Diario nos Bairros Fábrica da Torre pode ser tombada Desativada há 36 anos, indústria têxtil surgida no século 19, no bairro da Torre, foi o marco do desenvolvimento local e ficou na memória dos moradores

Por: Anamaria Nascimento - Diario de Pernambuco

Publicado em: 05/06/2018 10:20 Atualizado em: 05/06/2018 10:30

Fábrica e vila de funcionários foram o principal fator de ocupação da região. Foto: Gabriel Melo/Esp DP
Fábrica e vila de funcionários foram o principal fator de ocupação da região. Foto: Gabriel Melo/Esp DP

Símbolo dos tempos áureos da indústria têxtil em Pernambuco, o Cotonifício da Torre, Zona Oeste do Recife, às margens do Rio Capibaribe, pode ser tombado pela Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe). Como o pedido de proteção das instalações da extinta fábrica, feito em 2013, foi aceito pelo órgão estadual, é proibido construir ou reformar no terreno sem consultar a Fundarpe. O Conselho Estadual de Preservação do Patrimônio Cultural (CEPPC) vai analisar a petição, mas não há prazo para uma decisão ser tomada. Enquanto o processo tramita, porém, o bem deve ser tratado como se já fosse tombado.

Entre os moradores que residem nos entornos da antiga fábrica, circula a informação de que o espaço vai ser usado para a construção de um shopping. Outros dizem ainda que uma grande construtora adquiriu o terreno para transformar a área em um condomínio de luxo. Nenhuma dessas possibilidades foi confirmada pela Prefeitura do Recife. No Conselho de Desenvolvimento Urbano (CDU), por onde devem passar todas as obras de impacto da cidade, já que cabe ao órgão autorizar ou não projetos imobiliários, nenhuma proposta foi ou está sendo analisada.

O terreno é um bem da massa falida do antigo Banorte. O acesso ao local é proibido. Do lado de fora, é possível perceber que as paredes da velha fábrica estão mofadas. Um matagal cresce próximo à chaminé que se tornou uma marca do bairro da Torre. 

Abrir a janela para ver a fumaça que saía do fumeiro e o barulho das máquinas de tear funcionando fazem parte das memórias do representante comercial Fernando Neves, 67 anos, que desde a infância vive nos arredores do cotonifício. “Eu não conseguia dormir quando as máquinas paravam. O barulho era nossa rotina. A gente estranhava o silêncio”, recorda. “Disseram que tinha um projeto para virar shopping. Acho que iria valorizar a área”, completa.

O técnico em edificações Edson Bezerra de Melo, 67, também tem boas recordações da fábrica. “Trabalhei preparando o algodão para fazer tecidos. Meu horário era das 22h30 às 5h30. Meus primos também trabalhavam”, conta. Até hoje, ele vive nas proximidades do cotonifício. “Eu diria que 70% das pessoas que moram por aqui tiveram alguma relação com a fábrica. O bairro passou a existir mesmo depois dela”, ressalta. 

O arquiteto pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), membro do Conselho Estadual de Preservação do Patrimônio Cultural e um dos autores do pedido de tombamento, Rodrigo Cantarelli, explica que o cotonifício, embora o bairro tenha tido origem nos antigos engenhos, foi o marco mais importante de desenvolvimento da Torre. “A partir da fábrica, ruas foram abertas, vilas operárias foram criadas. Ela faz parte não só da identidade do bairro, mas da cidade e de todo o estado, pois era uma das maiores de Pernambuco”, enfatiza.

Depois de ter deferido o pedido de tombamento da fábrica, um documento de 21 páginas, a Fundarpe está realizando o exame técnico em que são consultados historiadores, arqueólogos, arquitetos e outros especialistas, para que a petição siga para o CEPPC. O processo já tramita no órgão há cinco anos, mas não há um prazo para uma definição. Há pedidos que são processados integralmente em apenas dois anos, mas também existem solicitações de preservação que passam cerca de 30 anos para serem aprovadas ou não. 

