Verão Sol, praia e problemas Mesmo sendo uma das praias mais badaladas e conhecidas do país, Boa Viagem carrega a fama dos ataques de tubarão e diversão é fora do mar

Por: Diario de Pernambuco

Publicado em: 18/09/2018 09:15 Atualizado em: 18/09/2018 09:21

Imagem: Nando Chiapetta/DP
Imagem: Nando Chiapetta/DP

Com o início da estação seca na Região Metropolitana do Recife, quando as chuvas se tornam menos frequentes e a temperatura fica próxima dos 30º, a movimentação nas praias começa a aumentar e o Nordeste se torna um dos destinos mais procurados pelos turistas. Mesmo sendo um movimento já esperado nessa época do ano, a orla de Boa Viagem ainda esbarra em problemas de infraestrutura, segurança e até o medo de ataque de tubarão são obstáculos apontados pelos frequentadores.

Visitando a capital pernambucana pela primeira vez, o casal argentino Naomi García, 54, e Carlos García, 58, conta que se decepcionou ao saber que alguns trechos o banho está proibido devido ao risco de ataque de tubarão ou presença de valas, que aumentam as correntezas. “O patrimônio do Brasil são as pessoas e esse clima agradável. Em outras partes do mundo o uso de tecnologias permite o banho, mesmo com a presença de tubarões. Para nós, foi uma surpresa chegar aqui e não pode desfrutar do mar”, comentou Naomi.

Morando há mais de 20 anos em Boa Viagem, a cabeleireira Ednéa Dias dos Santos, 42, defende que sejam feitas ações educativas para conscientizar a população a cuidar dos equipamentos instalados no calçadão, assim como não deixar lixo na areia. “A gente viaja para outras praias e fica até constrangido por perceber como as pessoas zelam por pelo patrimônio coletivo. A areia e a água ficam sujas porque ainda tem quem jogue lixo nas calçadas, então é um comportamento que se repete em todo canto. É preciso educar para que todos valorizem aquilo que é de uso comum”, comentou.

Valter Lins, 39, é um dos 475 barraqueiros que ocupam a faixa de areia da praia de Boa Viagem. Trabalhando há 25 anos no local, sua expectativa é de que o movimento deste verão não seja muito diferente do ano passado. “As vendas estão bem fracas. Muito turista chega até aqui por causa da fama da praia, mas não encontra os mesmo atrativos de outras praias próximas, como Porto de Galinhas e Carneiros, por exemplo. Em dezembro, quando o movimento costuma aumentar, tivemos uma baixa e esse ano não deve ser diferente”, opinou.

A dificuldade é a mesma para os comerciantes do calçadão. Segundo Merinaldo Severino da Silva, 47, funcionário de um dos quiosques, o temor da violência é outro problema. “A falta de segurança afasta os turistas. Eu mesmo já alertei várias pessoas que não andem por aqui com o celular na mão porque acontece muito roubo. Antes a gente vendia mais de 1.500 cocos por dia e agora se a gente vende 300 comemora”, relata.

Procurada pela reportagem, a Secretaria de Defesa Social (SDS), afirmou que a Operação Boa Viagem, executada pela Polícia Militar de Pernambuco, reduziu em 27,6% as ocorrências de crimes na região. Segundo os dados informados pelo órgão, de janeiro a agosto deste ano, foram registrados 2.332 crimes violentos contra o patrimônio, que incluem os roubos. 

“A Área Integrada de Segurança 3, que engloba oito bairros da Zona Sul do Recife, teve seu menor número de investidas criminosas (591 ocorrências) desde novembro de 2015. Importante lembrar que, nesta área, no início de agosto, a Polícia Militar implantou o sistema Koban, um modelo de policiamento japonês, que está em fase experimental, mas já colhe bons resultados”, esclareceu a SDS, através de nota.

LIMPEZA
Para manter a praia limpa, a Autarquia de Manutenção e Limpeza Urbana do Recife (Emlurb) remove uma média diária  de 10 mil toneladas de lixo, o equivalente a quase 600 sacos de cem litros. Durante os finais de semana, esse número ultrapassa a 20 mil toneladas somando o sábado e o domingo, correspondendo a 1.724 sacos de cem litros. Uma equipe com 60 profissionais executa os serviços de varrição, fiscalização e limpeza, tanto no calçadão quanto na faixa de areia nas orlas de Boa Viagem e do Pina. 

Aos finais de semana, o efetivo chega aumenta para 85 trabalhadores. A coleta regular, que remove o lixo recolhido pelos garis e dos quiosques, acontece duas vezes por dia. Já a varrição é realizada nos três períodos do dia. Durante a noite são retirados os resíduos da areia com uma máquina que remove detritos enterrados até 20 centímetros de profundidade.

Um quarto de século de medo dos ataques no mar

Há 25 anos, Pernambuco entrava no roteiro mundial das estatísticas de incidentes com tubarão ao começar a registrar oficialmente ataques do predador dos mares na própria costa. Foi o início de uma era de tensão nas águas. Ao longo de mais de duas décadas, 62 vítimas foram atacadas, das quais 24 morreram. O fenômeno imprimiu um estigma às praias urbanas da Região Metropolitana do Recife, conhecidas no mundo pela presença desses animais, e mudou a relação dos moradores locais com um dos seus principais atrativos turísticos. Entretanto, até hoje, há mais perguntas do que respostas e mais propostas do que soluções.

Pernambuco não é o único estado brasileiro com ataques de tubarão em suas águas. Dados inéditos em análise pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) apontam que, das 17 unidades da federação cortadas pelo mar, 11 têm histórico de incidentes. São mais de 100 casos na costa brasileira. São Paulo e Maranhão completam o pódio. Pernambuco é responsável, no entanto, por mais da metade dos incidentes e mantém uma média de mais de duas ocorrências por ano.

O primeiro caso aconteceu em frente à igreja da Praia de Piedade, em 1992. O boom ocorreu em 1994, quando 10 pessoas foram atacadas. A realidade impôs pensar estratégias. A mais enérgica foi a proibição da prática de esportes náuticos em 32 km de costa, em 1995. Para o pesquisador do Departamento de Pesca da UFRPE Jonas Rodrigues, foi também a mais efetiva para conter os incidentes.

Quando tudo era novidade, houve uma força-tarefa para tentar entender o fenômeno. Placas de orientação foram instaladas no perímetro de impedimento e pesquisas começaram a ser feitas. Doze anos depois, nasceu o Comitê de Monitoramento de Incidentes com Tubarão (Cemit) para formalizar as ações. Pouco se concluiu. Dos mais de 60 ataques, apenas 10 tiveram a espécie confirmada. O impacto de grandes obras como a construção do Porto de Suape e um possível deslocamento dos animais permanece uma incógnita.


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