Pesquisa Palhaçoterapia traz impactos positivos no tratamento de paciente renal crônico Constatou-se que o método faz com que 53,3% dos indivíduos sintam-se bem, 40% considerem-se alegres, 100% gostem de palhaços e 33,3% achem importante a presença de palhaços no ambiente hospitalar

Publicado em: 19/09/2018 14:26 Atualizado em: 19/09/2018 14:37

Imagem: Divulgação
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A insuficiência renal crônica (IRC), uma doença irreversível e progressiva que tem no transplante sua maior chance de cura, vem sendo submetida a um tipo de intervenção pouco usual, mas cujos efeitos surtidos no quadro emocional dos pacientes despertam a atenção de pesquisadores. Por promover mudanças positivas nos parâmetros da frequência cardíaca das pessoas, a palhaçoterapia, promovida durante a hemodiálise, atua como recurso de “controle” dos sinais vitais, melhora do humor e diminuição da ansiedade, segundo constata pesquisa desenvolvida na UFPE.

Cibele Lopes de Santana Ramalho, autora da dissertação “Ações de palhaçoterapia e efeitos de variação fisiológica em pacientes renais em hemodiálise”, aponta que a prática de distrair e alegrar as pessoas no contexto hospitalar oferece mais uma forma no cuidar e como recurso terapêutico e traz efeitos benéficos para os pacientes como potencial amenizador do choque emocional, tornando a interação com o ambiente mais acolhedora. A pesquisa, defendida no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde (PPGCS) e orientado pelo professor Bruno Severo Gomes, foi realizada no Hospital das Clínicas (HC-UFPE) nos meses de outubro e novembro de 2016 e janeiro de 2017. 

Dentre os resultados obtidos através das entrevistas aplicadas com pacientes e profissionais da saúde, constatou-se que a palhaçoterapia faz com que 53,3% dos indivíduos sintam-se bem, 40% considerem-se alegres, 100% gostem de palhaços e 33,3% achem importante a presença de palhaços no ambiente hospitalar. Numa abordagem mais ampla, o estudo aponta que a palhaçoterapia contribui nas sessões de hemodiálise com a melhora do humor de cerca de 12,5% dos pacientes. A pesquisadora constatou, ainda, que tal intervenção lúdica ocasiona a diminuição da ansiedade e tristeza associada ao aumento de alegria, bem como ajuda a desconstruir a percepção do domínio hospitalar enquanto lugar hostil/desagradável. 

SINAIS VITAIS - o investigar as possíveis alterações fisiológicas de sinais vitais (pressão arterial e frequência cardíaca), o estudo constatou que a pressão arterial não alcançou significância estatística do grupo que recebeu intervenção da palhaçoterapia, mas que corrobora para estudos posteriores, enquanto a frequência cardíaca apresentou o resultado de diminuição após as intervenções de palhaçoterapia. Conclui-se, portanto, que tal intervenção lúdica pode influenciar o sistema nervoso parassimpático, que relaxa o corpo e diminui a frequência cardíaca.

A população do estudo foi composta por pacientes em terapia renal substitutiva (hemodiálise) cadastrados no Serviço de Nefrologia do HC-UFPE. O estudo foi um ensaio clínico controlado e randomizado no qual os pacientes foram distribuídos nos grupos intervenção e controle por conveniência. A amostra foi composta por 27 pacientes adultos, dos quais 15 pacientes pertenciam ao grupo intervenção e 12 pacientes pertenciam ao grupo controle, ambos realizando hemodiálise. Para obtenção dos dados de ação da palhaçoterapia, o estudo utilizou como instrumento questões estruturadas aplicadas através de entrevista.

Transfusão de milk shake e transplante de nariz vermelho

Com base no levantamento de Cibele Lopes de Santana Ramalho, a primeira inserção do palhaço no ambiente hospitalar com o propósito de auxiliar no tratamento de pacientes, ocorreu em 1986, por iniciativa do ator Michael Christensen, diretor da organização norte-americana Big Apple Circus de Nova York.

Ao realizar uma performance teatral demonstrando como fazer uma "transfusão de milk-shake", um "transplante de nariz vermelho" e "um estetoscópio soltar bolhas de sabão" para as crianças internadas na ala de cardiologia pediátrica, o doutor-palhaço demonstrou o impacto positivo das suas brincadeiras e interações. Os pequenos pacientes, antes apáticos e desmotivados, apresentaram melhora de humor, atitude mais colaborativa com o tratamento e, em decorrência do resultado alcançado, o hospital solicitou a continuidade das visitas do artista.

No Brasil, a prática da palhaçoterapia é relativamente recente. Em 1998, o ator brasileiro Wellington Nogueira passou a integrar a trupe Clown Care Unit de Nova York e, ao retornar ao Brasil em 1991, fundou o grupo Doutores da Alegria, organização que influenciou na mobilização de outros grupos na prática e pesquisa da arte de fazer pacientes internados em hospital rirem e se sentirem felizes, mesmo que por pouco tempo. 

EFEITOS - A pesquisa de Cibele destaca que a permanência no hospital numa situação de internação, mesmo que por poucos dias, é uma experiência estressante e que o contato lúdico do palhaço no ambiente hospitalar tem o objetivo de quebrar a tensão e causar bom humor e alegria, além de mudar a forma de cuidado entre pessoas. "A palhaçoterapia pode ser considerada, portanto, como um instrumento artístico de humanização, um complemento às atividades hospitalares que visa ao cuidado com o ser humano, uma área facilitadora da terapia hospitalar", explica. 

Segundo elenca a autora, as brincadeiras que ocorrem no ambiente hospitalar desempenham funções de proporcionar diversão e produzir relaxamento; ajudar o paciente internado a se sentir mais seguro em um ambiente estranho; diminuir o desconforto provocado pela separação de seus familiares; proporcionar um meio para aliviar a tensão e expressar sentimentos e ideias; e encorajar a interação e o desenvolvimento de atitudes positivas em relação às outras pessoas. “Os próprios profissionais da saúde concordam que o brincar favorece a diminuição do isolamento vivenciado pelo paciente, pois, por meio dessa ação, eles interagem mais uns com os outros e com a equipe multidisciplinar”, relata.


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