“A partir da fábrica, ruas foram abertas, vilas operárias foram criadas. Ela faz parte não só da identidade do bairro, mas da cidade e de todo o estado, pois era uma das maiores”
Rodrigo Cantarelli, pesquisador

Entenda
Fábrica da Torre é o nome pelo qual ficou conhecida a Companhia Fiação e Tecidos de Pernambuco

Em meados do século 19, o cultivo do algodão passou a representar uma das atividades econômicas de destaque em Pernambuco

Nesse contexto, surgiram as primeiras indústrias têxteis no estado, entre elas a planta na Zona Oeste, fundada em 1874 na Madalena e transferida para Torre em 1884

Depois, surgiram as fábricas de Camaragibe, de 1892, de Paulista e de Goiana, fundadas em 1893

A fábrica chegou a realizar, na primeira metade do século 20, uma das maiores produções têxteis do estado

O cotonifício atuava desde o tratamento do algodão natural até o enfardamento dos tecidos de todas as variedades

A fábrica apareceu no anuário estatístico de Pernambuco de 1927 como a terceira em valor da produção no estado

Ficava atrás apenas da Companhia de Tecidos Paulista e da Societé Cotonniére Belge-Bresiliense, de Moreno

Os dirigentes do cotonifício chegaram a fundar um clube de futebol, chamado Torre Sport Club, que teve torcedores ilustres, como o governador Estácio Coimbra

A partir de meados dos anos 1970, ocorreu no Brasil um processo de reestruturação empresarial, fazendo com que muitas empresas fechassem

A Fábrica da Torre teve as atividades encerradas em 1982. As instalações fabris foram compradas pelo Banorte

A maior parte das construções começou a ser desocupada ou demolida

Soluções viáveis no Brasil e no exterior

Apesar de não existir projeto para a construção de um shopping na área da Fábrica da Torre, a transformação do espaço em um centro de compras não significaria um prejuízo ao patrimônio. Um exemplo é o Bangu Shopping, que transformou a Fábrica de Tecidos Bangu, de 1893, em um complexo de lojas e praça de alimentação na Zona Oeste do Rio de Janeiro.

A fábrica carioca também tem sua história ligada ao futebol, pois foi o berço do Bangu Atlético Clube, fundado em 1904, e também foi o local onde aconteceu a primeira partida de futebol do Brasil. Thomas Donohoe, que hoje tem uma estátua no Bangu Shopping, foi operário. 

O prédio da fábrica foi tombado em 2000 pelo Instituto Rio Patrimônio da Humanidade. Em 5 de fevereiro de 2004, a fábrica encerrou as atividades e, em 2007, o prédio virou um shopping. As características arquitetônicas foram mantidas. “Outro exemplo é o LX Factory, em Lisboa. A área industrial conta com lojas, cafés, bares, restaurantes, livrarias”, afirma o arquiteto Rodrigo Cantarelli. O modelo português é um complexo de edifícios industriais revitalizados. Os prédios haviam sido ocupados pela Companhia de Fiação e Tecidos Lisbonense a partir de 1846 e, nos anos subsequentes, pela Companhia Industrial de Portugal e Colônias, pela tipografia Anuário Comercial de Portugal e pela Gráfica Mirandela. As fachadas com estética fabril foram mantidas, mas ganharam intervenções artísticas urbanas.

Londres, na Inglaterra, também pode servir de inspiração para o Recife. “A cidade tem alguns dos maiores modelos de uso de prédios com arquitetura industrial. Dar uso, mas preservar o traçado é o mais importante”, pontua a professora do Departamento de História da UFPE Isabel Guillen. Um investimento de 200 milhões de euros transformou uma antiga usina de força na galeria de arte Tate Modern. 

De acordo com o Comitê Internacional para a Conservação do Patrimônio Industrial, existem valores do patrimônio industrial que devem ser obrigatórios preservar como o sentimental, o científico e o tecnológico além de elementos construtivos, como a maquinaria e a paisagem industrial.


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