Diario nos Bairros Caxangá se reinventa há dois séculos A avenida surgiu no século 19 e hoje integra o principal braço do corredor de BRT Leste/Oeste. Por ela passam cerca de 100 mil passageiros por dia

Por: Tânia Passos - Diário de Pernambuco

Publicado em: 05/06/2018 10:31 Atualizado em: 05/06/2018 10:37

Na década de 1960, na gestão de Pelópidas, a Caxangá ganhou mais uma faixa. Foto: Arquivo/DP
Na década de 1960, na gestão de Pelópidas, a Caxangá ganhou mais uma faixa. Foto: Arquivo/DP

A Avenida Caxangá é uma das mais importantes vias arteriais do Recife. Ela começou a ser erguida na primeira metade do século 19, no ano de 1833. Doze anos depois era erguida a ponte pênsil (sustentada por cabos), ao final da Caxangá, que serviu para abrir caminho ao interior do estado. Já naquela época, a Caxangá  se mostrava uma via essencial na ligação da Zona Oeste com a área central da cidade. Em 1843, ela foi citada pelo engenheiro francês Louis Léger Vauthier, em um relatório, sobre as vantagens da implantação de estradas no Recife, entre elas a Caxangá. Quase dois séculos depois, a avenida integra o principal braço do corredor de BRT Leste/Oeste. Por ela passam por dia 19 linhas e 147 ônibus que transportam mais de 100 mil passageiros por dia. E uma média de 58 mil veículos.

Antes de ser Caxangá ela se chamava Estrada de Paudalho. O nome era em razão da ligação do Recife com o município de Paudalho por meio da ponte pênsil.  Somente no  governo do prefeito Novaes Filho (1937-1945), a Avenida Caxangá foi calçada com paralelepípedos e alargada por meio de aterros. Essa primeira versão pavimentada foi inaugurada em 1940. Na década de 1960, ela  ganhou mais uma faixa de rolamento em cimento na terceira administração de Pelópidas da Silveira. Mas foi com o prefeito Augusto Lucena (1971-1975), que a avenida chegou mais perto do que é hoje com a duplicação do corredor viário e a faixa central do ônibus. 

Em 2002, na gestão do prefeito João Paulo, novas modificações foram incorporadas à Caxangá com mudanças nas paradas do corredor central e implantação de 14 ilhas, pontos de recuos nas paradas dos ônibus. Dez anos depois foram iniciadas as obras do BRT com a substituição de todas as paradas por estações mais modernas. Das 22 estações do corredor Leste/Oeste, 16 estão no trecho da Avenida Caxangá. A ideia do projeto era eliminar a maior parte dos ônibus convencionais que se dirigem ao Centro. Dois terminais integrados na avenida receberiam os ônibus convencionais para o transbordo no BRT. Mas apenas o TI da 3ª Perimetral entrou em operação em 2017.  E o TI da 4ª Perimetral tem nova previsão para o segundo semestre de 2018. 

Em 2012, teve início a implantação do corredor de BRT Leste/Oeste do Via Livre. Foto: Peu Ricardo/DP
Em 2012, teve início a implantação do corredor de BRT Leste/Oeste do Via Livre. Foto: Peu Ricardo/DP

Pela avenida passam ainda 13 linhas de ônibus convencionais e 73 coletivos que usam a faixa mista da Caxangá e outras seis linhas de BRT com 74 ônibus, que usam a faixa central do corredor. Em termos de conforto, o BRT está sempre na preferência do usuário, mas ainda não atende todos destinos que a população necessita. “Quando eu vou para o centro só pego o BRT, mas quando preciso ir para Casa Amarela é melhor pegar Rio Doce/Casa Amarela da linha comum, que passa aqui”, explicou Emília Santana, 59 anos, que mora no bairro desde criança.  

Com o corredor de BRT, os ônibus do sistema Via Livre têm uma velocidade média de 17km/h e transportam cerca de 65 mil passageiros. Já os convencionais têm velocidade média de 13km/h e transportam 37 mil passageiros. Um dos calos da Avenida Caxangá com a implantação do corredor de BRT é o elevado Bom Pastor. O viaduto de ferro que atravessa dois cruzamentos é criticado por urbanistas e comerciantes locais. “É uma paisagem feia, que atrapalha a nossa visibilidade. Os imóveis que ficaram ao longo desse viaduto de ferro perderam muito de valor”, reclamou o comerciante Murilo Nunes Pereira, 56 anos. 

Para o arquiteto e urbanista Geraldo Santana o atraso na obra trouxe prejuízos à paisagem e à dinâmica do corredor de BRT. “O sistema BRT na Caxangá tem dois eixos. Pelo projeto, a estação prevista no elevado integra com o eixo Norte/Sul, mas ela ainda está incompleta”, apontou. A Secretaria das Cidades informou que ainda falta fazer a finalização do elevado e da estação BRT Bom Pastor, que teve a licitação iniciada no dia 17 de maio deste ano. A empresa que vencer deverá  executar os projetos remanescentes. Também foi aberto o processo de licitação para o serviço de iluminação do elevado.

Um bairro que era endereço da elite

Uma das premissas dos corredores de transporte é o adensamento populacional. Foi assim, por exemplo, em Curitiba. Os corredores de BRT foram bastante adensados, uma vez que a oferta de transporte é um dos maiores atrativos. Na região próxima à Avenida Caxangá, o que prevaleceu nas últimas décadas foi o setor de comércio e de serviços. As residências são mais interiorizadas nas vias transversais à avenida. Mas é um cenário que começa a mudar. O Diario constatou a construção de prédios residenciais de até 20 andares em vários trechos da avenida.

O arquiteto Geraldo Santana lembra que nem sempre o setor de serviços prevaleceu na Caxangá. O bairro já teve seu período de residências nobres. “O bairro Caxangá era chique e voltado para quem tinha um poder aquisitivo mais alto, a exemplo de Apipucos. Eram terras de engenhos que foram loteadas. Hoje ainda há o Caxangá Golf & Country Club, mas dificilmente a Caxangá voltará a ser endereço da elite.” 

O aposentado José Aguiar, 66 anos, se mudou para o bairro em 2004. Ele mora em uma das vias transversais e elogia a facilidade no transporte público. “O acesso é bem fácil. Passa ônibus aqui para qualquer lugar da cidade. A vantagem de não morar na avenida é que tem menos barulho de trânsito”, afirmou. 

Ao longo da avenida há uma grande diversidade de comércio. Em alguns trechos prevalece a venda de carros novos e usados, uma espécie de nicho, que teve início na Rua José Osório, que dá acesso à Caxangá. Mas há também supermercados, bancos, escolas, igrejas, dois hospitais, o Barão de Lucena e o Getúlio Vargas, que fica no cruzamento da Caxangá com a Avenida San Martin. E muitas farmácias. Há ainda muitas lojas que fecharam as portas, a maioria nas imediações do elevado Bom Pastor. 

Mas há também novos negócios sendo abertos. Em um deles, o Diario encontrou o engenheiro Patrick Fillus, 41 anos, um paulista, que foi contratado para montar a estrutura de uma nova farmácia. “ É muito grande o volume público que passa na via.”


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