ALTO DA SÉ Dona da 'melhor tapioca de Olinda', Zeinha só sabe sorrir Eleita a dona da Tapioca nº 1 de Olinda, Maria José é espécie de 'patrimônio não tombado' da Cidade Alta

Por: Silvia Bessa

Publicado em: 08/06/2018 08:44 Atualizado em:

Foto: Nando Chiappetta/DP
Foto: Nando Chiappetta/DP
Ali na Sé de Olinda, tem um freguês que nem precisa falar a tapioca que quer. Basta chegar e fazer um trejeito diferente na boca. Dona Zeinha, tapioqueira que ganhou fama muito antes de virar garota propaganda de telefônica em 2010 e estampar outdoors por aí, entende logo o código do cidadão. “Ele diz que gosta daquela que queima a boca”. Feita: saindo uma tapioca estilo cartola, com banana, queijo e canela. Mais pernambucana, impossível. Estrangeiro que não fala em português, pega na barraca dela o cardápio com 60 sabores e aponta para o sabor dos desejos. Vai no palpite. Antes, era só coco. Mas o polo gastronômico da Sé pluralizou-se. Dona Zeinha atende turistas e nativos com um sorriso que cobre os coqueiros de Olinda e um tantinho do mar do Recife. “E quem volta, torna”, repete ela.

Nascida com o nome de Maria José Moreno da Silva, dona Zeinha é tão querida na cidade e entre aqueles que a visitam que ganhou no final de 2017 o primeiríssimo lugar e troféu de melhor tapioca da cidade, mesmo sem nunca ter se candidatado. Conquistou a honraria, concedida pela Prefeitura e parceiros, após votação popular. “Foi pela internet, minha filha!”, explicou ela, que não usa Google nem redes de relacionamentos. “Quando eu soube foi porque essa menina ali me disse: ‘Zeinha, você foi primeiro lugar’. Eu nem sabia o que era mas fiquei muito feliz”, contou esta semana a tapioqueira. 

“Graças a Deus, sou muito querida aqui. Todo mundo chega e pergunta qual é o segredo de minha tapioca. Tem não. Eu mesma compro a massa, os recheios e todo dia chego aqui às 15h e saio perto da meia noite”. Ok, admite: “O carvão pode ser uma coisa que dá um sabor diferente daquela tapioca feita em casa”.

Então, como se ganha um concurso sem se lançar candidata? “Ah, acho que é porque sei lidar com o público. Creio que seja o tratamento que eu dou para as pessoas. Busco ficar sempre alegre. Não adianta estar com maior raiva e se vingar em ninguém. Problema de casa deve ficar em casa”, explica, como numa aula de bom atendimento. À venda de tapioca, Zeinha se dedica desde 1972. 

Toda a história de vida dela é misturada à da tapioca que faz para vender. “Eu tenho carro, casa, tudinho. Criei meu filho com dinheiro da tapioca e ele foi até para o Canadá morar lá”, conta, falando do filho único, o mestre de capoeira, Mário Sérgio, o Azeitona. 
Começou atendendo ao convite de um amigo, que tinha o ponto comercial, e lhe convidou para trabalhar durante a semana. Um dia, convocou: “Você vai ficar no meu lugar”. Já se foram 46 anos de Sé, ao lado de tapioqueiras por quem tem sentimento de família. “Mudou foi tudo”, diz ela. “Para começar antes era só tapioca de queijo. Agora tem charque, calabresa, goiabada, frango e até Nutella”. E, quando a quantidade de sabores não é suficiente, ela ainda deixa margens para invenções. “Tem gente que quer fazer na hora e eu sigo a receita”.

Trinta e cinco anos depois da chegada dela na Sé, em 2010, apareceu um produtor convidando-a para ir a São Paulo gravar um comercial e fazer umas fotos. “Era tanta da dificuldade pra ver se eu aceitaria. Me perguntaram se eu pintaria meu cabelo de qualquer cor, se poderia participar da campanha até no Carnaval e tudo. Eu topei”. Assim, Zeinha embarcou com barraquinha e repetiu para as câmeras a frase “Moro na rua, mas falo de qualquer lugar”. 

Residente da Rua do Amparo, referência para qualquer carnavalesco que se preze, dona Zeinha diz que ama a cidade. “Gosto de tudo. Só não brinco mais por causa da idade, mas gosto de tudo”. Tira folga quando quer. Quando se dá o luxo, viaja com sobrinhas ou amigas em excursões para estados nordestinos, como Rio Grande do Norte e a Bahia. Mas assegura que o maior prazer da vida dela é trabalhar. 

“Dizem que eu poderia estar aposentada porque tenho pensão. Mas eu já decidi. Só vou parar quando morrer, porque a convivência daqui, com o pessoal que compra tapioca e com o pessoal da Sé, é a melhor coisa que eu poderia ter”.

Não é de reclamar, mas, diante da insistência sobre sua avaliação de como anda o público diante da crise econômica recente, dona Zeinha, a tapioqueira premiada, desabafa: “Eu só queria que as pessoas acabassem com essa história de que a Sé de Olinda é perigosa. Não é. Tem gente que passa muito tempo sem vir aqui matar a saudade. Pois venham porque tem muita coisa para se ver por aqui”.

Zeinha é espécie de atração da cidade. Quase um patrimônio vivo imaterial de Olinda não tombado.


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