Diario nos Bairros Antigo Aeroclube está num limbo urbanístico Prefeitura quer diversificar uso do terreno com habitação, sustentabilidade e prestação de serviço

Publicado em: 13/07/2018 07:42 Atualizado em: 13/07/2018 08:05

Muitas são as ideias para encontrar um uso para o espaço de tamanho equivalente ao de 21 campos de futebol, mas poucas são as definições sobre o que fazer na privilegiada área em meio ao parque dos manguezais. Foto: Peu Ricardo/DP
Muitas são as ideias para encontrar um uso para o espaço de tamanho equivalente ao de 21 campos de futebol, mas poucas são as definições sobre o que fazer na privilegiada área em meio ao parque dos manguezais. Foto: Peu Ricardo/DP

Cinco anos depois de ser fechada em função das obras da Via Mangue, a área de 21 hectares antes ocupada pelo Aeroclube de Pernambuco, na Bacia do Pina, permanece num limbo em relação à sua função social. Muitas são as ideias para encontrar um uso para o espaço de tamanho equivalente ao de 21 campos de futebol, mas poucas são as definições sobre o que fazer na privilegiada área em meio ao parque dos manguezais, às margens de um braço do Rio Capibaribe. O lugar, que já foi cenário da formação de milhares de pilotos e palco de eventos célebres do passado pernambucano, hoje é um grande matagal.

Fechada em março de 2013, a área vem sendo utilizada  pelo Grupamento Tático Operacional (GTO) da Guarda Municipal, que utiliza os galpões nas proximidades da bifurcação que divide as ruas Tomé Gibson e Elias Gomes, o restante da estrutura deixada pelo aeroclube está sucumbindo ao tempo. A pista de 800 metros, que já foi usada para a realização de 50 pousos e decolagens por dia, hoje serve, de maneira informal, para aulas de pilotagem de autoescolas. A maior parte dos muros que cercava a propriedade já não existe também. 

“Acabou ficando esquisito para a gente transitar neste local, pois vêm pessoas vender drogas e se esconder para assaltar. Passamos a andar com medo aqui na rua”, reclamou a operadora de caixa Luciana Silva, 40 anos, moradora do entorno. Ela e outros habitantes das ruas laterais do terreno defendem a construção de um parque na área. “Teria um espaço para as crianças brincarem e também para fazer eventos”, defende a doméstica Gilvanete Avelino, 38, referindo-se às antigas apresentações de aeromodelismo e paraquedismo realizadas no passado. 

Há cerca de um ano, o vereador Wanderson Florêncio chegou a lançar o movimento #PeloParqueBV, defendendo a construção desse tipo de equipamento no local. O terreno tem três vezes o tamanho do Parque da Jaqueira. Porém, movimentos sociais e outros vereadores defendem que o espaço seja usado de acordo com o estabelecido durante campanha pelo prefeito Geraldo Julio. Isto é, dentro de um projeto de reurbanização que contempla também a construção de conjuntos habitacionais para famílias que vivem em condições precárias na Comunidade do Bode. 

Em maio deste ano, o tema foi alvo de audiência na Câmara dos Vereadores, mas não houve consenso ou definição sobre o que fazer na localidade. “A nossa reivindicação é a urbanização do Bode, acabando com as palafitas, fazendo saneamento, pavimentação, drenagem, os habitacionais e também o parque. Existem mil pessoas vivendo em palafitas”, explicou integrante do Movimento Habitacional Aeroclube Pina e especialista em gestão pública Felipe Cury. 

“Tínhamos uma audiência no clube Banhistas do Pina, que foi adiada em função da greve dos caminhoneiros. Em agosto, voltaremos a discutir o tema. De fato, só há um chamamento para a construção de 600 apartamentos pelo programa Minha Casa, Minha Vida. Mas as pessoas que estão sem casa não têm condições de pagar mensalidade de apartamento”, disse a vereadora Ana Lúcia (PRB).
A proposta do habitacional não é unanimidade entre todos os moradores do entorno do terreno. “Para mim, poderia ser construída uma Upinha ou posto de saúde”, opinou a comerciante aposentada Luciene Almeida, 60.

