Pesquisa Os anseios dos idosos de alta renda do Recife Estudo revela os hábitos e o perfil de idosos que frequentam o Parque da Jaqueira e a orla de Boa Viagem

Por: Anamaria Nascimento

Publicado em: 27/08/2018 10:18 Atualizado em: 27/08/2018 17:55

Foto: Peu Ricardo/DP
Foto: Peu Ricardo/DP
Um terço da população brasileira será idosa até 2050. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cerca de 66,5 milhões de brasileiros (29,3% da população) terão mais de 60 anos na metade do século. O envelhecimento da população gera uma série de preocupações, mas também demandas de mercado. Para entender os hábitos e o perfil dos idosos que moram sozinhos em bairros de classe alta do Recife, a consultora empresarial Simone Gueiros realizou o estudo Morando Sozinho na Terceira Idade, defendido como dissertação de mestrado no Centro Universitário UniFBV Wyden. A pesquisadora traçou um perfil dos idosos recifenses de alta renda e identificou os costumes e atividades preferidas desse público. 

Um questionário foi aplicado a 402 frequentadores do Parque da Jaqueira e da orla de Boa Viagem. De acordo com a pesquisa, os idosos que costumam ir a esses espaços públicos doa capital pernambucana têm, em média, 69 anos, são casados, com formação superior e renda média de R$ 6.266,68 por mês. Eles possuem casa própria (95,8%), plano de saúde (92,3%) e reservas financeiras (66,4%). A amostra refletiu que 70,6% dos entrevistados moram sós ou com os cônjuges e têm uma média de dois filhos. Esses idosos possuem acesso a lazer e preferem atividades como caminhar na praia ou parque (76,1%), assistir televisão (36,3%) e viajar (31,3%).  

A maioria dos cônjuges dos idosos que responderam ao questionário também têm 60 anos ou mais. Gozar de boa saúde é, segundo os recifenses entrevistados pela pesquisa, o primeiro requisito para viver sem filhos, outros parentes ou com acompanhantes. Cerca de 80% deles consideram ter ótima ou boa saúde e dizem ter tempo para lazer.  “A amostra representa apenas idosos de alta renda. Em função da escolha do nível de renda, eles não refletem a totalidade dos idosos da cidade do Recife. Por causa do lócus definido (locais de caminhada e prática de exercícios), só foram entrevistadas pessoas com bom nível de saúde e autonomia, isto é, idosos de alta renda que moram sozinhos, mas não gozam de boa saúde, não foram captados pela pesquisa”, esclarece Simone Gueiros. 

A ideia da pesquisa surgiu quando a avó da consultora de empresas morreu. “Ela viveu até os 100 anos. Refleti sobre a presença cada vez mais constante de pessoas idosas em todos os lugares. Para atender às demandas desse público, precisamos entendê-lo”, afirma. Táxis adaptados a pessoas com mobilidade reduzida, academias de ginásticas voltadas exclusivamente para os idosos e agências para a organização de eventos ou reuniões de amigos com 60 anos ou mais são algumas das necessidades desse público identificadas pelo estudo.

Moradora do bairro da Jaqueira, Zona Norte do Recife, a auditora aposentada Ieda Farias, 80, disse que, além de estabelecimentos voltados para os idosos, a cidade precisa de políticas públicas e calçadas melhores. Sem elas, as pessoas com 60 anos ou mais sequer chegariam aos locais desejados. “Saio de casa todos os dias. De segunda a sábado faço caminhada. Também faço pilates”, disse. Depois de ter ficado viúva, ela mora sozinha. Como Ieda, de acordo com Simone Gueiros, a maioria dos idosos que vivem só não o fazem por escolha. “No Recife, a maioria dos idosos que moram desacompanhados não porque optaram, mas por conjunturas, ou seja, motivados por um divórcio, porque ficaram viúvos ou porque os filhos saíram de casa”, pontuou. 

RECOMENDAÇÕES
Para tornar os países mais preparados para as pessoas mais velhas, a Organização Mundial da Saúde (OMS) – que contabiliza a existência de 900 milhões de idosos (12,3% da população mundial) atualmente e estima uma expectativa de vida global de 72 anos em 2050 – ressalta a necessidade de três principais mudanças: tornar as cidades em lugares mais amigáveis para os idosos; realinhar os sistemas de saúde às necessidades deles e desenvolver sistemas de cuidados de longo prazo para reduzir o uso inadequado dos serviços de saúde.

Um novo modelo de moradia

O envelhecimento da população leva a uma necessidade de repensar as formas de morar no Brasil. De acordo com a pesquisa Morando Sozinho na Terceira Idade, o cohousing (coabitação) é um modelo que se apresenta como opção viável de moradia para idosos do Recife. Consolidado na Europa e nos Estados Unidos, esse tipo de moradia, em que cada idoso mora em uma casa ou apartamento de um residencial adaptado à realidade deles, começou a entrar no radar do mercado imobiliário do Brasil há poucos anos. 

Concebido na Dinamarca na década de 1970, a moradia compartilhada ou cohousing refere-se a um conceito de morar em grupo. “A ideia é ter um conjunto de casas no mesmo entorno, com áreas comuns que aproximam os moradores. A terceira idade (senior cohousing) significa um recomeço para indivíduos ativos, com a possibilidade de continuar morando em sua própria casa com a vantagem de criar laços afetivos com os vizinhos, por conta da proximidade. O cohousing ainda reduz os custos para os idosos, pois eles podem dividir os serviços de manutenção de suas casas (jardineiro, empregada doméstica) e também os serviços pessoais (motorista, fisioterapeuta)”, explicou a consultora de empresas Simone Gueiros.

São Paulo é a referência nacional – com mais de dez habitacionais – em cohousing, que é semelhante aos condomínios convencionais, mas se diferencia por ter como objetivo prestar serviços específicos para esse público, estabelecer os vínculos afetivos entre pessoas e incentivar a troca de experiências. A convivência entre os moradores se dá nos espaços coletivos, como cozinhas comunitárias, biblioteca, jardim e lavanderia. Atividades em grupos e a colaboração entre os moradores são estimuladas. “É uma espécie de vilarejo privado, onde cada idoso ou casal de idosos possui sua casa individual, mas privilegia os espaços comuns para convívio, refeições, lazer”, pontuou Simone. No Recife, ainda não há habitacionais desse tipo.



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