DP

Em pleno mês de setembro de 1958, véspera de uma eleição como a que estamos à espera, o jingle que corria mais fácil pela boca do povo era intitulado “O Grande cidadão”. Enaltecia o candidato ao governo de Pernambuco Cid Sampaio e era uma criação do genial maestro Nelson Ferreira, astro maior da Rádio Clube de Pernambuco, a PRA-8, a pioneira - tido desde a década de 1930 como o maior ícone da música do estado. Cid foi eleito em 3 de outubro daquele ano em uma campanha empolgante que reuniu toda a esquerda. Para comemorar a vitória, Nelson, que tinha grande habilidade com o frevo, compôs a marcha-canção “O bloco da vitória”. 

Até hoje, nas apresentações dos blocos líricos carnavalesco, ainda que o folião não saiba, está entoando o frevo-político assim: “O bloco da vitória está na rua/ desde que o dia raiou/ venha minha gente/ pro nosso cordão/ que a hora da virada chegou, ôôô”. De maneira subliminar, Nelson estava falando do candidato para o qual trabalhou artisticamente: “Quando o povo decide cair na frevança/ Não há quem dê jeito/ aguenta o rojão (...)/ vamos festejar”, continuava em um dos trechos. O de-ci-de dito na música era uma alusão a Cid, o futuro governador da época. Cid chegou a fazer agradecimento a Nelson pelos dois presentes.

Anos depois, na eleição de Miguel Arraes para a Prefeitura do Recife, Nelson Ferreira emplacou o “Miguel Arraes...tá” (“Êta, minha gente, vai ser uma gostosura, com Cid no Governo e Arraes na prefeitura”). Coube a Claudionor Germano fazer a interpretação no estilo tocou-colou. O maestro dos jingles - bom em letras e acordes para fins comerciais e políticos - preparou a canção de comemoração da vitória de Arraes, chamada “Caiu a sopa no mel”, esta em parceria com Aldemar Paiva e Sebastião Lopes, conforme conta o pesquisador fonográfico Renato Phaelante.

Nelson Ferreira fazia tocar nos rádios os sucessos da época. Os frevos de sucesso dele inclusive. Disse certa vez Samuel Valente, colecionador de Pernambuco que reuniu o maior acervo de peças de campanhas eleitorais desde o século passado, que Nelson foi o primeiro e maior compositor de músicas político-eleitorais que se tem notícia. Desde 1930, Nelson compunha. A narrativa histórica em torno da revolução de 1930 confirma. 
Conta-se que o governador da época, Estácio Coimbra, soube da deposição do presidente da República Washington Luiz por Getúlio Vargas quando estava menos de um mês antes o fim do seu mandato. Estácio teria planejado uma fuga. Nelson, então, lançou a paródia contra ele e o chefe de polícia do governo, Ramos de Freitas, conhecido como Beiçola. Era 1931 e a letra dizia assim: “A canoa virou/Seu Estácio fugiu/E o beicinho do beiçola/Nunca mais ninguém viu". 

Durante a guerra, Nelson Ferreira compôs frevos para satirizar o ditador Adolf Hitler “Quer matar o papai, oião” e outro que tratava da presença de jovens militares americanos no Recife (este, “Bye, bye my baby”). Para o então candidato a governador Agamenon Magalhães, compôs que teve grande aderência popular, cujo título era “Na hora H-Agamenon”. Conta Phaelante que foi de “enorme aceitação popular e ganhou as ruas, morros e bairros mais aristocráticos”. Agamenon foi eleito. Depois estreitou suas relações com a Rádio Clube, chegando inclusive a ter um programa. A rádio sempre tratou de política partidária e deu espaço para políticos, em épocas eleitorais ou não.

Sátiras políticas faziam sucesso

Imagem: Arquivo/DP
Imagem: Arquivo/DP

Afora entrevistas com governantes, como a que se ouviu do prefeito do Recife Miguel Arraes em 4 setembro de 1960 pelas ondas da Rádio Clube, as sátiras, conhecidas como charges nas décadas de 1950 e 1960, eram o que havia de mais popular quando se queria tratar de temas políticos nas emissoras de rádio de Pernambuco. Comunicadores com trânsito com o público ou ainda comediantes faziam grande sucesso com textos criativos. Em 21 de setembro de 1960, o Diario de Pernambuco, por exemplo, anunciava uma novidade na programação na grade da Clube: O Clube da Sucessão, estrelando Aldemar Paiva ao lado de José Santa Cruz e Luiz Queiroga. “Trata-se de um programa que, no momento movimentado em que nos encontramos com a aproximação das eleições, chega perfeitamente em tempo e agradará a todos”.

Na Rádio Tamandaré, emissora associada da Rádio Clube, cujos elencos chegaram a trabalhar juntos no Palácio do Rádio, um prédio simbólico para a Clube, em 1954 se fazia a charge política Folias. Um dos episódios mais anunciados usava como slogan a frase “Ruim por ruim, vote em mim”. Todos os domingos, das 20h às 22h, Aldemar Paiva, Nelson Ferreira com Grande Orquestra, Vampré e comediantes de primeira linha, como Honório de Souza, Jaques Gonçalves e Jomeri Pozzoli, se apresentavam. Usavam como pano de fundo o personagem de Dr. Góes Ribeiro, que seria um candidato do estado de Alagoas e que contava com a colaboração de “ridículos tipos que vivem na ciranda das eleições”, informava matéria do Diário de Pernambuco.  

Na mesa Rádio Tamandaré, havia feito sucesso o Hotel da Sucessão, que contava a história narrada a partir de um hotel imaginário “e que afundou há muito tempo”. Um programa patrocinado pelas canetas Compactor e que tinha jazz como parte da programação.

* Esta reportagem faz parte de uma série sobre os 100 anos da Rádio Clube, publicada todas as segundas-feiras no Diário de Pernambuco




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