Caso Aldeia 'Aguardo ansiosa que se faça justiça', declarou Jussara Paes em entrevista exclusiva ao Diario De dentro da Colônia Penal Feminina Bom Pastor, a farmacêutica Jussara Paes Silva Rodrigues falou, em entrevista ao Diario, sobre como era sua relação com o seu marido, o médico Denirson Paes Silva

Por: Rosália Vasconcelos

Publicado em: 27/08/2018 08:26 Atualizado em: 27/08/2018 08:45

Farmacêutica acusada pela morte do marido nega as acusações: 'Tiraram o meu chão'. Foto: Marlon Diego/Esp.DP
Farmacêutica acusada pela morte do marido nega as acusações: 'Tiraram o meu chão'. Foto: Marlon Diego/Esp.DP
De dentro da Colônia Penal Feminina Bom Pastor, a farmacêutica Jussara Paes Silva Rodrigues falou, em entrevista ao Diario de Pernambuco, sobre como era sua relação com o seu marido, o médico Denirson Paes Silva, 54 anos. Seu corpo foi encontrado esquartejado e jogado dentro da cacimba da residência do casal, no Condomínio Torquato Castro, no km 12 da Estrada de Aldeia, no município de Camaragibe, Região Metropolitana do Recife. Jussara e seu filho mais velho, o engenheiro civil Danilo Paes, 23 anos, são os principais suspeitos do homicídio triplamente qualificado (por motivo fútil, sem possibilidade de defesa da vítima e por meio insidioso ou cruel), conforme apontam as investigações. O inquérito policial será concluído até o dia 4 de setembro, data em que encerra o período da prisão temporária de mãe e filho, solicitada pela Polícia Civil de Pernambuco (PCPE). A partir daí, a Justiça pode ou não pedir a prisão preventiva de Jussara e Danilo, já que para a polícia não restam mais dúvidas sobre a autoria do crime. Na prisão, Jussara nega as acusações e diz que ela e o marido não iriam se separar. Confira.

 Após o cancelamento da viagem para Miami, que a senhora faria com Denirson, o que a senhora fez nos dias 29/05/18 e 30/05/2018? Poderia explicar com detalhes quais atividades a senhora fez nesses dois dias?
No dia 29/05/2018, fui trabalhar no Hospital Barão de Lucena e, no final do expediente, passei na Loja Golfinhos, na (avenida) General Polidoro (Cidade Universitária) para pegar um vestido que havia deixado com a proprietária Neide para consertar o zíper. Depois fui para casa, chegando por volta das 20h20, 21h, devido ao enorme engarrafamento por conta das filas nos postos que já estavam grandes pelo boato que iria faltar gasolina devido à paralisação dos caminhoneiros. No dia 30/05/18, pela manhã, fui ao apartamento no km 07 de Aldeia, a pedido de Denirson, para acompanhar a organização do apartamento que estávamos mobiliando. Chegando lá, não consegui abrir a porta e daí chamei o funcionário (porteiro/zelador), que tentou abrir e percebeu que havia uma chave por dentro. Quando perguntamos se havia alguém, Denirson abriu a porta e me disse que voltou do caminho onde tentava chegar no Consultório Médico Vida e Saúde, situado em Prazeres (Jaboatão dos Guararapes). A secretária o avisou que não haveria atendimento porque a Avenida Recife e as proximidades do consultório estavam interditadas por conta da paralisação dos caminhoneiros. Após conferir e revisar todos os cômodos do apartamento, voltei para casa e Denirson ficou esperando uma confirmação da secretária do consultório de Camaragibe e São Lourenço da Mata. Ele retornou para casa por volta das 14h. 

