Diario nos Bairros Dona Maria do Carmo, orgulho e alegria no bairro da Várzea Aos 82 anos, ela é homenageada do 9º Festival de Inverno da Várzea, o FIV

Por: Silvia Bessa

Publicado em: 17/08/2018 07:00 Atualizado em: 17/08/2018 07:06

Imagem: Peu Ricardo/DP
Imagem: Peu Ricardo/DP

Dona Carminha gosta tanto de dançar que dormiu casada, acordou viúva e foi curar um luto balançando a saia na Praça da Várzea. É bem verdade que estava separada de fato há dois anos do cidadão, mas o rótulo ainda a acompanhava. “Soube não, Carminha? Você agora é viúva”, disse-lhe uma vizinha na ocasião. Um mês depois de receber a notícia da morte repentina do ex-companheiro, veio o Carnaval. “Botei uma roupa por cima da outra, avisei ao pessoal de casa que ia resolver uma coisa e fui dançar. Dancei tanto que esqueci”, contou ela. “Você acha que eu ia ficar atrás de defunto?”, lança a pergunta, tendo ela própria dado a resposta e a solução. Não era a primeira vez que esta senhora de alma brincante pregava peça para sanar o desejo de balançar o corpo esbelto e divertir-se como se não houvesse amanhã.

Teve uma sexta-feira dessas que acontecia a tradicional Missa de São Félix, no Centro do Recife. Devota católica, daquelas chamadas pelo nome por padres, ela assistiu à missa com atenção. Não foi culpa de Carminha, mas calhou de, do lado de fora da Basílica da Penha, tocar o Hino da Pitombeira, puxado por um bloco itinerante. “Se a turma não saísse, não havia carnaval…”. Logo este hino. “Eu tinha ido para a fila da comunhão. Um homem que eu nunca vi na vida comentou que estava ‘abalado’. Eu respondi: ‘Olha meu coração”. Conclusão, a gente foi embora. Só paramos na Avenida Dantas Barreto”, relata Maria do Carmo de Souza, 82 anos e 11 meses de formosura. 

Carminha é uma espécie de moradora símbolo do bairro. Para se ter uma ideia do quanto: basta dizer que será homenageada da 9ª Edição do Festival de Inverno da Várzea, que acontecerá dias 24 e 25 de agosto (veja matéria abaixo). Deferência grande porque a Várzea é um bairro de efervescência cultural, que tem autoestima elevada e no qual os moradores gostam dessa sensação de pertencimento. “O problema da Várzea é o Brasil”, diz um dito popular local. Para chamarem Carminha, é merecido.

“Ela não pode escutar uma batida de lata que está se remexendo”, diz a sobrinha Karina Silva, professora de ritmos, que dá aulas duas vezes na semana na praça do bairro. “Claro que Carminha vai”, completa ela. Sem tocar em uma gota de álcool (“Nunca bebi”, afirma a senhorinha) , ela dança até o sol raiar à beira dos palcos montados para manifestações. “Quando sabe que tem festa, chega duas horas antes”. Seja na Praça da Várzea ou nas programações culturais do Recife Antigo. “A gente brinca dizendo que Carminha é muito andeja”, diz Karina.

Dança de um tudo, do rock à ciranda; tem preferência por coco e maracatu. “Danço agarradinho, mas prefiro sozinha”, afirma para levantar-se e dar uma demonstração da sua habilidade com os pés. A atração pela música vem de muito tempo: “Desde que eu tinha 5 ou 6 anos de idade”. Nesta época, morava no município de Carpina. Aos 18, chegou com o pai, um operário da fábrica de Brennnad. Trabalhou como doméstica e lavadeira. Nunca teve filhos.

É lúcida, ativa e tem autonomia para se deslocar, de ônibus ou a pé. Pela Várzea, Carminha caminha com frequência desde que pegava a “beliscada”, um ônibus fechado que circulava para transportar moradores em dias de feiras livres. Isto, diz ela, na época que não havia violência. Conhece muita gente, de comerciantes antigos a seus filhos, que hoje cuidam das lojas na área mais movimentada.

Vai à missa com frequência - tem roupas amarelas e azuis para datas de santos específicos, gosta de visitar as amigas idosas enfermas que não se deslocam mais. “Adoro conversar com as pessoas”. E faz programações de viagens o ano inteiro. No próximo mês, vai para o Ceará, para o Juazeiro do Norte, com um grupo de romeiros pela 40ª vez na vida. Não é cansativo para a sua idade, dona Carminha?, pergunta-se. “Não, é muito divertido”, responde a senhorinha.

A vida de Carminha é uma festa, para a qual ela se arruma (“Tem horas que fecho mesmo”) com roupas coloridas ou com terninhos e colar de pérolas. “Só paro porque as meninas ficam me chamando para voltar”, diz Carminha. 
 
Festival de Inverno como resistência
 
Se Garanhuns tem o FIG, a Várzea tem o FIV. E já está na nona edição. O Festival de Inverno da Várzea (FIV) 2018 acontecerá sexta-feira e sábado da próxima semana (dias 24 e 25 de agosto). Com entrada franca, realizado na Praça da Várzea, tem uma programação com música, teatro, arte de rua e artesanato, sob o tema Cultura e resistência.  O patrocínio para realizá-lo foi colaborativo, em dinheiro ou em estrutura para montar os shows. Não houve editais institucionais e contou com parceiros. 

“A grande maioria dos apoiadores é formada por comerciantes do bairro e da cidade”, explica João Ricardo Sousa, professor e um dos responsáveis pela organização do FIV, integrante do Coletivo Magitot Casa Noble. “Precisamos nos unir em torno de produções deste tipo, em que artistas, público, produtores e comerciantes se juntam para movimentar a cadeia da música e do comércio em geral”, diz ele, orgulhoso de ser varzeano e da característica “vanguardista” do bairro onde mora no que se refere à cultura. 

A programação do FIV deste ano para a sexta-feira a partir das 16h conta com a participação de Duofrevando, Orquestra e Coral Levino Ferreira, Isaar, Ylana Queiroga e Coco Raízes de Arcoverde, entre outras atrações. No sábado, também a partir das 16h, são quinze atrações como Aurinha do Coco, Cultura Urbana, Carranza e Mangueboys. O FIV tem uma página no Facebook onde dispõe de toda a programação. 


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