Comportamento Pesquisa mostra que pessoas depressivas adotam categorias de consumo identificadas com a doença A taxa total de depressão encontrada foi de 26,1%, o que é um dado significativo ao se considerar que a amostra foi composta majoritariamente por jovens entre 25 e 30 anos e estudantes

Publicado em: 16/08/2018 11:20 Atualizado em: 16/08/2018 11:31

Imagem: Pixabay
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Como um transtorno de humor que afeta milhões de pessoas no mundo, a depressão já foi estudada nos seus mais variados aspectos; seja quanto a causas, sintomas e impactos, ou sob os enfoques psíquico, social e profissional. Mas um estudo recente inovou ao traçar um comparativo entre o comportamento de consumo das pessoas acometidas pela doença no Brasil e na Alemanha e verificar que há categorias de consumo diretamente relacionadas à depressão, independentemente do país analisado. “Nessa relação, o Brasil possui maior índice de depressão, já os alemães consomem mais hedonisticamente”, afirma Daniela Gomes Alcoforado, autora da dissertação “Depressão e Hábitos de Consumo: um Estudo Cross-Cultural entre Brasil e Alemanha”, defendida no Programa de Pós-Graduação em Administração da UFPE (Propad).

No estudo, orientado pelo professor Francisco Vicente Sales Melo, a autora aplicou questionários em 1.627 indivíduos, sendo 868 do Brasil e 759 da Alemanha, e constatou que mulheres, desempregados, bissexuais, além de indivíduos não-religiosos, endividados e de menor escolaridade possuíram maior tendência depressiva, tanto em um como no outro país. Para analisar a relação entre o transtorno depressivo e os hábitos de consumo, Daniela adotou o método de Pesquisa Transformativa do Consumidor (PTC), na qual se busca contribuir para o bem-estar e qualidade de vida daqueles cuja doença afeta o consumo e vice-versa, ou seja, quando o consumo interfere na doença. “Não podemos perder de vista que, apesar de possuir um distúrbio psíquico, um indivíduo depressivo continua desenvolvendo atividades no trabalho e participa de situações que envolvem o consumo cotidianamente”, destaca.

A prática de fazer compras em busca de prazer imediato, segundo a autora, foi utilizada pelos depressivos, sobretudo na Alemanha, como forma de escape à rotina diária e para esquecer problemas pessoais. Esse tipo de consumo se materializa, por exemplo, na aquisição de cigarros, medicamentos, drogas ilícitas, jogos eletrônicos e comidas não saudáveis. Em paralelo, aponta a pesquisa, “esses pacientes engajam-se menos em modalidades de entretenimento ou sociabilidade e praticam menos atividades físicas”. E, justamente por ter identificado que indivíduos com algum nível de depressão possuem especificidades comportamentais que os diferem de um consumidor sem depressão é que o trabalho elenca as práticas de consumo cotidianas desses pacientes. A ideia de Daniela foi propor políticas públicas que promovam mudanças de hábitos para afetar positivamente o bem-estar deste perfil de consumidor.

DADOS - A taxa total de depressão encontrada foi de 26,1%, o que é um dado significativo ao se considerar que a amostra foi composta majoritariamente por jovens entre 25 e 30 anos e estudantes. A amostra coletada, tanto no Brasil, quanto na Alemanha, possuiu maiores médias em itens relacionados à falta de ânimo, o que pode retratar a realidade enfrentada pelos respondentes em sua vida cotidiana. Como quase 80% da amostra total foi composta por estudantes, a falta de satisfação e fatiga podem ser consequências de uma rotina exaustiva que envolve estudos, trabalho e, principalmente na Alemanha, competitividade, o que pode levar a irritabilidade, retraimento social e perda de libido. No entanto, a depressão foi mais explicada por atitudes negativas, como pessimismo, sensação de fracasso, ódio próprio, autoacusações, desejos autopunitivos, tristeza e sentimento de culpa, algo que já era esperado pela autora.

A pesquisadora constatou que os brasileiros são mais depressivos e endividados que os alemães − “sendo o endividamento associado às políticas de crédito ofertadas pelas empresas e pelo Estado, enquanto que na Alemanha se prioriza o pagamento em espécie”, avalia. E, como explicação, Daniela atribui a maior incidência de depressão no Brasil ao fato de o país ter maior parcela da população desempregada e com menor escolaridade em relação à Alemanha. “Além disso, maior desigualdade social também tende a afetar o humor das pessoas, no momento em que o indivíduo brasileiro, envolto em uma sociedade coletivista, se compara com o outro e percebe tudo que não está ao seu acesso“, complementa. Em comum entre o Brasil e a Alemanha figuraram os hábitos de consumo de pessoas depressivas, que estão relacionados com comidas não saudáveis, cigarros, drogas ilícitas, psicofármacos e jogos eletrônicos. 

Para a pesquisadora, as conclusões do estudo indicam que o conhecimento dos hábitos de consumo dos indivíduos com depressão pode tanto ter um papel de identificação, quanto de atuação. Como exemplo ela avalia que “ao serem descobertas modalidades de esporte menos praticadas pelos depressivos, saber-se-á que elas talvez não sejam muito indicadas para essas pessoas”. Além disso, pontua Daniela, “um indivíduo solitário, envolvido em jogos eletrônicos, até durante a noite, jogando principalmente jogos de ficção, RPG ou simuladores de vida pode possuir algum indício do transtorno e, nesse contexto, algumas recomendações práticas podem ser dadas aos diversos stakeholders envolvidos na temática da depressão”.
Iniciativas que podem reduzir índices da doença

A autora da dissertação “Depressão e Hábitos de Consumo: um Estudo Cross-Cultural entre Brasil e Alemanha”, Daniela Gomes Alcoforado, recomenda algumas práticas que podem ser adotadas tanto por órgãos públicos, quanto por organizações não governamentais ou privadas e famílias que possuam membros com algum diagnóstico de depressão:

* Acompanhamento psicólogo ou suporte psiquiátrico a indivíduos desempregados;
* Incentivo ao engajamento de indivíduos depressivos em atividades aeróbicas;
* Incentivo ao engajamento de indivíduos depressivos em atividades externas de entretenimento, como praias, praças e outros meios sociais;
* Fornecimento de alimentos saudáveis a indivíduos com algum nível de transtorno depressivo;
* Campanhas que alertem sobre o impacto do fumo e do uso de drogas ilegais na saúde mental;
* Campanhas que alertem sobre os riscos do mau uso de psicofármacos ou medicamentos que podem causar distúrbios psíquicos; e
* Engajamento de instituições religiosas na temática da depressão.


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