Quando você se deu conta de que o seu marido, Denirson Paes Silva, teria sumido? E quais foram suas primeiras providências?
Era hábito de Denirson acordar cedo devido aos compromissos de trabalho. No dia 31/05/2018, ele me acordou por volta das 5h e falou que ia até o apartamento do km 7 e já ficaria para a viagem de Miami, porque não havia mais Uber circulando e provavelmente receberia uma geladeira e uma máquina de lavar, que já estavam com a entrega em atraso. Uns três dias antes da prevista viagem, ele me disse que pretendia se estender até a Rússia para a Copa do Mundo. Ansiosa por notícias, vi que sua última visualização no Whatsapp foi às 12h38 do mesmo dia. Fizemos, eu e meus dois filhos, várias tentativas de contato pelas redes sociais sem nenhum êxito. Já havia viajado sozinho, mas nunca passou tanto tempo sem dar notícias. A cada dia só aumentava a nossa angústia, saudade e ansiedade. Conversando com Zefinha (empregada doméstica), ela disse: relaxa, que ele me falou que de Miami iria para a Bahia passar uns dias com seus pais. Liguei desesperada para a sua irmã (Cleonice), em Petrolina, no dia 18/06/18 para saber se ele estava fazendo contato com ela ou com meu sogro. Ela disse que com ela não, mas procuraria saber de seu pai. Pedi a ela encarecidamente que viesse urgente pro Recife. Veio no dia seguinte e inclusive falei com o seu filho (de Cleonice) Francisco Neto para me orientar por onde começaria a busca. Não queria expor sua imagem antes do dia 30/06/2018, data do provável retorno de Denirson. Francisco Neto disse: “Não tia, não espere mais e vá logo numa delegacia mais próxima e depois no consulado para saber se ele embarcou.” No dia 20/06/18, chamei minhas amigas Márcia e Cleonice e fomos primeiro no apartamento confirmar se sua mala estava lá e a maleta onde ele guardava o passaporte. Só encontramos a maleta com o passaporte e nos dirigimos imediatamente para a Delegacia de Camaragibe. Registrei o Boletim de Ocorrência e a delegada Dra Carmen Lúcia foi muito prestativa e se empenhou muito para tomar as providências. Pediu para eu me acalmar e aguardar até o dia 30/06/2018, já que havia essa possibilidade do retorno como ele colocou. E após essa data, divulgaria sua foto como desaparecido. Aguardo ansiosa que se faça justiça e cheguem nos verdadeiros assassinos. 

Denirson tinha o costume de viajar ou sair sozinho sem dar satisfação à família? Em quais ocasiões ele já teria feito isso?
Viajou para o exterior por duas vezes sozinho, avisando a família de véspera. Primeiro foi à Argentina e depois a Nova York. Nas duas viagens, informou a data de ida e de volta e fez contato com os familiares durante toda a viagem. 

Sobre as acusações da Polícia Civil de Pernambuco, de que você e seu filho mais velho Danilo Paes teriam praticado o homicídio contra Denirson, o que você tem a dizer?
Estamos indignados. Uma acusação sem fundamentos. Por que eu e meu filho mais velho fomos acusados? Convivendo com Denirson há 40 anos, por que só agora cometeria tamanha barbárie com ele e com meus próprios filhos? Acredito que se fará justiça e tudo será esclarecido e seremos inocentados dessas falsas acusações. 

Denirson tinha inimigos? Quem?
Até então, acreditava que não. Apesar de ser muito introvertido, era muito querido por todos que conviviam com ele, principalmente por seus pacientes, pelos vizinhos e minha família. Mas de certeza o jogaram na cacimba da minha casa para me incriminar. 

Você desconfia quem poderia ter matado Denirson e jogado os restos mortais na cacimba da casa da família em Aldeia?
Desconfio sim, e com certeza com o resultado da perícia, a polícia (Justiça) chegará nos verdadeiros assassinos.

Você lembra a data exata em que chamou Egnaldo para fechar as frestas da cacimba? Quando foi e por que você pediu que ele fizesse esse serviço?
Egnaldo foi chamado no dia 12/06/2018. O serviço foi feito porque a casa vizinha, uma construção inacabada e abandonada há cerca de oito anos, estava infestada de escorpiões, ratos, caracóis, ovos de moluscos, entre outros animais. Estavam migrando para minha casa. Inclusive fiz uma carta (comunicação) por escrito para a administração do condomínio em 28/05/2018. 

Você lembra a data exata em que chamou Zezinho para colocar pedras frias na cacimba? Quando foi e por que você pediu que ele fizesse esse serviço?
Sr. Zezinho colocou as pedras frias no dia seguinte (13/06/2018). Egnaldo o indicou porque não sabia fazer o serviço. Denirson estava guardando essas pedras há alguns anos e como estávamos tirando os entulhos das proximidades da casa abandonada, ele me pediu para colocar na cacimba para ficar com a mesma decoração (design) do passeio do jardim e chuveirão próximo à piscina. 

