DP NOS BAIRROS Museu resgata história de resistência da Ilha de Deus Trajetória de ocupação da Ilha de Deus é tema do Museu Frei Beda, cujo acervo está em formação

Por: Diario de Pernambuco

Publicado em: 21/09/2018 07:57 Atualizado em: 21/09/2018 08:39

A antiga Ilha sem Deus (E), e hoje as moradoras Maria José e Geisa Gomes, mãe e filha, orgulhosas de onde vivem. Foto: Leo Malafaia/Esp.DP
A antiga Ilha sem Deus (E), e hoje as moradoras Maria José e Geisa Gomes, mãe e filha, orgulhosas de onde vivem. Foto: Leo Malafaia/Esp.DP
Primeiro, Arlinda Leite chegou com os três filhos mais velhos, motivada pelo sonho de habitar uma ilha. Depois, trouxe a filha Maria José Soares e os outros menores. Naquele pedaço de terra alagada, rodeado de água doce, eles fincaram os pés. Lá, Maria criou seus oito descendentes, uma delas Geise Gomes. Hoje, Arlinda tem 84 anos. Maria José, 47. Geise, 30. Três gerações símbolos das transformações pelas quais passou a Ilha de Deus em quase 50 anos de existência. História que está sendo resgatada para compor a acervo do Museu Frei Beda, espaço de valorização da comunidade pesqueira que funcionará dentro da comunidade.

Quando Arlinda chegou à ilha, não havia quase moradores. Ela passava o dia pescando marisco nas proximidades e depois retornava para casa, no bairro de Dois Carneiros. Motivada pelos colegas pescadores, começou a trazer a família aos poucos. “Não tinha sequer ponte, a gente atravessava com barco para chegar e sair daqui. Não tinha luz nem água. Dependendo da hora do dia e da maré, a água subia até a altura do peito da gente. Era preciso pegar um barco para ir na venda da esquina”, lembra Maria José, conhecida como Zeza. 

Ao longo dos anos e, principalmente, desde que passou pela requalificação no fim da década passada, a Ilha de Deus deixou para trás essa imagem de descaso. Desde 2012 com um projeto de turismo de base comunitária, a comunidade saiu das estatísticas de violência para ocupar os panfletos turísticos. Neste ano, já recebeu 3 mil visitantes. Pessoas que, segundo o coordenador de projetos sociais do Centro Educacional Popular Saber Viver, Edy Rocha, precisam conhecer o passado local. Foi por isso que ele criou o projeto do museu, em 2015, e desde então busca captar recursos para tirar a ideia do papel.

O museu já tem sede própria e pedra fundamental, instalada em agosto de 2017. Leva o nome do religioso que começou o processo de empoderamento dos moradores da ilha, Frei Beda, responsável por tirar o estigma do nome “Ilha sem Deus”. O espaço receberá um acervo de 5 mil fotografias e 200 áudios e vídeos, recolhidos durante uma odisseia por quatro países da Europa. “Percebemos que não havia registros do nosso passado aqui. Então, falamos com estrangeiros que vinham participar das ações através do frei e viajamos por três meses, com a ajuda deles, para recolher essas memórias na Europa”, conta Edy.

O projeto tem como base o conceito de museu comunitário, seguindo uma lógica inversa de concepção, com participação ativa dos moradores. “Não é um museu que já vem com um layout pronto de exposição. O acervo fotográfico construído em 30 anos servirá de referência e reconhecimento da comunidade sobre o passado, a memória. Será um processo de elaboração que vai depender inclusive de um trabalho de preparação da mão de obra local”, explica a museóloga integrante do Conselho Federal de Museologia (Cofem), consultora e aposentada da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj) Regina Batista.

“Queremos garantir a preservação da identidade cultural da ilha e mostrar isso tanto para as crianças quanto para os visitantes que recebemos”, complementa Edy Rocha. A ilha recebe visitas através do Catamaran Tours, todos os sábados, às 10h. Também realiza atividades pedagógicas com escolas, com visita pré-agendada. Ano passado, foram 4 mil visitas, todas elas recebidas pela mariscada de Geise, filha de Zeza e neta de Arlinda. 

As duas primeiras passaram a vida inteira pescando. Geise, por meio dos projetos educacionais da ilha, virou empreendedora e agora cozinha para fomentar o turismo no lugar onde nasceu. É só orgulho da ilha, como a mãe e a avó. “Aqui é a fundação da minha família, só tenho a agradecer à ilha. E quero que as pessoas saibam disso”, disse Zeza. Por isso, o museu também é autoestima. Orçado em R$ 600 mil, o museu tem projeto submetido ao Funcultura. A expectativa é que até o final do próximo ano estejam concluídos a catalogação de 2 mil fotografias, a concretização das oficinas de preparação e um primeiro esboço do uso da estrutura física. 


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