Trajetória foi além dos pousos e decolagens

Em 15 de março de 2013, 73 anos de uma data simbólica para a aviação pernambucana, chegava ao fim um impasse que já levava anos no Recife. Em cumprimento a um mandado de reintegração de posse, o Aeroclube de Pernambuco retirava as aeronaves do pátio e encerrava provisoriamente a história da escola de aviação nos céus da capital.

Fundado na década de 1930, o aeroclube funcionava na região do Pina desde 15 de março de 1940, com a missão de formar pilotos para comando de aviões, inclusive de guerra. Depois da retomada do terreno, para construção da Via Mangue, o órgão ficou sem sede e, ainda hoje, batalha por encontrar outra área ideal para voos na Região Metropolitana do Recife.

Antes de funcionar como aeroclube, aquela área já era utilizada pela aviação. Na década de 1920, o Recife entrou na rota do correio aéreo, operado pela aviação francesa e viu o Campo do Pina ser usado, em 7 de março de 1925, para receber as primeiras correspondências.

O terreno só foi ocupado pelo aeroclube em 1940, quando iniciadas as obras do Aeroporto Internacional do Recife-Guararapes/ Gilberto Freyre. “Sempre tivemos um papel de formação de pilotos em todas as categorias. Também funcionava por lá aeródromo, linhas de transporte aéreo não regulares, guarda de aeronaves e atividades desportivas”, contou o presidente do Aeroclube de Pernambuco, Alfredo Bandeira. 

Em 1945, o aeroclube foi considerado o primeiro no Brasil, com 22 aviões para voo. A instituição conseguiu vencer a crise de 1969 a 1971, que levou ao fechamento de aeroclubes no Brasil inteiro, e, em 1972, já havia formado 1,5 mil pessoas. Tendo como um dos fundadores o jornalista Assis Chateaubriand, a instituição também participou da vida cultural da cidade, tendo abrigado inclusive um cinema ao ar livre.

Foi lá que o ex-governador Miguel Arraes aterrissou após o regresso do exílio, em 15 de setembro de 1979, e também onde o cantor Roberto Carlos costumava pousar quando vinha fazer shows na região. Antes de ter as atividades encerradas no Pina, o aeroclube costumava receber 50 pousos e decolagens por dia. Atualmente, a instituição mantém um hangar em Igarassu e está uma sala alugada na Boa Vista, onde segue dando aulas de formação. 

O Aeroclube nas páginas do Diario
Estatuto
O Diario anunciava, no dia 20 de março de 1940, a assembleia para definir o estatuto do aeroclube de Pernambuco. A reportagem dizia que o espaço teria como função formar pilotos e técnicos. 

Primeiras turmas 
O Aeroclube se preparava para brevetar os primeiros aviadores do estado. A notícia foi veiculada em 22 de outubro de 1941. 

Mudança
Em 22 de outubro de 1943, depois de funcionar provisoriamente no automóvel clube e ocupar a área onde hoje funciona o aeroporto, o Diario anunciava que o Aeroclube iria se mudar para o campo Encanta Moça, na Bacia do Pina.

Revoadas
Em função da Semana da Asa, o Aeroclube costumava realizar excursões com destino a outras capitais do Nordeste. Em uma das vezes, em outubro de 1944, os destinos eram Maceió, Aracaju e Arapiraca. 

Eventos
O Aeroclube também era conhecido pelos eventos abertos, competições de aeromodelismo e saltos de paraquedas que realizava, como anunciado no jornal de 20 de outubro de 1962. 

Ajuda
Na cheia de 1966, o Aeroclube disponibilizou todas as aeronaves para ajudar as vítimas, ajudando os socorros emergenciais. Também forma disponibilizados aviões para que a imprensa pudesse sobrevoar as áreas afetadas, história contada pelo Diario em 17 de junho de 1966.

Cinema 
Durante a década de 1980, funcionava um cinema ao ar livre no Aeroclube. A programação costumava ser divulgada pelo jornal. Em janeiro de 1980, os filmes em cartaz eram Carga em perigo e As aventuras no Reino da Fantasia.


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