Por que você deu folga para Zefinha e Emanoel entre os dias 29/05/2018 e 31/05/2018?
Conforme registro num caderno de frequência providenciado por Denirson, Zefinha tinha folga fixa nas quartas-feiras e nos domingos. Trabalhou normalmente em 29/05/18. A princípio, tínhamos combinado para ela vir na quinta-feira (31/05/18), no feriado de Corpus Christi e, posteriormente, tiraria uma folga. Mas ela ligou avisando que já não havia ônibus circulando por falta de gasolina em decorrência da paralisação dos caminhoneiros e não tinha como chegar na minha residência. Emanoel (Júnior/Jardineiro) só trabalhava na minha residência nas segundas e quintas-feiras (de 7h às 11h). No dia 31/05/18, foi feriado de Corpus Christi, mas ele disse preferir vir e eu pagaria como um expediente extra, porque ele trabalhava em outros jardins, não podendo vir em outros dias. Como tinha uma folga referente a um dia que se estendeu para ajudar a paisagista Sarah, há mais ou menos uns 30 dias, mandei uma mensagem pelo Whatsapp na quarta-feira à noite que era melhor ele tirar logo essa folga. Emanoel agradeceu e informou que já estava sem gasolina na sua moto. Para minha surpresa, soube através de meu advogado que Egnaldo, Emanoel e José Antônio (Zezinho) retificaram seus depoimentos numa acareação realizada no dia 07/08/2018. Os três afirmando que estiveram em minha residência nos dias 31/05/2018 e 01/06/2018, no horário da manhã. Como era feriado no dia 31/05/2018, meus filhos acordaram depois de meio- dia e eu acordei por volta das 10h, 10h30. Na sexta, dia 01/06/2018 me acordei cedo como era de hábito e não chamei ou autorizei a entrada de nenhum deles nesse dia. 

Você e Denirson se conhecem desde criança, segundo informações de parentes e familiares em comum do casal. Como foi a dinâmica da relação de vocês ao longo desses anos e como estava a relação de vocês no último ano?
Sim, somos da mesma cidade da Bahia. Ele veio muito novo, acho que aos 13 anos, estudar em Petrolina, e depois veio cursar Medicina (UFPE) aqui no Recife. Nem o tempo e a distância nunca nos separou. Eu comecei meu curso em Salvador e conclui aqui (UFPE). Nos casamos em 28/02/1988, ainda estudantes. Quando ele concluiu o curso, entrou no Hospital do Exército e conseguiu por força de lei minha transferência para Recife. Não tenho como dimensionar o amor que nos uniu por 40 anos. Até que um (uns) monstro(s) interromperam de maneira tão cruel essa união. Estou destruída. Não só eu. Destruíram três famílias. Como citado na primeira frase dessa pergunta, nos conhecíamos desde criança e os laços de amizade eram fortes entre nossas famílias. Como todo casal, é impossível não haver alguma desavença ou discordância em algum momento da relação, mas nada que abalasse o nosso casamento. Ultimamente (nos últimos três meses), antes dele partir, percebi que estava mais ansioso, confuso, como se alguém o tivesse pressionando por algum motivo. Foi quando ele decidiu que quando voltasse da viagem de Miami, iríamos nos mudar para o apartamento do km 7 em Aldeia e fazer a reforma de nossa casa, que já estávamos programando há um certo tempo. Mas como já o conhecia muito bem, esperei o tempo dele. Muito difícil ter controle emocional nesse momento. E dói muito mais só em pensar que ele já não está entre nós e ainda ser acusada junto com nosso próprio filho (cópia fiel do pai na personalidade, caráter, fidelidade, etc). Só me resta rezar pela alma dele e por toda a família. 

Como era a sua relação com a família de Denirson?
Nossa família mora na mesma cidade na Bahia e, como em toda cidade pequena, todos se conhecem. Nunca tive problema com eles. São muito reservados e sempre foi uma relação de muito respeito, principalmente pelo meu sogro e sogra. Dos irmãos, tinha mais afinidade com Cleonice, que mora em Petrolina. 

O seu advogado Alexandre Oliveira desconfia da participação do jardineiro, do porteiro, da empregada e do pedreiro na morte de Denirson? Você acredita que eles possam ter matado Denirson? E por que fariam isso?
As coisas agora estão clareando na minha mente. Prefiro ficar calada nesse momento. A verdade virá. 

Como está sendo sua vida dentro da Colônia Penal Feminina Bom Pastor? 
Um verdadeiro pesadelo. Estou presa injustamente, mas acredito que vão chegar nos verdadeiros assassinos e vou provar minha inocência e do meu filho.

Seu filho mais novo, Daniel, já chegou a visitar você e Danilo? Caso ele não tenha ido, por que você acha que ele não foi?
 
