100 anos Rádio Clube Radionovelas, décadas de sucesso Com o incentivo de Luiz Maranhão, molda-se nos anos de 1930 um modelo de negócio que massificou o rádio como meio de comunicação no Brasil

Por: Silvia Bessa

Publicado em: 17/09/2018 08:13 Atualizado em: 17/09/2018 11:04

Imagem: arquivo de Jorge José de Santana
Imagem: arquivo de Jorge José de Santana

Tinha 18 anos quando foi convidada por Luiz Maranhão, homem de grande faro para talentos, a interpretar Sinhá Moça no rádio. Era uma releitura do romance de Mário Sette intitulado Senhora do Engenho. Dividiram o texto em sete episódios, de maneira que tomaria uma semana completa de transmissão da Rádio Clube de Pernambuco. A jovem Mercedes Del Prado, atriz pernambucana cujo nome de batismo era Mercedes Furtado Ramalho, titubeou. O ano: 1938. Com pouca experiência, ela temia não dar conta do papel principal de um modelo artístico novo para ela. Até então, Mercedes só atuara em palcos teatrais, conforme afirma em entrevista concedida à Fonoteca da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj) em 1991. Acabou por aceitar o desafio.

Para Mercedes, Sinhá Moça foi a primeira novela do Brasil. Em várias entrevistas ela destacava o pioneirismo desta produção, conta o fundador e ex-chefe da Fonoteca, o radialista e pesquisador fonográfico Renato Phaelante. Mas, “há profundas controvérsias”, frisa ele, responsável por coordenar a coleta de importantes e históricos depoimentos de personagens símbolos para a memória do rádio no estado e no Brasil. Ziul Matos e Telga de Araújo, radioator e novelista respectivamente e também ícones daquela época, dão outra versão sobre o que se fez em 1938 em Pernambuco. Para eles, Sinhá moça e outras tentativas eram “peças teatrais adaptadas para o rádio”. Narra Phaelante que Luiz Maranhão Filho, jornalista e autor de Memórias do rádio (Editora Jangada, 1991), creê que a famosa radioatriz Mercedes Del Prado classifica como novela as peças com “cinco ou mais atos, radiofonizadas”.

Mas é inegável a importância de Sinhá Moça como precursora das radionovelas e de Mercedes como uma referência do início dos anos de 1940. Ela chegava a responder por vários papéis ao mesmo tempo e marcou uma era no radioteatro de Pernambuco, que começava a ser rabiscado e pensado como modelo de negócio. Sempre com brilhantismo, como destacou o jornalista Severino Barbosa, em 1984, em caderno especial publicado pelo Diario de Pernambuco. “Mercedes foi a madrasta ruim, a bruxa de branca de neve, a ladra, a mendiga, a feiticeira de risada sinistra, o menino levado a breca, a marafona da vida airada, saindo-se de tudo magnificamente bem”, descreveu. 

Imagem: arquivo de Jorge José de Santana
Imagem: arquivo de Jorge José de Santana
O papel de boazinha dava-se a uma radioatriz portuguesa, conhecida por Polyana. Ela perdeu o posto no dia em que se recusou a atuar com um radioator iniciante, dando a oportunidade que Mercedes brilhar nos anos seguintes em Silêncio. Nas décadas de 1940 em diante foram muitos os nomes de sucesso. 

Phaelante conta que em 1947 “o radioteatro da Rádio Clube de Pernambuco constituía-se um dos mais bem organizados departamentos”. Além de Polyana e Mercedes, destacavam-se Fernando Castelão, Hélio Peixoto, J. Austragésilo e Manuel Malta. Este era apenas o primeiro capítulo. As radionovelas tiveram vida longa, chegando ao auge nas décadas de 1950 e 1960. Sobre elas, há muitos capítulos e personagens a serem descobertos.

Mude-se. “A vida já é triste”
Imagem: arquivo de Jorge José de Santana
Imagem: arquivo de Jorge José de Santana
Ir além da dramatização de peças conhecidas defronte a um microfone era um desejo que só crescia. Foi resultado da inquietude de pioneiros do rádio, todos oriundos dos teatros brasileiros dos anos de 1920 e 1930. Eles formavam um grupo que se correspondia e trocava informações. Para Luiz Maranhão pai, que teve sucesso na Rádio Clube e foi um destes ideólogos, um bom interlocutor era Nestor de Holanda, jornalista recifense que tinha atuação na Revista Cena Muda, no Rio de Janeiro. 

Os dois trocavam muitas cartas e Nestor chegou a comentar que Maranhão defendia “algo novo, diferente” das peças radiofônicas daquela época, algo que superasse aquela “irritante descrição de cenário e ambiente, feita por um locutor antes da peça”. Maranhão também propunha ousar e fugir do esperado pelo público. Sabia ele que a preferência voltava-se para dramas e sentimentalismo, mas cogitava “ir aos poucos enxugando as lágrimas”, colocando humor na pauta, “sem descer às chanchadas”. “A vida já é triste”, ponderava. 

Ao longos dos anos de 1940, o radioteatro era prática em emissoras nacionais e o cast da Rádio Clube de Pernambuco, fundada em 1919 e soberana por décadas, só aumentava. Ao aproximar-se da década de 1950, tanto era o interesse pela área que chegou-se a se criar o radioteatro acadêmico em 1948, formato com a participação de estudantes da Faculdade de Ciências Econômicas sob a orientação de Clovis Neves de Castro, segundo informações de Renato Phaelante. Tudo ainda era amador. O profissionalismo só chegou por volta de 1952, com Caio de Souza Leão, que instituiu a carteira de trabalho para o elenco. 

Esta reportagem faz parte de uma série em homenagem aos 100 anos da Rádio Clube de Pernambuco, publicada até abril de 2019 


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