São João Sítio Trindade dá continuidade à quinta noite do Concurso de Quadrilhas Juninas do Recife Política, religiosidade e cultura popular inspiraram os espetáculos dos grupos na noite dessa sexta-feira (15)

Por: Samuel Calado - Redes Sociais

Publicado em: 16/06/2018 18:36 Atualizado em: 16/06/2018 19:10

A quadrilha Origem Nordestina, do Morro da Conceição homenageou a religiosidade de matriz africana. Foto: Samuel Calado/Esp.DP
A quadrilha Origem Nordestina, do Morro da Conceição homenageou a religiosidade de matriz africana. Foto: Samuel Calado/Esp.DP

A noite dessa sexta-feira (15) foi marcada por grandes apresentações no 34º Concurso de Quadrilhas Juninas do Recife. Política, religiosidade e cultura popular inspiraram os espetáculos dos grupos da Região Metropolitana. O Diario realizou a cobertura em tempo real nas plataformas digitais. 

A Junina Evolução, de Santo Amaro, trouxe a força e a representação dos povos africanos na construção da identidade brasileira. Foto: Samuel Calado/Esp.DP
A Junina Evolução, de Santo Amaro, trouxe a força e a representação dos povos africanos na construção da identidade brasileira. Foto: Samuel Calado/Esp.DP

A primeira junina a se apresentar foi a Evolução, de Santo Amaro, um dos principais bairros do Recife. Ela foi vencedora do festival promovido pela Rede Globo Nordeste em Goiana no ano de 2017 com o espetáculo Chico Vive. Este ano, o grupo trouxe a história de resistência dos negros no Brasil e fez uma denúncia contra o racismo, a intolerância religiosa e a desigualdade social através do tema "Bravos". Segundo o coreógrafo Werison Fidelis (Pinho), abordar a história dos descendentes de africanos no Brasil é importante para combater as discriminações e levantar as questões sociais. "Temos uma dívida enorme com os africanos que foram escravizados no país e construíram no sangue a nossa cultura. Precisamos mostrar a importância da negritude na formação da nossa identidade", contou. 

Noivos da Junina Evolução. Foto: Samuel Calado/Esp.DP
Noivos da Junina Evolução. Foto: Samuel Calado/Esp.DP

O brincante Marcelo Cardoso disse que foi um desafio poder representar o povo negro, tão discriminado na história do Brasil. "A escravidão foi abolida no documento, mas na humanização não. Trazer um tema desse é enriquecedor, principalmente diante das desigualdades". 

Noivos da Junina Matutada, de Jaboatão dos Guararapes. Foto: Samuel Calado/Esp.DP
Noivos da Junina Matutada, de Jaboatão dos Guararapes. Foto: Samuel Calado/Esp.DP

Após a Evolução foi a vez da Junina Matutada, de Jaboatão dos Guararapes, que evidenciou a importância da terra para a o povo nordestino. Ao contar a história de Sertião e seu filho Celestino diante das dificuldades vividas fronte a falta d'água, o grupo mostrou a dura realidade que os agricultores enfrentam todos os anos esperando a chuva para ter uma boa colheita e a alegria diante da chuva, sinônimo de terra viva.

Brincante da Junina Matutada. Foto: Samuel Calado
Brincante da Junina Matutada. Foto: Samuel Calado

No Festival da Globo deste ano, as damas da junina se apresentaram com parte do figurino incompleta. Na noite dessa sexta-feira, minutos antes da apresentação no Sítio Trindade, o restante da roupa havia chegado e eles conseguiram apresentar o espetáculo em sua plenitude. A brincante Cibele Duarte disse que nada abalada a energia do quadrilheiro visto que mesmo diante das dificuldades ele continua de pé cantando e dançando. "A gente podia estar nu, sem roupa, mas a nossa vontade de levar a tradição está acima de tudo. Somos quadrilheiros e quadrilheiras de coração e fazemos de tudo para tornar forte o movimento", relatou. 

Oxum, na religiosidade de matriz africana é o Orixá da beleza, do ouro, da fertilidade e do amor. Foto: Samuel Calado/Esp.DP
Oxum, na religiosidade de matriz africana é o Orixá da beleza, do ouro, da fertilidade e do amor. Foto: Samuel Calado/Esp.DP

Depois da Matutada, foi a vez da Origem Nordestina, do Morro da Conceição, na Zona Norte do Recife. O grupo deu visibilidade a religiosidade de matriz africana através do tema "Rainha, o casamento de Oxum", desenvolvido pelo roteirista Anderson Fomes, que retratou uma história baseada na mitologia africana, em especial, dos orixás Oxum (da beleza, do amor e do ouro), Xangô (orixá da justiça e do trovão) e Oyá (deusa dos raios e das tempestades).

A história de uma devota católica com um filho de terreiro de candomblé foi mostrada no espetáculo da Origem Nordestina. Foto: Samuel Calado/Esp.DP
A história de uma devota católica com um filho de terreiro de candomblé foi mostrada no espetáculo da Origem Nordestina. Foto: Samuel Calado/Esp.DP

Com a expertise do grupo de mais de 20 anos de fundação, a Origem tocou na ferida provocada pela intolerância religiosa, presente no cotidiano dos brasileiros, que machuca e inferioriza as pessoas de diversas denominações religiosas. 

Drika Alves, marcadora da Origem há mais de 5 anos. Foto: Samuel Calado/Esp.DP
Drika Alves, marcadora da Origem há mais de 5 anos. Foto: Samuel Calado/Esp.DP

Respeitar as várias formas de fé. Este foi o objetivo da junina ao mostrar a história de uma devota católica com um filho de terreiro de Candomblé. O público e os seguidores que assistiam a cobertura em tempo real ficaram emocionados, principalmente, com a trilha e a mediação feita pela marcadora Drika Alves, que já está há mais de cinco anos a frente da quadrilha do Morro. 

