Diario nos Bairros Brasília Teimosa, um bairro resistente e corajoso, completa 15 anos sem palafitas Livre das palafitas há 15 anos, Brasília Teimosa se afirma como bairro e polo cultural e gastronômico, e busca uma série de melhorias

Publicado em: 13/07/2018 08:13 Atualizado em: 13/07/2018 08:56

A ocupação de Brasília Teimosa teve início nos anos 1950. Foto: Peu Ricardo/DP
A ocupação de Brasília Teimosa teve início nos anos 1950. Foto: Peu Ricardo/DP

Símbolo da resistência recifense, Brasília Teimosa completa 15 anos desde o anúncio de remoção das palafitas e consequente urbanização pela qual a área passou. Hoje, convive com os desafios comuns a bairros periféricos de grandes cidades. Trânsito caótico, ruas desordenadas e lixo nas vias públicas. Desafios a serem enfrentados pelo poder público, que são também encarados com protagonismo pelos moradores. Eles, que garantiram a permanência dos primeiros ocupantes, se encarregam, agora, de lutar por mais qualidade de vida.

A ocupação de Brasília Teimosa teve início nos anos 1950. “Era a época de instituição da capital federal, que acabou inspirando o nome. O complemento ‘Teimosa’ veio da persistência dos moradores, que resistiram às diversas tentativas de expulsão”, explica o arquiteto e urbanista José Luiz da Mota Menezes. Desde então, muitos moradores de Brasília Teimosa viviam sobre o mangue, em casas em áreas alagadiças e condições insalubres.

Em janeiro de 2003, a comunidade à beira-mar foi escolhida como destino da primeira viagem do então presidente Lula e seus ministros. No mesmo mês, as palafitas começaram a ser retiradas. Três anos depois, em 2006, foram entregues 224 moradias para a população que vivia nos casebres de madeira. Outras 280 estavam em construção. 

“Moro aqui desde os 10 anos. Eu já tinha uma casa de alvenaria desde 1982, mas a maioria das pessoas vivia nas palafitas. Muitas da minha família foram beneficiadas. Essa mudança em relação às casas e a construção da orla mudaram o bairro”, conta o pescador João Leite, 64. 

“Uma das questões que mais nos preocupam é a educação ambiental e o descarte de lixo. Estamos com um projeto para manter o bairro limpo. Até agosto, vamos instalar lixeiras de pallet nas escolas, postos de saúde e na orla”, diz a presidente do Clube de Mães Criativas, Maria Monteiro.

Existente há 35 anos no bairro, o clube atua pela inclusão social, geração de renda, prevenção do meio ambiente e cursos de capacitação para mães. Os rótulos instalados nas lixeiras confeccionadas pelas mulheres vão contar as histórias de moradores da região. “Estamos precisando de doação de pallets e também de voluntários”, diz Maria Monteiro.

A mudança no perfil, de área alagada tomada por palafitas a bairro urbanizado, levou a uma busca, até então inexistente, da classe média pelo local, fazendo com que se multiplicassem bares e restaurantes voltados a um público com poder aquisitivo maior. O Bar do Samuray é um deles. Localizado na Rua Badejo (boa parte das vias do bairro tem nome de peixe), o estabelecimento recebe deputados, empresários, desembargadores e artistas nas mesas alinhadas na calçada. Os pratos de siri mole (R$ 115), de camarão vila franca (R$ 125) e de lagosta (R$ 150) estão entre os mais procurados. 

“O que me deixa feliz é ver que meu cliente come por satisfação e não por fome. Já recebi pessoas da Europa, da Coreia, do Japão. Quem come sai falando pro mundo e mais gente vem”, diz José Cícero da Silva, 62, o Samuray. 


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