100 anos Rádio Clube Com chegada do Ibope, é hora de ousar Contratação do radialista Aldemar Paiva para a direção artística da Rádio Clube ampliou audiência e movimentou mercado de propagandas

Por: Sílvia Bessa - Diário de Pernambuco

Publicado em: 10/09/2018 07:55 Atualizado em: 10/09/2018 14:44

Imagem: Nando Chiapetta/Reprodução
Imagem: Nando Chiapetta/Reprodução

Havia acabado a hegemonia absoluta. Concorrentes começavam a brigar pela audiência. Nesta época, já havia a preocupação com as pesquisas do Ibope. Era hora de partir para a reinvenção da Rádio Clube de Pernambuco, a PRA-8, no início dos anos de 1950. O radialista Aldemar Paiva assumiu a direção artística da emissora pioneira e dava o recado na implantação do seu projeto ambicioso. Referia-se não só ao estado, mas ao Nordeste e fazia questão de citar que se recebia cartas e se ouvia a Clube até no Sul. “Estamos dando ao Brasil um rádio pernambucano e não importando rádio do Brasil para dá-lo a Pernambuco”, dizia, de maneira enfática, em entrevista do Diario de Pernambuco em junho de 1952. “A província acabou”, frisava.

As declarações de Paiva precediam o início de um novo programa vespertino, chamado Revista da Cidade, que ele classificava como uma “ofensiva”. Afora a Revista da Cidade, somavam-se aos esforços para o horário matinal os lançamentos da radionovela Clarice, Bom dia, senhor prefeito e Mensagem à mulher. “A Rádio Clube, não se deixando abater diante dos concorrentes, investia em inovação”, diz o jornalista Jorge José, que viveu aquela  Era de ouro do rádio. Naquela momento, o espaço era ocupado pelas rádios Clube, Tamandaré e Jornal do Commercio. “Programas se sucediam”, conta Jorge José, autor de O Rádio pernambucano por quem o viu crescer (FacForm, 2009).

As novidades da programação da Clube vinham sendo anunciadas há meses pela emissora e replicadas pelos jornais locais. A rádio havia sido incorporada ao Grupo Diarios Associados há pouco. Pesquisa mostra que, em edição do Diario nos primeiros meses do ano de 1952, uma reportagem dizia que “a emissora da Cruz Cabugá surpreendia no ritmo” que havia instalado para ampliar o raio de atuação. “Os primeiros resultados já estão sendo sentidos pelo público ouvinte de rádio. A preferência dada à PRA-8 cresce dia a dia”.

A Revista da Cidade, tratada como uma ideia “brilhante”, tinha uma programação eclética e extensa. Começava às 13h30 e se prolongava até as 15h. Vários quadros a compunham, mas se ressalta a Pensão paraíso, denominada “charge radiofônica”, que tinha participação de comediantes do elenco da Rádio Clube. Outro quadro que era exaltado chamava-se Doutor Sabe tudo. Funcionava em modelo de consultório médico e tinha redação do próprio Aldemar Paiva. 

Muitos formatos bem sucedidos e usados como conceito de programas da Rádio Clube há quase 50 anos atrás são reproduzidos até hoje. O Boa tarde seu Cazuza, por exemplo, tratava dos desmandos da cidade, contendo “críticas impiedosas” à vida e acontecimentos urbanos. Eram intercalados com números musicais - fórmula que funciona bem na proposta de diversificação da grade. Medeiros Cavalcanti, escritor alagoano, era do corpo de produtores. Escreveu mais de 20 programas.

A investida dos gestores da Rádio Clube e as apostas de Aldemar Paiva, como coordenador criativo que era, estava funcionando. Resultado: “O anunciante cada vez mais esclarecido acerca do valor do rádio que fazemos e do valor do rádio também da propaganda moderna, vem ao nosso encontro e oferece patrocínios para os programas que ele escutou e achou excelentes”, dizia Paiva, na transcrição de uma entrevista vista pelo Diario de Pernambuco e republicada no livro de Jorge José.

A descoberta do público infantil

Mais de 50 crianças juntas e primorosamente vestidas subiam ao palco do auditório da PRA-8. As atrações infantis encenadas e transmitidas pelas ondas da Rádio Clube arrastavam multidões. A menininha Inajá Fernandes de Morais, de apenas 5 anos, era tratada como a garota-revelação. Cantava, fazia graça segurando a ponta do vestidinho e mexia para todos os lados seus pés calçados com sapato preto estilo boneca. 

A ideia de promover uma programação infantil, algo tão inimaginável na época que papeis de crianças cabiam a adultos, foi de José Santa Cruz e a ele se atribuiu o sucesso. Inajá era considerada a “vedetinha” da Revistinha da Cidade, uma adaptação do Programa Revista da Cidade voltado para adultos.

Outras propostas semelhantes brotavam na Clube para atrair o público infantil e aproveitar a popularização do sinal do rádio por classes sociais menos abastadas. Chapeuzinho Vermelho, Branca de Neve e obras do escritor Monteiro Lobato compunham o Teatro de Marionetes da PRA-8. Medeiros Cavalcanti criou uma adaptação da peça O Casaco Encantado , do francês Victor Hugo, para o teatro local. René Almeida fazia a direção. “Vocês viram minha jaqueta de couro?, perguntava lastimosamente Esfregão. E todos riam. As bandeiras despregadas”, o trecho foi estampado no Diario de Pernambuco como chamariz para ouvintes. A euforia era grande com a descoberta do filão. Um repórter resumia: “Os diversos quadros encenados constituíram perene encantamento”.

Esta reportagem faz parte de uma série publicada todas as segundas-feiras em homenagem aos 100 anos da Rádio Clube de Pernambuco.


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