Vida Urbana

Várzea, celeiro de talentos da robótica

Alunos da Unidade de Tecnologia na Educação para a Cidadania Gregório Bezerra têm destaque mundial

Alunos da escola municipal da Várzea representaram o Brasil na disputa que aconteceu em Leipzig, na Alemanha. Foto: arquivo/DP

Uma sala de 40 metros quadrados de um casarão na Rua Amaro Gomes Poroca, nos arredores da Praça da Várzea, é o QG de estudantes do ensino fundamental da rede municipal de ensino. Quando a campainha anuncia o fim das aulas, meninos e meninas de 11 a 17 anos correm para a Unidade de Tecnologia na Educação para a Cidadania (Utec) Gregório Bezerra. Lá, passam horas programando, criando robôs e estudando conceitos de física e matemática. A unidade da Prefeitura do Recife é ainda o celeiro da robótica na educação pública da capital pernambucana. A equipe da unidade da Várzea foi a que chegou mais longe em campeonatos internacionais, levando o nome do Recife para a Ásia e Europa.

Em 2016, o grupo da Escola Municipal Rodolfo Aureliano, que treinou na Gregório Bezerra, conquistou o oitavo lugar na RoboCup, disputa mundial de robótica. Os alunos representaram o Brasil na disputa que aconteceu em Leipzig, na Alemanha. O time terminou a competição em oitavo lugar, atrás apenas de países como a campeã China, Hungria, Japão, Croácia, Estados Unidos, Indonésia e a anfitriã Alemanha. Os campeões da Várzea disputaram com outras 24 equipes no nível 1, que engloba estudantes de até 15 anos.

Batizada de Lego Kombat, a equipe dos oitavos melhores estudantes de robótica do planeta era composta pelos alunos Maria Eduarda Barbosa, Paulo Poan e Miguel Silva, que estudavam no 7º e 8º ano da Escola Rodolfo Aureliano, e por Maryllia Willyane Félix, ex- aluna da escola que fez parte da equipe campeã da Olimpíada Brasileira de Robótica de 2015. 

No ano seguinte, os alunos da Utec somaram mais uma conquista internacional ao currículo. Disputando com 37 equipes de outros 30 países no nível 2, voltado para estudantes de até 18 anos, a equipe de robótica se consagrou a melhor das Américas e ficou entre as oito melhores do mundo na RoboCup, em edição realizada na cidade de Nagoya, no Japão. A equipe Robotec GB foi a única representante brasileira a disputar a RoboCup 2017 na modalidade Resgate, com robôs feitos com blocos de encaixe da Lego. 

O desafio foi montar os robôs em forma de carro e programá-los no computador para que realizassem uma trajetória repleta de obstáculos, em que precisam resgatar os objetos determinados, no menor tempo possível. Entre os países americanos, a equipe obteve a melhor colocação, ficando à frente de países como Estados Unidos e Canadá. O time campeão de 2017 era formado por Paulo Poan; Isaías Silva Filho; Maria Eduarda Oliveira; Ryan Vinícius Morais; Tiago Roberto dos Santos; Estêvão Pereira; Miguel Santos e Silvestre Lima. 

Criado em 2014, o programa Robótica na Escola tem colocado o Recife como destaque nacional e internacional de robótica. A Secretaria de Educação investiu R$ 32 milhões no programa, que atende mais de 74 mil estudantes, desde as crianças da educação infantil até os alunos do 9º ano do ensino fundamental. “A Utec é responsável por formar e dar suporte aos professores que atuam com robótica nas escolas. É também o lugar onde os alunos da região (Várzea e arredores) treinam para as competições”, explica a diretora da Unidade de Tecnologia na Educação para a Cidadania Gregório Bezerra, Cristina Brito.

 
10 benefícios da robótica
 
1. Demonstração prática de conceitos científicos
Vários conteúdos podem ser detalhados com a robótica. O aluno manuseia, constrói, vê as ocorrências. Se o aluno estiver aprendendo noções de força, movimento e aceleração, poderá entender na prática o que isso significa.

2. Desenvolvimento das habilidades mentais
O aluno é incentivado a usar o raciocínio lógico, a atenção, o poder de concentração e a observação, uma vez que é exigida atitude sobre a construção. Questões para chegar a um objetivo estimulam raciocínio.

