Diario nos Bairros Avenida Boa Viagem, uma via que mudou o Recife Há 95 anos, começava a história da Avenida Boa Viagem, que foi fundamental para incluir a Zona Sul na vida de todos os recifenses

Publicado em: 13/07/2018 07:39 Atualizado em: 13/07/2018 08:01

A via tornou-se eixo estruturador do bairro e passou a apresentar, com o passar dos anos, uma multiplicidade de usos. Foto: Gabriel Melo/Esp DP
A via tornou-se eixo estruturador do bairro e passou a apresentar, com o passar dos anos, uma multiplicidade de usos. Foto: Gabriel Melo/Esp DP

Antes de ser endereço de prédios luxuosos com o metro quadrado mais caro da cidade, e via por onde circulam 38 mil veículos por dia, a Avenida Boa Viagem era uma estrada sem estrutura frequentada por pescadores de uma colônia afastada do Centro da capital pernambucana. A história do corredor viário como conhecemos hoje teve início há 95 anos, quando a Avenida da Ligação, hoje Herculano Bandeira, começou a ser construída. O objetivo era ligar a cidade às praias do Pina e Boa Viagem, até então isoladas da vida urbana. O desafio urbanístico que o poder público encara é considerar essa história e levar em conta as características atuais da avenida para planejar o futuro dela. 

A abertura da pista nova foi celebrada na edição de 21 de outubro de 1924 do Diario, em artigo intitulado A inauguração das avenidas Saturnino de Britto e Ligação no Pina: o passeio a Boa Viagem. Uma área da cidade estava sendo descoberta e chamava a atenção dos recifenses. “Tanto a Avenida Saturnino de Brito como a da Ligação apresentavam garrido e festivo aspecto, embandeiradas e repletas de povo”, descreve o texto. Após a inauguração, automóveis saíram em comboio, “tendo assim, oportunidade de contemplar os trabalhos da Avenida Beira Mar (hoje Avenida Boa Viagem), em construção”. 

Em 1925, a inauguração de cinco quilômetros de trilhos, do trecho da antiga pracinha ao Pina, foi noticiada pelo jornal. Arthur Smith, superintendente da companhia ferroviária Tramways, revelou que a primeira viagem estava prevista para acontecer apenas em 1931, mas o governador Sérgio Loreto o pressionou para adiantar os serviços. Em discurso, Loreto disse que Pernambuco só teria a lucrar com os melhoramentos em Boa Viagem, já convertida numa estação balneária. Dizia-se satisfeito depois das críticas recebidas sobre suposto desperdício de dinheiro público em um local ermo e pouco frequentado. Na comemoração, o governador seguiu na sua limusine, acompanhado de mais de 300 veículos.

A avenida margeando o mar representou acesso à vila de Boa Viagem, que, de acordo com a professora de arquitetura e urbanismo da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap) Andréa Câmara, era considerada uma área rural da cidade. “Quando a avenida hoje chamada de Boa Viagem foi inaugurada, houve um momento de descoberta do mar e da modernidade. Nos primeiros dez anos, o desenvolvimento do bairro se deu no entorno da igrejinha (Igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem, na praça). Depois, aconteceu a expansão com a construção de prédios modernistas”, explica.

A via tornou-se eixo estruturador do bairro e passou a apresentar, com o passar dos anos, uma multiplicidade de usos: residencial, comercial, de serviços e lazer. “Ao longo do tempo, assumiu ainda um papel de espaço simbólico de manifestações sociais, celebrações e reivindicações”, pontua a gerente de Preservação Cultural da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe), Celia Campos. “Assegurar a mobilidade, valorizar a imagem símbolo do bairro-cidade, consolidar e qualificar o uso do solo de forma equilibrada e integrar políticas urbanas a interesses públicos e privados são alguns dos desafios (do poder público em relação à avenida)”, completa.

Para o Plano de Mobilidade Urbana do Recife, em elaboração, essas questões têm sido consideradas. “Desenvolvemos uma série de estudos para embasar o desenvolvimento do plano. A Avenida Boa Viagem chama a atenção não só pela quantidade de carros que passam por ali, mas por ser um polo gerador de deslocamentos principalmente pelo acesso à praia. É uma das avenidas com o maior número de pedestres da cidade, com o maior trecho da rede cicloviária da cidade e com grande circulação de veículos de turismo”, pontua o diretor-executivo de Planejamento da Mobilidade, da Secretaria de Planejamento Urbano, Sideney Schreiner. 

A primeira etapa do Plano de Mobilidade da cidade deve ser divulgado nas próximas semanas. A segunda e última, até o fim do ano. Para o curto prazo, a Autarquia de Trânsito e Transporte Urbano (CTTU) informou que não há projetos ou intervenções programadas para a avenida.


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