Noivos da Junina Zé Matuto, de São Lourenço da Mata. Foto: Samuel Calado/Esp.DP
Noivos da Junina Zé Matuto, de São Lourenço da Mata. Foto: Samuel Calado/Esp.DP

A Zé Matuto, de São Lourenço da Mata, entrou em cena logo após a Origem, trazendo o seguinte tema: Na festança brasileira, quadrilha só de São João. O grupo abordou a disparidade existente entre a quadrilha junina, onde o brilho, o amor e a coletividade estão presentes, fronte a quadrilha de políticos corruptos que se aproveitam da vulnerabilidade social das pessoas para se candidatarem.

A Junina Zé Matuto levou para o arraial um tema sobre a consciência política. Foto: Samuel Calado/Esp.DP
A Junina Zé Matuto levou para o arraial um tema sobre a consciência política. Foto: Samuel Calado/Esp.DP

A fictícia cidade de brejo do Girassol serviu como uma metáfora das cidades do país, onde a população inconformada com o descaso da comunidade, se revoltam e prendem o político. O desenvolvimento do tema foi de responsabilidade do quadrilheiro Fábio Júnior de Santana.

Reprodução de um palanque político pela Zé Matuto, típico nas cidades do interior. Foto: Samuel Calado/Esp.DP
Reprodução de um palanque político pela Zé Matuto, típico nas cidades do interior. Foto: Samuel Calado/Esp.DP

O quadrilheiro Marcos Brito, que interpretou o político corrupto, alertou as pessoas sobre a escolha do candidato neste ano. "Estamos em um ano decisivo, então, pensem bastante antes de apertar o pitoco e decidir o representante que vai trabalhar os próximos quatro anos", reforçou. 

Noivos da Junina Tom Maior, do município de Goiana, na Região Metropolitana do Recife. Foto: Samuel Calado/Esp.DP
Noivos da Junina Tom Maior, do município de Goiana, na Região Metropolitana do Recife. Foto: Samuel Calado/Esp.DP

A penúltima a se apresentar foi a Tom Maior, de Goiana, trazendo o tema "Sonho meu", que narrou a história de devoção dos nordestinos pelo Padre Cícero e a imagem do Lampião e da Maria Bonita como heróis de uma terra marcada pela dificuldade.

Rafael Oliveira, noivo da Junina Tom Maior. Foto: Samuel Calado/Esp.DP
Rafael Oliveira, noivo da Junina Tom Maior. Foto: Samuel Calado/Esp.DP

A junina relembrou a realidade dos sertanejos que saíram de sua terra natal para melhorar a qualidade de vida na capital. O brincante Rafael Oliveira, que interpretou o noivo da Tom, disse que já dançava há mais de 10 anos e sempre sente um frio na barriga quando vai se apresentar. "A gente espera fazer o melhor para o público e contar a nossa história com muita dignidade e competência". 

Cangaceiros da Quadrilha Brigões de Suape. Foto: Samuel Calado/Esp.DP
Cangaceiros da Quadrilha Brigões de Suape. Foto: Samuel Calado/Esp.DP

Por fim, encerrando o quadro de apresentações, foi a vez dos quadrilheiros da Brigões de Suape mostrarem a bravura e a garra de quem faz o movimento no sangue. O tema proposto pela junina foi "Nordeste Independente", e valorizou a cultura nordestina tão rica em ritmos e movimentos.

Noiva da Quadrilha Brigões de Suape. Foto: Samuel Calado/Esp.DP
Noiva da Quadrilha Brigões de Suape. Foto: Samuel Calado/Esp.DP

A apresentação do grupo foi prejudicada devido a um problema com a mídia de som apresentada, contudo, os brincantes não se deixaram abater e permaneceram até o último instante no arraial para apresentar o grandioso espetáculo. Após a apresentação, o quadrilheiro Vertinho, que interpretou Lampião, disse que é preciso ter muita força e coragem para dançar quadrilha. "A gente dança até sem música, o importante é estar junto com a família mostrando o que temos de precioso". 

As eliminatórias retornam na noite da próxima terça-feira (19) e segue até o dia 30. O Diario continuará transmitindo ao vivo nas plataformas digitais Facebook e instagram. 


Confira as apresentações dessa sexta-feira (15) 
 
1. EVOLUÇÃO



2. JUNINA MATUTADA 



3. ORIGEM NORDESTINA 



4. ZÉ MATUTO 



5. JUNINA TOM MAIOR 



6. JUNINA BRIGÕES DE SUAPE 

 
Confira a programação dos próximos dias: 
 
 
19/06 
 
20h - Junina Mastruz com Leite 
20h45 - Junina Fogueir'art 
21h30 - Quadrilha Junina Quentão 
22h15 - Junina Mandacaru 
23h - Junina Bacamarte 

20/06 

20h - Junina Matutinho 
20h45 - Flor da Sulanca 
21h30 - Junina Traquejo 
22h15 - Beija Flor 
23h - Dona Matuta 

21/06 
 
20h - Junina Cariri 
20h45 - Mistura de Cor 
21h30 - Junina Forró Fiá 
22h15 - Vai Vai na Roça 
23h - Cambalacho 

22/06 

20h - Junina Xotear 
20h45 - Estrela Matutada 
21h30 - Chá de Zabumba 
22h15 - Magia Matuta
23h - Junina Raízes 
23h45 - Junina Zabumba   
   
 
 



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