EVENTO Jovens com câncer ganharão aniversário coletivo no Recife Com ajuda de doações, 35 jovens de 14 a 18 anos terão uma festa promovida pela Rede Feminina de Combate ao Câncer de Pernambuco

Por: Marcionila Teixeira

Publicado em: 31/07/2018 16:22 Atualizado em:

Luana, que luta contra um câncer de ovário, é uma das jovens que participará da festa
Foto: Thalyta Tavares / DP
Luana, que luta contra um câncer de ovário, é uma das jovens que participará da festa Foto: Thalyta Tavares / DP
O aniversário de Luana, 17 anos, foi antecipado. Está marcado para 26 de agosto, na Usina Dois Irmãos, um espaço elegante localizado em Apipucos. Espera-se um evento grandioso para 500 convidados, música ao vivo e um dia inteiro de spa em um hotel para cuidar da pele, fazer maquiagem e as unhas. Muitas emoções têm invadido a cabeça da jovem nos últimos dias. A cerimônia está muito além de algo um dia pensado por ela, nascida pobre, filha de um agricultor e de uma dona de casa, moradora do município de Betânia, no Sertão. Luana Pereira da Silva, que veio ao mundo no dia das crianças, está há seis meses em tratamento contra um câncer no ovário.

Junto com Luana, festejam aniversário no mesmo megaevento mais 19 meninas e 15 meninos. Todos são pacientes em tratamento de câncer em três hospitais públicos do Recife: o Hospital do Câncer de Pernambuco, o Osvaldo Cruz e o Imip. Têm idades entre 14 e 18 anos. A festa é organizada pela Rede Feminina de Combate ao Câncer de Pernambuco, entidade criada em 1945. Pela primeira vez, a comemoração abrange três hospitais e inclui os meninos.

A celebração do aniversário dos pacientes começou tímida, há cerca de 20 anos, segundo a voluntária Maria da Paz Silva. Acontecia dentro do Hospital do Câncer, em Santo Amaro. Foi crescendo até que em 2016 aconteceu pela primeira vez em uma casa de festa, no Arcádia de Boa Viagem, para apenas duas pacientes. No ano seguinte, foi na casa de festas Leda Dourado, em Apipucos. Desta vez para 20 meninas. Tudo é feito via doação ou com dinheiro obtido em eventos promovidos pela rede. Este ano, no entanto, uma mensagem enviada por uma amiga de Joselane Freitas, voluntária antiga da rede, viralizou no WhatsApp e fez surgir um movimento gigante de apoio aos aniversariantes. A mensagem falava da necessidade de doação de roupas para as meninas e os meninos participarem do evento. As vestes e os sapatos começaram a chegar aos montes à rede, sediada no Hospital do Câncer. Pelo menos 500 vestidos e ternos. Pouco a pouco, chegam aos parentes dos pacientes, vizinhos e convidados da festa, a maioria habitante do interior e com baixa renda.

Os aniversariantes terminaram patrocinados por lojas de roupa e se vestirão de forma padrão. As vestimentas doadas que não forem aproveitadas, passam a integrar um bazar, em local ainda a ser definido, cujo valor das vendas será usado em outras despesas da festa. Inicialmente, a comemoração era para 300 convidados. Com a mensagem viralizada, o número passou para 500 e a rede decidiu assumir o restante das despesas.

O apoio aos aniversariantes não se restringe à doação de roupas finas e sapatos. Nesse momento também é preciso garantir a vinda dos familiares e amigos para a festa, já que a maioria vive no interior. Outro item importante é a compra de um suplemento alimentar chamado Immax. A lata custa R$ 75 no Recife, mas pode ser adquirida em Curitiba, com frete incluso, por R$ 55. Doações podem ser feitas na rede e mais informações podem ser obtidas pelo telefone 3217.8236.

Qualquer pessoa também pode se tornar uma madrinha ou padrinho desses aniversariantes. Basta participar doando o transporte ou o complexo alimentar. Ou, mais ainda, doando tempo a uma pessoa até então estranha. “Queria alguém presente, que converse, que ajude se a gente tiver dificuldade”, diz Luana, que divide seus dias de internamento com a mãe, Francisca Maria da Silva, 52, mãe de onze filhos.

Não se trata de valorizar o glamour. A festa representa  algo profundo, que passa pela necessidade de esquecimento da doença e da comemoração da vida. O câncer parece ter o poder de multiplicar a solidariedade. Dizem que é a tal empatia.
 


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