Nesta quarta Povos de Terreiro fazem ato contra julgamento no STF que poderá proibir o abate religioso O Recurso poderá proibir a prática de abate religioso nas casas de Candomblé, Umbanda e Jurema Sagrada espalhadas por todo o país

Por: Diario de Pernambuco

Publicado em: 08/08/2018 14:06 Atualizado em: 08/08/2018 14:44

Coordenadora da Rede de Mulheres de Terreiro, Vera Baroni. Foto: Mariana Moraes/Esp. Diario de Pernambuco
Coordenadora da Rede de Mulheres de Terreiro, Vera Baroni. Foto: Mariana Moraes/Esp. Diario de Pernambuco
A Rede das Mulheres de Terreiro de Pernambuco e o Coletivo de Juristas Negras realizaram na manhã desta quarta-feira (8) um ato público em frente ao Ministério Público Federal no estado, denunciando flagrante crime de racismo contra as religiões afro-brasileiras e afro-indígenas, em função de julgamento previsto para esta quinta (9), no Supremo Tribunal Federal (STF), em Brasília.

De acordo com a coordenadora da Rede de Mulheres de Terreiro, Vera Baroni, que é advogada e Iyabassé do Ilê Obá Aganju Okoloiá (Terreiro de Mãe Amara), integrantes de vários terreiros denunciam a discriminação contra as comunidades tradicionais em decorrência do julgamento do Recurso Extraordinário (RE) 494601 no STF.

O Recurso poderá proibir a prática de abate religioso nas casas de Candomblé, Umbanda e Jurema Sagrada espalhadas por todo o país. 

Racismo religioso - Segundo Baroni, o caso é nitidamente uma tentativa de impedir o livre exercício religioso das comunidades de terreiro. "Se o abate é também praticado por outras religiões reconhecidas no Brasil, como o Judaísmo e o Islamismo, por que razão questiona-se exclusivamente essa prática junto aos povos de terreiro?"  Para ela, o contexto desse julgamento demonstra o quanto é perverso o racismo em nosso país. 

A advogada destaca ainda que a sacralização dos alimentos e a partilha entre os praticantes é uma experiência muito antiga entre as religiões. "No cristianismo católico, por exemplo, isso acontece nas celebrações de maneira simbólica. No candomblé, é desde a forma de coletar, processar e consumir o alimento, pois tudo é parte da liturgia. Depois de oferecido às divindades, esse alimento chega à mesa e é compartilhado nas comunidades onde estão situados os terreiros", explica. 

Com isso Vera Baroni também afirma os efeitos sociais da imolação de animais nos rituais sagrados que, segundo ela, favorece a segurança alimentar de milhares de famílias no país. Além disso, segundo declarou, o abate para fins de culto respeita a Declaração Universal dos Direitos dos Animais, o que nem sempre pode ser afirmado na indústria de criação animal ou nos laboratórios farmacêuticos. 

Nos últimos dias, estão acontecendo diversos atos em outras cidades do país, com a campanha  #TradiçãoAlimentaNãoViolenta. Um memorial de diversas casas tradicionais do Candomblé, Umbanda e Jurema Sagrada foi entregue ao STF e será parcialmente apresentado durante o ato no Recife.   

Na sessão desta quinta (9), os 11 ministros da Suprema Corte irão julgar se uma norma do Rio Grande do Sul que autoriza o sacrifício ritual de animais nas religiões de matriz africana é constitucional. O Ministério Público recorreu ao STF, alegando pedindo que a  Corte Suprema impeça o exercício das religiões afro-brasileiras, que entendem que a prática é um rito de sacralização e não de violência.


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