Educação Redes sociais, instrumentos da educação? Escolas e professores passaram a usar mídias digitais para despertar atenção dos estudantes e ampliar o conteúdo tradicional visto em sala de aula

Por: Rosália Vasconcelos

Publicado em: 10/09/2018 17:42 Atualizado em: 10/09/2018 20:38

Mateus Melo e Kaio Lacet costumam usar recursos do Instagram para ampliar conteúdos vistos em sala de aula (Foto: Shilton Araújo/DP)
Mateus Melo e Kaio Lacet costumam usar recursos do Instagram para ampliar conteúdos vistos em sala de aula

O uso de telefones celulares e tecnologias afins, como tablets, dentro das salas de aula ainda é um tema polêmico no meio acadêmico. Neste mês, entrou em vigor na França uma lei que proíbe o acesso de alunos às escolas portando celular. Apesar da discussão, no Brasil muitos professores e pedagogos têm procurado absorver a tecnologia em prol dos estudantes do século 21 utilizando técnicas diversas. Uma delas é o uso das redes sociais para interagir a partir do conteúdo apresentado em sala de aula para criar uma dinâmica de aprendizagem mais criativa e atrativa a esse aluno. Disponibilização de videoaulas nos canais do Youtube, aulas “ao vivo” através do Instagram Stories, postagem direcionadas às temáticas das aulas estão entre alguns dos recursos a que recorrem os professores para atrair os jovens. 

O professor de história Mateus Melo é um dos que defendem o uso dos celulares como auxiliar da educação básica. “Acredito que as aulas, apresentadas da maneira tradicional como eu tive, por exemplo, empolga cada vez menos uma geração que está acostumada com informação na velocidade da luz. Se, antes, o professor de história tinha a função de ser uma enciclopédia, com apresentação de datas, revoluções, nomes, hoje o estudante encontra esse mesmo conteúdo com um clique. E com o acesso rápido às informações, do que vale ele apenas acumular conteúdo? Minha proposta de ensino é que ele conecte a história propriamente com o que está acontecendo ao redor dele. É formar o pensamento crítico, mas utilizando instrumentos com os quais o aluno tem intimidade, entre eles o celular. Não adianta acumular informações se esse jovem não sabe o que vai fazer com elas. Informação é diferente de conhecimento”, explica o professor.

Para ele, a criação de dinâmicas “menos decorebas e mais críticas”, a partir das redes sociais, vai da criatividade, da disposição e da estratégica de ensino de cada professor. O uso dos Stories, recurso do Instagram, para aulas ao vivo e postagens direcionadas são os preferidos de Mateus Melo. “A história é um campo de conhecimento público. Todos somos influenciados diariamente pela história, porque estamos o tempo todo falando no passado para referenciar uma situação do presente, seja em propagandas, em novelas, nos jornais, nas séries, nos filmes, nas conversas de família. E as redes sociais, para mim, são o primeiro espaço público com o qual esses jovens têm contato, as vezes até antes de entrar na escola. As redes sociais são um espaço no qual os alunos estão inseridos praticamente o dia todo e é lá onde queremos estar”, reforça Mateus Melo.

Para o professor de história Kaio Lacet, as redes sociais, de forma geral, tem grandes potencialidades para a educação, desde que instrumentalizadas de forma correta. E, embora sua utilização no ensino venha sendo sistematizada recentemente, desde os tempos do Orkut a prática vem sendo pouco a pouco inserida na educação. Ele cita as páginas de conteúdo histórico no próprio Orkut, depois no Facebook. Em seguida, veio a criação de canais com videoaulas no Youtube. “O Instagram é a rede social do momento e ela se apresenta com uma enorme potencialidade para educar porque tem recursos e ferramentas diversas.

No Stories, por exemplo, você pode passar uma mensagem, problematizar um conteúdo, criar enquetes, fazer lives, algo que temos usado bastante. Se a aula é sobre a Grécia, o berço da democracia, ensinamos o conteúdo em sala de aula e completamos com o Instagram. Através dos recursos dessa rede social, lançamos gatilhos para a reflexão sobre essa forma de organização política, por exemplo. Estamos criando uma forma de ressignificar conteúdos, criar empatia com a aprendizagem a partir da realidade desses estudantes”, explica Lacet. Para ele, a rede social possibilita também ao professor dialogar com o aluno de maneira mais horizontal, como sugerem as novas relações de mercado,
inclusive. 