JP - Não veio ainda nos visitar, mas meu amor por ele é incondicional assim como o de Danilo. E tenho certeza que a recíproca é verdadeira. Sei que está sofrendo junto conosco e o perdoo por qualquer atitude e o amarei sempre, independente de qualquer coisa. Peço a Deus todos os dias nas minhas orações por ele e por nossa família. Tenho certeza dos seus sentimentos e amor por nós e que a sua só difere da nossa, ou está mais amena, pelo fato dele estar em liberdade. Mas tenho fé que em breve nos abraçaremos intensamente como fazíamos antes de tirarmos o nosso chão. Logo direi porque ele ainda não veio nos visitar. 
 
Você gostaria de fazer alguma denúncia contra a Colônia Penal Feminina ou contra alguma autoridade policial, de alguma coisa que você possa ter sofrido nesses dois meses de investigação?
 
JP - No momento não. Só queria saber por que a acusação sobre o assassinato de meu marido caiu sobre meu filho e eu? Que provas existem sobre nós?

Você sabe dizer quem derrubou a casinha de ferramentas de Denirson? E por que teria feito isso?
 
Não era casinha. Eram duas divisórias fechadas na lateral, com muitas infiltrações. Na quarta-feira (30/05/2018), como Denirson não teve ambulatório (já explicado anteriormente na pergunta de número 1), chegou em casa por volta das 14h com o pedreiro Edson e retirou as divisórias. Por volta das 17h30, fui até o local e perguntei se já estava terminando, porque o condomínio só permite fazer qualquer serviço até as 17h. Eles colocaram parte do material dentro do canil e o restante que não para ser reutilizado deixou para o jardineiro desprezar, como pedaços de cano, calhas antigas, barras de ferro que eram de umas grades antigas, etc. Isso foi feito porque já estávamos tirando todos os entulhos dessa área que ficava próxima à construção inacabada (vizinha), devido ao acúmulo de ratos, escorpiões, baratas, entre outras. 
 
Quando a polícia encontrou os primeiros restos mortais de Denirson na cacimba da casa de vocês em Aldeia e gritou 'corpo', você orientou seus dois filhos a ficarem calados. Por que você fez isso?
 
JP - Isso é calúnia, não procede. Eu estava na sala com meu filho mais velho, minha irmã, Zefinha e dois agentes policiais, entre outros. O meu filho mais novo estava no trabalho desde as 8h. Não houve grito 'corpo'. Alguém avisou que tinha restos mortais na cacimba e o meu filho mais velho entrou literalmente em choque, sem querer acreditar. Ele me abraçou e choramos juntos no sofá. 
 
Nos primeiros depoimentos, você e Danilo usaram o direito constitucional de permanecerem calados. Você acha que essa atitude pode ter levantado a suspeita contra vocês? Por que decidiram permanecer calados?
 
JP - Como falei anteriormente, tínhamos acabado de receber a notícia de que poderiam ser os restos mortais de Denirson que estavam na nossa cacimba. Não queria acreditar que isso fosse verdade e muito menos que nós seríamos acusados. Repito: jamais faríamos isso e estávamos em choque. Somos inocentes e acredito na justiça e nos tiraram até o direito de viver o luto de meu marido. Eu já tinha ido à delegacia umas três vezes, me comunicava também por telefone com Dra Carmem Lúcia. Ele foi à minha residência e sempre me coloquei à disposição das autoridades policiais. Conversamos muito na minha casa. Decidimos permanecer calados porque foram feitas as mesmas perguntas que já tinham feito anteriormente e estávamos num momento de muita dor. 
 
Você tem sentido falta de Denirson? Como você se sente hoje em relação a tudo?
 
JP - Muita falta. Apesar das acusações de ser pirangueiro e às vezes discordamos por questões financeiras, foi assim que aprendi a conviver com ele e aceitar e respeitar o seu jeito de ser. O amarei eternamente. Depois de 40 anos seguidos de convivência, como não sentir muita saudade e muita falta de Denirson? Pra mim, ainda é um pesadelo que vou acordar a qualquer hora e ter minha família inteira de volta. Tiraram o meu chão. Eu sou um ser humano normal com sentimentos e transbordava alegria por onde passava. E com um coração que ainda pulsa, mais pela vontade de estar perto pelo menos dos meus filhos, amigos e minha família, já que tiraram Denirson de forma tão cruel e covarde de nós. 
 
Você se arrepende de alguma coisa entre a relação de vocês?
 
JP - Arrepende? Como assim? Vivemos momentos intensos, felizes e maravilhosos e só queria que ele ainda estivesse comigo para realizarmos e concluirmos nossos planos que o mesmo já fazia, passando por uma aposentadoria num lugar tranquilo até a curtição da nossa velhice juntos ao lado de nossos filhos e netos
 


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