Vida Urbana

Estudantes da Zona Norte vão para a escola de barco

Travessia de uma margem a outra do Capibaribe reduz um percurso que seria de 2,4 km de carro para menos de 200 metros pelo transporte fluvial

Alternativa para chegar à escola com maior rapidez, o Rio Capibaribe é uma  via de locomoção para estudantes de colégios das avenidas Rui Barbosa e Rosa e Silva. Moradores do bairro da Torre, alunos do Damas, Marista, São Luís, Núcleo e Nossa Senhora de Lourdes usam um “atalho” para atravessar da Rua Frei Jaboatão para a Avenida Rui Barbosa. O percurso, que seria de 2,4 km se fossem de carro, encurta para menos de 200 metros ao escolher o transporte fluvial oferecido há 70 anos pela família do barqueiro Antônio Tomé, 43 anos. A atividade começou com o bisavô dele e garantiu o sustento do avô e do pai. 

Colegas do Colégio Núcleo, os estudantes Maria Clara Braga, 15; Gabriella  Maia, 16; Pedro Eduardo Gouveia, 18, e Vinícius Lopes, 17, usam o barco  para ir e voltar da escola. “É muito mais rápido do que pegar o caminho  maior indo de carro. Ganho 20 minutos de sono todos os dias por fazer o  trajeto de barco”, diz Pedro. “O único ponto negativo é ver de perto a  poluição do rio. Ainda assim, é um ângulo novo da cidade que descobrimos graças a esse deslocamento”, afirma Vinícius. 

Consultando as sugestões de deslocamento do Google Maps, quatro opções  para fazer o trajeto Rua Frei Jaboatão-Avenida Rui Barbosa surgem: carro, ônibus, a pé e de bicicleta. Se os estudantes fossem de carro, a distância  de 2,4 km seria percorrida em cerca de 10 minutos. Segundo o aplicativo, a opção pelo ônibus faria os alunos gastarem 21 minutos caminhando até uma parada, esperando um coletivo e se deslocando no veículo até a Rui Barbosa. Indo a pé, o tempo cairia para 20 minutos. De bicicleta, o trajeto seria feito em 10 minutos.

Ignorando todas as indicações “oficiais” de caminhos sugeridos até a Avenida Rui Barbosa, o estudante Matheus Barbosa, 14 anos, pega uma das balsas. O serviço está disponível todos os dias, das 5h30 às 20h. Para ir até a Jaqueira, os usuários pagam R$ 1,50. O mesmo valor é cobrado para o caminho de lá até a Torre. Mas o principal benefício, segundo os passageiros, não é apenas financeiro (paga-se menos do que o anel A do transporte público), mas no ganho de tempo. A travessia dura apenas dois minutos. “Há dois anos faço esse trajeto de barco. Não só para a escola, mas sempre que preciso ir da Torre para outros bairros da Zona Norte”, disse o estudante.

Percorrer os bairros usando o rio como corredor viário era muito comum no Recife do século 19. Foi o que revelou uma pesquisa feita pelo arquiteto e urbanista José Luiz da Mota Menezes, ex-presidente do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico de Pernambuco (IAHGP) e professor aposentado da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). “Desde o século 16, o Capibaribe tem sido usado para a navegação fluvial. No século 19, foi um dos principais meios para se chegar ao Centro do Recife, desde os  subúrbios por onde passa curso d’água”, afirmou. Nessa época, foi criada a  primeira empresa de transporte fluvial no rio, com barcos a vapor que  passavam pelos engenhos de Casa Forte, Várzea e Apipucos.

O esquecimento do rio enquanto meio de locomoção começou com a  popularização dos veículos por terra, especialmente do carro, no século 20. O Capibaribe se estende por 280 km no estado, sendo 16 km cortando a  capital pernambucana. 
 

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