Para a estudante do segundo ano do ensino médio Fernanda Cysneiros, 15 anos, as redes sociais têm sido uma ferramenta de assimilar o conteúdo e discuti-los para além da sala de aula. Ela cita as postagens no Instagram e no Facebook, que são uma forma de aprender a dialogar e discutir o que aprendeu na escola. “Entre os outros estudantes da minha sala, usamos também os grupos de Whatsapp para discutir informação, fazer resumos das aulas, tirar dúvidas. E já é hábito assistir aulas no Youtube para completar o conteúdo que vi na sala. Até dicas de como organizar seu horário de estudos ou otimizar o tempo encontramos nas redes sociais. Acho que é uma realidade para nós, estudantes, porque estamos conectados, com um telefone na mão, a toda hora e em qualquer lugar. Mas ainda são poucos os professores da escola que fazem esse tipo de abordagem através das redes sociais”, opina.

Tecnologias são desafio para professores e pedagogos
Escolas buscam trazer usar novos instrumentos para atrair a atenção dos alunos.  (Divulgação/Colégio Santa Maria.)
Escolas buscam trazer usar novos instrumentos para atrair a atenção dos alunos.

A área da educação básica tenta entender e acompanhar o aluno do século XXI. Já no infantil, a criança chega à escola bombardeada de estímulos tecnológicos. Como instituição secular, a escola aos poucos vai se atualizando para atender e conciliar o ensino com as novas demandas exigida pelos estudantes. Pedagogos e donos de escolas já estão atentos às possibilidades que as mídias digitais podem apresentar e afirmam que as tecnologias são mais um recurso para que o jovem saia das escolas com formação crítica, criativa e cientes das suas responsabilidades de sujeito no mundo. Capacitar e treinar os professores para os novos desafios também faz parte desse processo de adaptação. 09 

“As escolas têm buscado intensamente um método que dedica tempo à formação de qualidade. Em vez de dar tantos conteúdos, o foco é preparar para a vida. As redes sociais possibilitam que o aluno seja mais ativo na construção do seu conhecimento, no sentido de que permite ao jovem interagir, questionar, aprimorar sua capacidade argumentativa, compartilhar saberes e vivências. O uso de atividades envolvendo a gamificação e aplicativos de aprendizagem tem se disseminado dentro da educação, mas desde que os alunos usem as redes sociais com a consciência da liberdade e das responsabilidades que ela traz. Acho que a educação vive um momento em que todos estão aprendendo juntos”, afirma a pedagoga e psicopedagoga do Colégio 17 de Agosto, Beatriz Ferreira, que atua há 21 anos na área de educação. 

A pedagoga reforça também que não basta usar um computador ou tablet dentro da sala de aula. Os professores devem estar capacitados para orientar os alunos nesse processo, porque o papel dele na educação é de ser um facilitador do processo de aprendizagem. “Em um mundo onde as conexões são tão importantes, é primordial a vivência em tecnologias educacionais, visto que os alunos estão inseridos em uma atmosfera intensamente tecnológica. Por isso, sugerimos que em qualquer atividade que ouse inovar, o professor se programe e disponha de tempo para alcançar o resultado almejado”, coloca Beatriz. 

A diretora do Colégio Santa Maria, Rosa Amélia Muniz, disse que a instituição tem buscado utilizar os recursos sensíveis ao interesse da nova geração. Uma das características dos adolescentes é a dispersão. E por isso oportunizamos a construção do ensino através da música, da imagem e da tecnologia para atrair a atenção do jovem. Na nossa escola, praticamente todos os professores usam esses recursos, principalmente em disciplinas como física e matemática, para tornar mais palatável a aprendizagem. Temos uma equipe para fazer gravações de vídeo-aulas, que ficam disponíveis no canal do Youtube, para que os alunos possam acessar quantas vezes quiser até assimilar os conteúdos. As tecnologias vão aparecendo e procuramos absorvê-las a nossa favor dentro dos propósitos da educação”, afirma Rosa Amélia. 

A estudante Maria Gabriela de Barros Melo, 13, que está no 8º Ano do Ensino Fundamental, diz que o uso das redes sociais para estudar é uma prática comum a ela e os amigos de classe. “Eu acho que é uma forma de aliar aprendizagem e diversão. Porque a internet é um local que temos intimidade. Eu passo pelo menos quatro horas do meu dia nas redes sociais, mas a metade desse tempo é em buscar de recursos para aprender. Gosto de estudar física e desenho geométrico através de canais no Youtube, por exemplo. Mas sempre recorro aos meus professores para saber se as páginas e canais são fontes confiáveis”, conta Gabriela, que ganhou seu primeiro celular aos 10 anos de idade. 


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