Urbanismo Chantecler: o edifício oco no coração do Recife Vinte anos depois de ser tombado, o prédio continua fechado

Por: Anamaria Nascimento

Publicado em: 22/07/2018 11:37 Atualizado em: 22/07/2018 11:49

Imóvel segue sem uso, mesmo sendo um dos mais belos e imponentes do bairro. Foto: Nando Chiappetta/DP.
Imóvel segue sem uso, mesmo sendo um dos mais belos e imponentes do bairro. Foto: Nando Chiappetta/DP.
Vinte anos depois de ser tombado e seis anos após ter sido restaurado, o edifício Chantecler, no Bairro do Recife, continua fechado e sem definição sobre como pode ser usado para voltar a ter uma função. O imponente imóvel às margens do Rio Capibaribe e localizado na esquina da Avenida Marquês de Olinda com a Rua Madre de Deus só tem a parte externa reformada. Não há previsão para a realização de trabalhos de recuperação da parte interna do prédio.

O arquiteto responsável pela obra de restauro da fachada, Jorge Passos, lamenta a falta de uso do Chantecler. A obra de recuperação da parte externa do prédio teve início em dezembro de 2010. A obra foi concluída em maio de 2012. “Fizemos o trabalho de restauração da fachada, dos elementos decorativos, esquadrias e cobertura. Um segundo momento seria a recuperação da área interna, mas nunca houve continuidade do projeto”, disse. Segundo ele, na época, foram cogitadas as possibilidades de o imóvel se tornar um centro comercial ou um hotel.

O especialista em restauro arquitetônico lembra ainda que cerca de 70 funcionários, entre pedreiros, marceneiros, eletricistas, serralheiros e outros profissionais, trabalharam na obra. “A grande importância do edifício seria tê-lo vivo e com uma função. Não se restaura um prédio para que ele continue sem um destino. A obra já tem seis anos. Em breve ele vai começar a dar sinais de que precisa de manutenção”, afirmou. Passos citou ainda o exemplo de cidades como Londres e Lisboa como modelos que deveriam inspirar o Recife nos cuidados com o seu patrimônio.

O prédio é da Santa Casa de Misericórdia, mas é cedido à  Realesis Empreendimentos, gestora do Complexo Paço Alfândega. Procurada pelo Diario, a empresa informou que não iria se pronunciar sobre o assunto.

Duas décadas de espera
Em 2001, prédio construído no século 19 ainda estava com aspecto decadente. Foto: Alcione Ferreira/Arquivo/DP.
Em 2001, prédio construído no século 19 ainda estava com aspecto decadente. Foto: Alcione Ferreira/Arquivo/DP.

O primeiro anúncio de restauração do imóvel, construído no século 19, foi feito em 1998, pela Prefeitura do Recife. A administração deixou a cargo dos administradores a ocupação, exigindo apenas a preservação das características arquitetônicas. As obras externas foram concluídas 14 anos depois. O Chantecler - do francês chant clair, que significa 'canto claro' - tem três pavimentos. Originalmente, além de seis apartamentos residenciais, contava com áreas para comércio. O imóvel é formado por um conjunto de seis edifícios.

Até os anos 1940, o térreo era ocupado com armazéns de açúcar. Já os andares superiores eram residenciais. No período da Segunda Guerra Mundial, porém, os moradores deixaram o imóvel. O primeiro andar passou a ser ocupado pela boate Chantecler, com música ao vivo. No pavimento superior, estava a pensão Rendez-vous, um prostíbulo. Frequentada pela alta sociedade, a boate foi palco de desfiles de moda e palco para cantores como Agnaldo Timóteo, Cauby Peixoto e Nélson Gonçalves.

Cerca de 20 anos depois, a boate Black Tie foi inaugurada no conjunto, na parte do prédio virada para a Rua Madre de Deus. A casa de shows funcionou até 1975. Além da boate, as pensões Rex e Night and Day funcionaram até o Bairro do Recife entrar em decadência na década de 1970. O primeiro anúncio de reforma do prédio foi feito em 1988. Dez anos depois, o imóvel foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), mas o Chantecler nunca foi reativado.

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