3. Desafio de criar e ser flexível
O estudante é desafiado a criar. Ele terá de encontrar soluções para os problemas que surgem na aula, desde aqueles de ordem prática aos mais complexos, como qual é a estrutura adequada para suportar o balanço de uma gangorra, por exemplo.

4. Aprimoramento da coordenação motora e manual
O aluno trabalha com as mãos e os olhos o tempo inteiro. São dezenas de peças separadas por tamanho, cor e função. Para chegar a essa classificação, ele tem de desenvolver um método de organização.

5. Incentivo às capacidades de projetar e planejar
Antes de realizar um projeto, os professores definem o que se pretende alcançar, selecionam o material necessário e pensam nas condições para a realização, levando em conta tempo, espaço e recursos disponíveis.
 
6. Interesse pela imaginação
Os projetos da aula de robótica podem ser criados a partir das ideias e histórias dos alunos. Se um aluno montou algo parecido com uma montanha-russa, por exemplo, pode ser o suficiente para o grupo criar um parque de diversões.

7. Aprendizagem em trabalhar em equipe
Com a robótica, o aluno é incentivado a trocar experiências. Os projetos são quase sempre realizados em pequenos grupos, fortalecendo as relações interpessoais, o respeito ao trabalho e às ideias do outro, bem como a cooperação.

8. Entendimento dos próprios limites
O aluno aprende a testar os próprios limites, a conviver com as diferenças e a aprender com elas. Ao transmitir confiança em si mesmo, o professor ajuda o aluno a lidar com os desafios inerentes ao processo de construção dos projetos.

9. O valor da paciência e da disciplina
O projeto de robótica é normalmente pensado em fases que exigem tarefas resolvidas uma após a outra. Faz-se necessário, portanto, ter disciplina e entender que não se deve pular etapas na construção dos projetos.

10. Desenvolvimento da metacognição
O aluno ganha a percepção do próprio processo de aprendizagem (metacognição). Orientado, ele consegue perceber os grandes desafios, assim como caminhos e recursos que tem à disposição para ter êxito nas tarefas.
Fonte: Robótica na Escola 
 
Disciplina é a mais disputada pelos estudantes
 
A conquista de prêmios nacionais e internacionais por alunos da rede pública de ensino do Recife despertou nos estudantes o desejo de também serem campeões em robótica. Mesmo sem integrar os grupos que participam da disputa, meninos e meninas de todas as idades lotam a sala de treinamento da Unidade de Tecnologia na Educação para a Cidadania (Utec) Gregório Bezerra para aprender como programar e a construir robôs.

É o caso de Ian Cordeiro, 11 anos. Aluno do sexto ano na Escola Municipal Rodolfo Aureliano e morador do bairro da Várzea, ele vai até a unidade quando larga do colégio. Não tira a farda nem faz um lanche. Prefere estar com os colegas no clube de robótica. “Fico aqui programando porque tenho vontade de participar de uma competição”, diz. 

A diretora da Utec, Cristina Brito, brinca ao mostrar a empolgação dos estudantes no local. “Se a gente abrir sábado, quem vem?”, perguntou aos estudantes que lotavam a sala. Todos levantaram as mãos, empolgados. “Estão vendo? Se a gente colocar colchões eles dormem aqui”, diz a gestora. 

Um ano depois de o programa Robótica na Escola ser implementado nas escolas públicas, os alunos da rede municipal do Recife foram campeões da Olimpíada Brasileira de Robótica (OBR), em novembro de 2015, em Uberlândia, Minas Gerais. “Essas conquistas trazem benefícios não só para as equipes vencedoras, mas para todos os estudantes da rede. Eles se sentem capazes, estimulados. A autoestima de todos aumenta e isso é refletido no desempenho deles na robótica e na escola de maneira geral”, pontua a diretora. 

A robótica pode ter várias aplicações no campo da educação e da aprendizagem do aluno. Pode ser usada para aprender processos de construção de produtos robóticos simples, habilidades, atitudes e valores relacionados ao planejamento e execução de tarefas em grupo, pesquisa e investigação de soluções simples para os problemas encontrados nos robôs criados.

Além disso, é uma ciência que envolve diversas áreas do conhecimento, como a mecânica, a eletrônica, a computação, a física e a matemática. Assim, é possível aprender conceitos dessas áreas de forma contextualizada com a compreensão dos equipamentos elétricos e eletrônicos.

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